quarta-feira, 31 de maio de 2017

Porquê há crises financeiras ?


 
um teste de fenomenologia sociológica

Algumas teses de fenomenologia das sociedades contemporâneas
O motivo de duplo laço da cena do mercado
A propriedade do dinheiro
Se as finanças perdem o ‘motor’ económico


1. Quando escrevi, em 2007, sobre a economia como ciência terapêutica, ignorei as finanças e quando escrevi, para o Expresso, sobre a especulação financeira, ignorei a minha fenomenologia dos duplos laços. Aliás, no Jeu des Sciences, os duplos laços da economia eram entre as técnicas do engenheiro e o mercado do economista, também sem isolar as finanças; desde novo eu sabia que havia um instituto de ciências económicas e financeiras (hoje ISEG, das finanças à gestão), sem entender bem a diferença: entre duas ciências? não são a mesma? A crise incita-me a tratar da questão, nos limites simplistas duma abordagem geral de leigo, é claro.
2. A questão – porque é que há crises financeiras? – vale, a meus olhos, como um teste ao interesse que pode ter a minha proposta duma fenomenologia geral em termos de duplos laços aplicada à complexidade sociológica inextricável das sociedades contemporâneas, de que a economia é apenas uma componente; pode esta fenomenologia ensinar algo que de outra maneira seja só a confusão de argumentos que se sabe, cada um puxando a brasa à sua especialização e ninguém tendo possibilidade de a globalizar suficientemente, justamente por ser especialista? Por ora não sei a resposta (mas peneiras não me faltam): este ‘suspense’ faz parte do gozo intelectual de escrever para compreender. Creio justificado o interesse duma fenomenologia dos duplos laços nos outros campos de conhecimentos, tanto em física e química (mormente a questão do laboratório e da centralidade das equações / medidas das suas variáveis), biologia, linguística, antropologia e psicanálise, como aliás na maneira de estabelecer correlações entre eles, o que também não é evidente hoje em dia: os cientistas por estarem em geral bloqueados pelo respectivo paradigma em relação aos de disciplinas vizinhas, os filósofos por dependerem do que os cientistas acham e não terem recebido a liberdade de pensar as ciências além dos paradigmas laboratoriais, liberdade essa que me veio, por um lado, de ter uma formação de base científica (engenheiro civil) sem ter uma formação de base filosófica e, por outro, de ter descoberto – através da problemática estruturalista da linguística saussuriana[1] – Derrida e Heidegger como permitindo abordar estas questões gerais suscitadas pelas grandes descobertas científicas do século XX. Mas há que dizer que esta fenomenologia com ciências deixa estas na autonomia dos respectivos paradigmas, não sobrepõe argumentos mas coloca-os aonde as ciências não vão, além dos paradigmas laboratoriais, onde se quedam porque é onde sabem. Vamos então à questão, começando por três ou quatro prolegómenos recapitulativos de fenomenologia sociológica.

Algumas teses de fenomenologia das sociedades contemporâneas
3. Uma tese sobre as sociedades contemporâneas consiste em dizer que elas deixaram de ter a sua coesão enquanto sociedade em lógicas dependentes das estruturas de parentesco, na Europa com uma classe dominante aristocrática que transmite a propriedade e o respectivo poder genealogicamente com as alianças matrimoniais e com um laço religioso englobando-a com as classes produtivas, já que uma lenta revolução estabeleceu três laços transversais aos vários sectores de cada sociedade: o do mercado, o da regulação pelo Estado e o da escola e da língua e dos médias de massa, desde os livros e os jornais até aos de sons e imagens. Quando há crise, é nestes três laços que ela se manifesta.
4. Consequente desta, outra tese consiste em dizer que acabaram as casas, unidades sociais (mormente agrícolas e artesanais) em que os paradigmas dos usos dizem respeito tanto à ordem do parentesco como à da actividade económica, esta tendencialmente em autarcia, tal como as regiões em torno duma cidade (Lisboa alimentada pelos “saloios”), havendo escola e mercado apenas em sectores marginais urbanos. A revolução industrial, suscitada essencialmente pela invenção da máquina a vapor durante o seu primeiro século e depois pela da electricidade e máquinas com motor eléctrico (bem como do betão armado), criou dois (relativamente) novos tipos de unidades sociais cindindo as antigas casas, as instituições, em que se tem um ‘emprego’ de trabalho especializado, e as famílias, multiplicando os prédios de apartamentos das ditas classes médias. É nesta pertença a mais duma unidade social – família, escola, emprego – contra a clausura das casas de antanho, multiplicação de laços quotidianos com autoridades diferentes, que consiste a liberdade específica do indivíduo moderno.
5. É também tese aqui, contra o hábito das ciências das sociedades, que uma sociedade é composta, não de populações nem de indivíduos as modernas, é composta das unidades em que estes são socializados como indígenas pelos paradigmas dos respectivos usos que aprenderam. As instituições organizam-se por regra em sectores diversos com laços entre si (alimentação, saúde, alojamento, construção, transportes, e por aí fora), mas as que dizem respeito aos três laços transversais – escolas e médias; repartições de Estado administrativas, judiciais e de segurança; bancos e seguros – criam laços que tendencialmente atingem todos os sectores. O que aconteceu nos anos 60 e 70 do século passado, como libertação de mulheres e jovens e de sexualidades proscritas, foi o ultimar da quebra das ‘casas’, do domínio do ‘parentesco’ sobre o ‘económico’, do patriarcado do ‘pai’ como ‘patrão’, a individualização que a escola e o salário tinham trazido aos homens generalizou-se às mulheres[2]. Ao nível dos usos quotidianos deu-se uma ruptura entre os saberes de duas gerações, a dos pais e a dos filhos: automóveis, electrodomésticos, televisão, pílula feminina, todos com efeitos de libertação individual. Mas também, se dantes enriquecer resultava ou de herança no parentesco ou de trabalho empresarial na economia, agora esta dirige-se directamente aos indígenas, suscitando o desejo de ser rico: à generosidade dos hippies da primeira geração libertada de jovens sucedeu a dos yuppies dos anos 80.
6. Foi no início dos anos 70, se bem me lembro, que se começou a falar de ‘multinacionais’, fenómeno que cresceu fortemente depois, com o laço de mercado e em parte o dos médias (em inglês ou com tradução) a ultrapassarem as fronteiras, o que as emigrações faziam havia séculos (escravatura e criação das Américas), mas agora enlaçando também e sobretudo as populações que não emigraram: cosmopolitismo – fim do domínio dos antepassados de parentesco e do sagrado correlativo, substituído este pela cultura histórica (autores, invenções) e mediática – implica ambas as coisas, quer as culturas dos que emigram, quer as dominâncias dos capitais e das mensagens multinacionais sobre os nacionais, ou ‘sobrenacionais’ (‘sobre’ mais do que ‘inter’), que a reacção em geral dos que são invadidos em suas fronteiras é por regra reacção de neo-colonizados: basta ver como todo o mundo asiático adoptou a gravata europeia que ignoravam. Também este cosmopolitismo tem como consequência a multiplicação de alianças entre Estados, nomeadamente a União Europeia, a minorar a sua impotência sobre o além fronteiras, mas consequência também que as guerras entre grandes potências se tornaram improváveis, elas fazem-se “aos bocados”, regionais, como diz com humor lúcido Francisco de Roma.

O motivo de duplo laço da cena do mercado
7. Lembremos o motivo de duplo laço: trata-se duma unidade dupla que se move, altera, composta de elementos diversos ligados entre si de maneira a ser capaz de movimento numa cena de circulação aleatória, a qual determina a ‘anatomia’ da unidade em duplo laço; por um lado, laço motor repetitivo que dá a energia do movimento, por outro, laço aparelho, com regras recebidas da cena, guiando os movimentos da unidade face às outras que também circulam. O tráfego da estrada com automóveis, motos e camiões, dá para visualizar. ‘Unidade dupla’ implica que se trata de laços cuja anatomia é regida por duas leis indissociáveis (nem ‘motor’ nem ‘aparelho’ pré-existem por si só, separados, apenas um com o outro) que são também inconciliáveis (no caso dum automóvel, o ‘motor’, os cilindros regidos por uma lei termodinâmica dos gases em explosão, são hermeticamente fechados para evitar danos no tráfego). Os três laços transversais das sociedades contemporâneas regulam as três lógicas mais gerais da circulação social: o mercado a dos bens, a escola e médias a dos discursos e o Estado a da ordem e segurança do conjunto (tanto unidades sociais como indígenas).
8. Trata-se agora de tentar caracterizar a cena do mercado como laço que regula a circulação dos bens: produzidos numa fábrica, por exemplo. As oficinas de produção e os escritórios de planificação são um laço interno à fábrica, com autonomia relativa ao mercado: a sua lei de produção de coisas úteis é de ordem técnica, depende da figura do engenheiro. Mas a montante e a jusante este laço enlaça com o do mercado, quer nas compras de máquinas e matérias primas, quer na venda dos produtos enquanto mercadorias, segundo preços dependentes dos custos envolvidos na produção, dos salários dos trabalhadores e dos lucros esperados (além dos empréstimos à banca, impostos, etc.). Antes e depois do laço da produção (repetitiva: cadeias de montagem, por exemplo) que é o ‘motor’ da empresa, o laço empresarial do mercado regido pelo economista, está atento às oscilações da procura (joga com a publicidade) e possibilidades de extensão da oferta a novas regiões, exportações quiçá, e por aí fora. Que são indissociáveis, não dois laços mas um e duplo, salta à vista; a sua inconciliabilidade é menos visível, mas sente-a o engenheiro nas exigências constantes do economista de baixar custos e nas ameaças que elas representam para a qualidade que ele, engenheiro, deve assegurar. Sentem-na também os trabalhadores, já que os seus salários, que são a contrapartida do seu papel imprescindível na produção, são vistos pelo economista como ‘custos’ a baixar. Foi aqui que Ford percebeu que os seus trabalhadores também fazem parte do mercado pelo lado das famílias e por isso da procura de carros: aumentar-lhes os salários era aumentar também as vendas, desde que se enxergue mais o mercado, além dos muros da fábrica: a inconciliabilidade jogando com a indissociabilidade, questão de imaginação.
9. É o que temos que fazer também aqui, olhar a cena do mercado como circulação das mercadorias produzidas aquém dele, em ordem a serem compradas e saírem do mercado, para serem usadas. Também o mercado é um duplo laço entre vendedores e compradores, moedas em troca de mercadorias, as quais, uma vez compradas, saem do mercado, vão aos usos para que foram fabricadas, quer em famílias, quer em outras instituições, que tanto podem ser de duração mais ou menos longa, roupa ou máquina, como de consumir logo, se for comida, por exemplo, enquanto que as moedas tornam o vendedor por sua vez comprador de outra mercadoria, nunca saem do mercado, ainda quando depositadas em bancos só valem como potencialidade de compra. As mercadorias são pois passageiras enquanto tais, entram no mercado e saem, enquanto que a moeda permanece no mercado, repete-se como o seu ‘motor’, já que sem ela não há movimento de troca: ela só vale em relação ao mercado, constitui o laço que dá o movimento com a energia dos desejos de compra e de venda. Este laço é indissociável do outro, o das mercadorias e seus preços, que são elas que são movidas, dumas mãos fabricantes para outras que as usam em suas unidades locais: laço que é ‘aparelho’ que, com a troca de moedas, liga compradores e vendedores o tempo duma dada venda, fornecendo uma língua que ambos têm que conhecer, a língua (económica) dos preços correntes, este termo indicando que há uma oscilação maior ou menor destes e que a necessidade de os conhecer é inerente aos interesses de ambos os lados da venda / compra, que têm uma relação antagónica em relação ao preço (que depende, é claro, da qualidade), isto é, à quantidade de moeda que o comprador deixa de ter e que o vendedor passa a ter. Ainda quando se trate de uma pechincha, a relação de ambos com a moeda (com o preço) é sempre inconciliável, poderia ser mais barato, acha o comprador, e mais caro para o vendedor, mas só porque o mercado os interessa a ambos indissociavelmente: ninguém pode viver em autarcia numa sociedade de grande especialização de trabalhos, tem sempre que comprar quase tudo aquilo que usa e para isso tem que ter uma especialização do lado das vendas que lhe garanta um salário.

A propriedade do dinheiro
10. [cito “As duas faces da moeda”] A tradição da esquerda tem dificuldade em aceitar o dinheiro, mas tal como a electricidade na dimensão técnica, é impensável a contemporaneidade na dimensão social sem ele, já que dá uma liberdade elementar, a de escolher o que se quer e precisa, dentro dos limites do orçamento familiar. Dos números a moeda recebe a razão de calcular, de estabelecer preços para as trocas diárias, segundo custos e tempos de trabalho. Esses números permitem uma ciência em que a moeda, a sua face monetarista, reduz tudo o que não é ela: de tudo o que seja mercadoria, só retém quantidades e preços, única maneira de encontrar regras no complexo mundo das trocas; enquanto tal, a economia não sabe nem de biologia nem de antropologia nem de politica, não sabe de fome, de doença, de escola, nem de bem e mal. Mas a moeda tem outra face, que a torna diferente dos números e das letras e das palavras e das músicas, sistemas que se podem comparar com o seu. Estes sistemas, embora tenham artistas que jogam melhor do que o comum das gentes, não têm donos, pertencem aos usos de todos como queiram, são parte da liberdade de sermos humanos em sociedade. Mas a moeda só pode funcionar como reguladora de trocas, uma das partes de cada troca, a outra sendo uma mercadoria, só o pode fazer por ser propriedade de quem a usa para comprar e tornar-se propriedade de quem cede a mercadoria que vende. Não há dinheiro sem dono, faz parte da lógica da moeda, da sua positividade, senão não serve para trocar, não é moeda.
11. A propriedade do dinheiro, logicamente, é como a de qualquer coisa ou edifício, é inerente a toda a unidade social que se estabeleça, família ou empresa, mas só vale em relação ao mercado, a uma ida possível a comprar algo para seu uso: numa ilha deserta ninguém é rico (mas pode ler se tiver livros, cantar música ou fazer cálculos). Faz todavia parte da lógica da tabuada que os números sejam sempre maiores do que os precedentes, o que dá à moeda um papel malicioso, que é o de dinamizar a economia acicatando desejos de ter maiores quantidades, sempre mais, sempre mais do que o vizinho, o colega, o rival, o concorrente. E como ela funciona nos cálculos económicos reduzindo o que não é ela, pode neste acicatar desligar-se de ser preço, de ser meio de troca, tornar-se especulação, com o seu factor narcísico inerente ao desejo de posse, sem o qual não há moeda, como se disse. É aqui que a esquerda tem razão no diagnóstico, o problema é que o remédio radical contra a propriedade, aonde a revolução o levou a cabo, além das censuras ditatoriais, estancou o dinamismo das economias. Ora, a lógica dum duplo laço, dum aparelho inconciliável com um motor donde recebe o movimento, não pode ser a de cortar com ele, mas a da regulação do movimento, no caso a regulação do mercado.
12. O que se chama pejorativamente ‘ganância’ é pois uma componente intrínseca dos mercados, aquém da moral[3], que encontra terreno fértil na respectiva componente financeira, necessária nomeadamente para empréstimos de unidades sociais que não disponham de capital para investimento da produção, edifícios, maquinaria, matéria prima, salários e outras despesas antes da rotina de produção poder financiar-se com as vendas feitas. Esta é a função elementar e essencial da banca, alugar dinheiro durante um certo prazo, emprestá-lo para tornar possível a produção. Carecendo de produção e portanto de mercadorias, em vez de vender (coisas), a banca aluga (dinheiro): é uma outra lógica, bem antiga aliás[4], que se sobrepõe à do mercado, e que, pressupondo dinheiro já acumulado previamente, permite ganhar dinheiro sem passar pelo trabalho de produção (nem de distribuição comercial). Resultando da produção e dos lucros desta, as finanças são por assim dizer subsidiárias do duplo laço técnica / economia, embora, é claro, do lado desta. Mas sem produção! Essa é a diferença: sendo parte essencial do mercado enquanto factor da economia, a banca (e as bolsas, etc., aqui limito-me à banca pelo pouco que sei), as finanças não têm produção, são relativamente autónomas em relação a esta, como a economia não é. E por aí oferecem às economias tentações financeiras, que incidem justamente na relação inconciliável entre lucros e salários, entre accionistas e trabalhadores, contra estes, obviamente. Porque o que é menos óbvio mas mais democrático, é que não há nunca ‘salários justos’ a não ser, como na fábrica francesa de envelopes Pocheco do filme Amanhã, ‘justamente’ quando todo o lucro é investido, após ajustados os salários[5]. Isto é, quando a empresa é justa, salários solidários como solidário é o seu funcionamento.         

Se as finanças perdem o ‘motor’ económico
13. Ora bem, aqui o leigo chega aos limites do seu saber e arrisca: se for verdade que o que está em questão na crise financeira recente é a falta de relação dos capitais financeiros com o mercado propriamente dito, o da economia de produção e consumo. Esta tem sempre limites, os da procura que pode estabilizar-se ou baixar, a que se obvia estendendo as suas redes a outras zonas e a outras produções; também as bolsas de acções jogam em função da saúde económica das empresas respectivas, podendo sem dúvida enganarem-se os jogadores e perderem por causa disso. As agências de ranking foram criadas, parece, para obviarem bem ou mal (parece que se enganaram redondamente no que esteve na vertigem da crise) à falta nas bolsas dum referencial económico dos mercados, de línguas de preços. Mas a história das “subprimes” parece ser típica duma ‘produção financeira’ sem relação com a economia, apenas com dívidas mal paradas de trabalhadores de fracos salários. Estes, por sua vez, futuros votantes em Trump por certo, eram já vítimas do desacerto decisivo da teoria económica da escola de Chicago que convenceu Reagan e Thatcher a seguirem politicas favorecendo a retribuição dos accionistas em detrimento dos salários, isto é, a financeirizarem as economias, perdendo o fito do mercado e, cúmulo das coisas, chegou-se a um ponto em que toda a minha gente fala em “mercados” para designar esta bolha deles que, sem mercadorias, não é nenhum mercado, basta que não tem a ver com nenhuma língua económica de preços. É a esta ausência de relação ao verdadeiro mercado em que se fazem trocas, à produção como seu motor nas empresas, que se chama especulação. [Esta palavra, de ‘espelho’ (speculum), significou o alvo duma crítica da filosofia medieval, do seu jogo conceptual interno sem reenvio para as coisas, para a dita realidade, jogo que se alimentava de si mesmo. Um aforismo crítico célebre, que ilustra a posição nominalista dita “navalha de Occam”, dizia que “os entes não devem ser multiplicados além do necessário”, esses ‘entes’ sendo abstracções supostas reais; tal aforismo poderá ter alguma utilidade no que diz respeito à tal engenharia financeira inventada, como as “subprimes” de má memória]. A moeda do mercado só é motor deste porque desejada em termos de preços, compras e vendas. Há dois outros sectores das economias modernas, as terras e os trabalhadores, que são igualmente especulativos neste sentido, como foram diagnosticados por Karl Polanyi no seu livro notável A grande transformação. Nas origens politicas e económicas do nosso tempo (1944) de forma desconcertante à primeira vista. O seu argumento é que nem as terras nem os humanos são feitos para serem mercadorias, têm existência fundada e consistente previamente ao mercado. Assim como a moeda também não foi feita para ser mercadoria de outras moedas nas guerras de câmbio, nas especulações exclusivamente financeiras (os engenheiros devem ter vergonha de ouvirem chamar a estas ‘engenharia financeira’!), também não há critérios de mercado em relação a terras, sejam ou não de agricultura: sabe-se bem como os terrenos favoráveis em meios urbanos ou turísticos sofrem especulações desenfreadas, sem critérios de regulação que haveriam de ser políticos, como o são as decisões dos salários: ou poder patronal tirano em tempos de desemprego, ou greves, ou concertação de contratos; aqui, o especulativo assinala-se nos salários milionários dos ‘bons’ gestores. Mas como se justifica o argumento de Polanyi em relação à moeda, já que ela não é prévia ao mercado? Justifica-se pelo lugar que ela tem neste: ligada à lista dos preços, ela tem, no duplo laço que é o mercado, o papel de motor regulador das trocas: é isso que a impede de ser mercadoria. Na especulação financeira, ela é jogada arbitrariamente (quero crer) sem relação ao ‘real’ da economia: sem língua de preços, quer-se sempre mais, como era nos saques (que a troca monetária substituiu). O que especulação aqui significa, poderá ser dito assim: trate-se da terra, cuja fecundidade nos dá aquilo que nos alimenta e das ameaças sobre o ambiente climático poluído, trate-se dos trabalhadores assalariados, que são antes demais cidadãos, trate-se da moeda como mecanismo de regulação dos mercados, da racionalidade possível das trocas, nenhum destes três domínios, segundo Polanyi, deve ficar entregue ao que se chama “leis do mercado”, mas ser submetidos a regulação política, pelos Estados ou suas alianças nesse sentido.


[1] Na minha tese de doutoramento (1989), com Luís Lindley Cintra, Mª Alzira Seixas, Vítor Aguiar e Silva, Fernando Gil, António Marques e Malaca Casteleiro. Apadrinhada pelos dois primeiros, doutorei-me em Linguística, porque não consegui arranjar um professor de filosofia para a dirigir, como aliás F. Gil e A. Marques, os dois filósofos do júri, não conseguiram arguir, a problemática pós-estruturalista era então desconhecida em Portugal.
[2] Começou-se a falar de ‘género’ para as relações sociais entre masculino e feminino, que o termo ‘geral’, ‘género’ diferente de ‘espécie’, ‘general’, era até aí feudo patriarcal, sem ‘generosidade’.
[3] Os espirituais preferem o ‘espírito de pobreza’; conceberam-se historicamente economias comunitárias nessa base, em regra não duraram o teste das gerações sem se abastardarem (frades pobres em ordens ricas): ela não é adequada às sociedades humanas, em que os santos são excepção.
[4] Já no século VII antes da nossa era, o livro bíblico do Deuteronómio (cap. 15) propunha medidas de regulação jurídica dos empréstimos, protegendo os que não conseguiam saldar as suas dívidas.
[5] 114 pessoas, dois terços operários, fazem dois biliões de envelopes por ano, 22 milhões de euros por ano de volume de negócios, crescimento de 3% por ano desde há 10 anos, salários de 1 a 4, a partir do salário mínimo aumentado de 15%, uma economia fortemente ecológica.


Ser e movimento: o verbo for




1. Conhece o verbo for em português? À primeira vista parece que não existe, a gramática de Cândido de Figueiredo diz que há quatro conjugações, em –ar, –er, –ir e –or, e nesta só existe o verbo pôr e seus derivados, como propor, compor, etc. Mas se eu digo, ‘se eu for...’ ou ‘eu fui...’, que verbo é esse? Depende do resto da frase, dirão: ‘se eu for a Lisboa’ ou ‘fui a Coimbra’, é o verbo ir, ‘se eu for casado’ ou ‘eu fui aluno do Pedro Nunes’, é o verbo ser. Estes dois verbos são de morfologia irregular, com radicais diferentes, ‘for’ pertence a um deles. Não é só em português, também em francês e castelhano, herdeiros igualmente do latim. Só em certo tipo de tempos e modos, pretéritos perfeitos simples e mais que perfeitos e alguns conjuntivos, mas que nem sempre coincidem. Em qualquer dos casos, trata-se de formas diferentes de dois verbos, ‘ser’ e ‘ir’, que aparentemente não têm nada a ver um com o outro, tanto mais estranho quanto em latim só o verbo esse é que o tem, não o ire (verbo que por sua vez não existe em italiano, apenas andare). Seria curioso, mas acima das minhas capacidades, saber se houve em tempos um verbo ‘fore’ em latim (não há verbos em ‘–ore’ em latim!) que depois tenha sido acolhido por certas morfologias do esse.
2. O que permanece de curioso, é que estas línguas vindas do latim tenham incorporado o ‘for’ não apenas no ‘ser’ e ‘être’, mas igualmente no ‘ir’ e ‘aller’, curioso além da gramática, para o filósofo justamente: dizem uma enigmática relação, não entre ser e tempo, como quereria Heidegger se não desprezasse as línguas latinas do ponto de vista filosófico, mas entre ser e movimento de andar, de mudar de lugar. Mas esta ‘mudança’ não parece comparável com ‘ser’, nem com ‘estar’, com a estabilidade, como quem pergunta: ‘como estás?’, respondendo-se muitas vezes ‘vou andando’, como quem diz que enquanto posso mudar de um lugar para o outro, tenho estabilidade que chegue para ‘estar’ vivo. O que não deixa de ser engraçado, porque andar é extremamente instável, enquanto um pé está no chão o outro está no ar. Mas estar vivo é a minha condição para ‘ser’, o ‘meu cadáver’ não serei eu, expressão que nunca poderei dizer no presente, num presente como aquele em que se pudesse dizer ‘estou morto’ (como tentou um conto de Edgar Allan Poe que Barthes analisou, O caso do sr. Valdemar).
3. O verbo ‘for’ é mais forte do que esta relação entre ‘ir’ e ‘estar’, que ele se tenha imposto em várias línguas latinas (e no romeno?) sem que pareça haver para tal uma fonte latina. O que é espantoso é esta relação forte entre ‘ser’ e ‘ir’, entre ser e mover-se, manifestar-se num enigmático fenómeno de criação de morfologia verbal, relacionando dois dos verbos mais usados das respectivas línguas – do verbo ser para o verbo ir – e em várias línguas independentes entre elas (uma das quais nem tem o verbo ir), é esta questão que dá que pensar. Assim a modos como a relação do tempo com os passos, com o andar, que me veio em Os passos que o tempo dá, neste blogue. É que ‘ser’ e ‘movimento’ foram relacionados no motivo mais forte da filosofia aristotélica, o de ousia, que diz o ‘ser’ (substância e essência) para explicar o ‘movimento’, a alteração das coisas, dos vivos nomeadamente. Que as línguas sejam imotivadas implica que não haja resposta a esta questão? Então, e os ‘passos’ dando o verbo do ‘tempo’, aí a língua não é imotivada? Ou também aí não se ‘explica’?

sábado, 20 de maio de 2017

Heresia e ideologia



           1. É uma curiosidade: são duas palavras que, uma na Antiguidade helenística, a outra nos inícios do capitalismo, tiveram um destino equivalente.
2. Heresia, do termo grego hairesis – que indica “preferência por uma doutrina, escola filosófica, médica, religiosa, seita politica” (Magnien / Lacroix) –, designava as escolas de pensamento espiritual no império romano, na vertente grega culturalmente dominante; assim as escolas de filosofia platónica ou estóica ou epicurista, bem como outros cultos vindos do Médio Oriente, Síria, Pérsia, incluindo o novel movimento cristão, que num dos seus textos da viragem do 1º para o 2º século, chamado Actos dos Apóstolos, várias vezes utiliza o termo, referindo grupos de opinião como fariseus e saduceus e, inclusive, no cap. 24, vers. 5, a si mesmo se chama ‘heresia’ (traduzido por ‘parti’ na Bíblia de Jerusalém), embora em designação de adversário. Em meados desse 2º século, já intelectuais cristãos, como Justino e Ireneu de Lião, em polémica com outros intelectuais cristãos, usam ‘heresia’ e ‘herético’ dando-lhe um sentido de erro doutrinal que, tornado pejorativo, veio a reforçar-se quando o cristianismo tomou o poder religioso.
3. Ideologia, ciência das ideias, foi um termo inventado por Destutt de Tracy, para designar a sua escola de filósofos franceses revolucionários e materialistas (1796), substituindo na palavra psicologia o grego psyché, alma, por ‘ideia’, termo filosófico europeu que Descartes fizera vingar (como se o pensamento deste e o próprio termo ‘ideia’ fossem materialistas!). Mas os Ideólogos criticaram Napoleão Bonaparte que proibiu o ensino da cadeira deles “ciências morais e politicas” no Instituto de França, contribuindo para tornar na opinião pública pejorativa a designação da escola filosófica sua adversária. Foi o uso que Marx deu ao termo ‘ideologia’, como sistema de ideias seguindo os interesses das classes sociais, que lhe deu vida até hoje.
4. Trata-se portanto nos dois casos de um termo que veicula uma noção de corrente de pensamento ou de opinião e se vê subjugado no seu sentido anterior por uma corrente adversa que veio a tomar o poder intelectual: a heresia e a ideologia são as margens de opinião excluídas por ortodoxias poderosas, não tolerantes da liberdade de expressão. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Psicologia como ciência de seres-no-mundo


exercício de fenomenologia geral

A psicologia institucionalizada a partir da filosofia
Sobre os métodos
Critérios de cientificidade
A qualidade psicológica do profissional
Falta unidade à psicologia
A psicanálise coloca a autobiografia num laboratório
As ciências que ‘cercam’ a psicologia
A biologia: o mecanismo da alimentação
A neurologia cobre em parte o campo da psicologia
A pertinência e a capacidade de dissimulação
Antropologia: o mecanismo da aprendizagem
A infância esquecida
Oscilações e forças
Para concluir: a ‘evidência’ dos psicólogos obsta ao ser-no-mundo
P. S. A tabuada e a gramática como ‘alavancas’ do cérebro


Françoise Parot et Marc Richelle,
Introduction à la Psychologie. Historie et méthodes,
PUF,  [1992] 2004
Annick Weil-Barais (dir.), L’homme cognitif,
PUF, 576 pp., 1996

1. Trata-se aqui duma curiosidade – o que é que são estas psicologias? – e de um desafio – permitir-me-ão elas dizer o que é o ser humano? –, com um ponto de partida antagónico. Desde os meus primeiros contactos com os estruturalismos em Paris, nos finais dos anos 60, que se me impôs a importância filosófica da psicanálise, tendo entrado nela pela Traumdeutung, a interpretação dos sonhos (1900), e por alguns textos de Lacan e Derrida, ao mesmo tempo que fiz uma experiência de ser analisado durante um ano e meio com o lacaniano Pierre Allien. Daí um cepticismo sobre as outras disciplinas psicológicas, que aliás ignorava, alimentado também pela forma negativa como estas se situavam em relação a Freud e mais tarde pela percepção fenomenológica de que no seio do campo das psicologias se situa o enigma estrutural dos seres humanos como lugar da liberdade, assim como a igualmente estrutural indeterminação de mamíferos e aves e das outras espécies animais. Mas por outro lado, o reconhecimento da necessidade de psicólogo/as em áreas muito diversas das sociedades contemporâneas leva-me a procurar compreender como funcionam fenomenologicamente essas disciplinas além da psicanálise. Procurei bibliografia, tendo encontrado o primeiro manual que cito acima, com várias edições de uma editora conceituada, cujo texto li sempre com gosto e interesse e que me deu uma abordagem geral criteriosa, com uma primeira parte de história da psicologia e uma segunda de exposição dos métodos e campos da disciplina.

A psicologia institucionalizada a partir da filosofia
2. O autor da segunda metade, o belga Marc Richelle, é muito claro e cuidadoso, atento aos limites dos métodos que vai expondo, de maneira tal que deixa alguma perplexidade em saber como é que ele, enquanto cientista, adere ao mundo que descreve, favorecendo as minhas dúvidas e pouco lhes contrapondo, algo que pudesse agarrar como arranque para um quadro positivo e com alguma unidade das múltiplas abordagens. A autora da primeira parte tem também a grande vantagem de não se limitar à história interna da disciplina que acompanha até à sua institucionalização a partir do último quartel do séc. XIX, com o primeiro laboratório de psicologia experimental de W. Wundt em Leipzig em 1875 (que será frequentado por candidatos a psicólogos dos outros países mais avançados) e com as primeiras Associações (1892, na América) e revistas (1876, inglesa) de psicologia desses países, França e Inglaterra, Estados Unidos e Rússia, com os primeiros congressos internacionais, o primeiro em Paris em 1889. Françoise Parot dá um longo panorama da história do conhecimento ocidental sobre o ser humano, desde os Gregos e Medievais, mas detalhando sobretudo o período europeu a partir do século XVII, do alvor da ciência moderna. Sublinha assim que, antes da sua institucionalização recente e mesmo antes de surgir a palavra ‘psicologia’ em 1590[1], há uma história filosófica dela.
3. Esta visão merece-me em todo o caso alguma crítica. É que, se começa com Platão e Aristóteles, é sem se dar conta do gesto inaugurador, da invenção da definição (que retira o definido do seu contexto particular) e da correlativa concepção da ‘alma’, imortal no primeiro, forma do corpo no segundo, sem se dar conta de como o campo das actuais psicologias ficou assim delimitado[2]. Com efeito, em nenhuma vez, em todo o livro, se detêm os autores no nome da disciplina, no limite que é a sua etimologia – ‘discurso sobre a alma’, oposta ao corpo e ao mundo, ao contexto – que funda a dicotomia interior / exterior, com que se debate uma das correntes mais decisivas, a do empirismo: a psicologia herdou da ‘alma’ filosófica o ‘interior’ como oposto ao corpo e ao mundo. Mesmo quando se ocupa da corrente de filósofos franceses materialistas do final do século XVIII, os que a si mesmos se chamaram Ideólogos, não se apercebe de que este termo (que rapidamente se tornará pejorativo, por via de Napoleão e de Marx, isso a autora diz) foi proposto por Destutt de Tracy justamente para substituir a ‘alma’ na palavra ‘psicologia’, mas ao colocar no mesmo lugar a ‘ideia’, o seu ‘materialismo’ não se deu conta de ser negado pelo primado da interioridade que a ‘ideia’ representa, mormente pela exclusão da linguagem. Ora, constantemente em tudo o que se diz, mesmo quando se analisam as concepções mecanistas desde Locke e Hume, sempre o humano é oposto ao “ambiente” ou “meio exterior”, a que os “comportamentos” se adaptam. Ou seja, senão as diversas escolas psicológicas, pelo menos as leituras que os autores fazem delas, ignoram o motivo fenomenológico de ser no mundo, como aliás, como escrevi noutro texto deste[3]  blogue, também Freud quase totalmente em sua “one-body psychology” (Rickman)[4]. Sublinhe-se aliás uma surpresa: nunca é questão de sexualidade ou sexo, palavras que quase não aparecem, como se fosse um tabu de quem sabe o papel que têm na disciplina rival.

Sobre os métodos
4. A exposição da metodologia reparte-a entre observação e experimentação laboratorial em torno do motivo de “comportamento”, definido “por essência interacção do organismo com o seu ambiente” (p. 249), o termo ‘organismo’ relevando da biologia e dando conta de como os alvores da experimentação se fizeram na Alemanha que liderava a investigação fisiológica[5], firmando-se assim a corrente filosófica “mecanista” iniciada por John Locke que buscou analogia com a física newtoniana, devendo dividir-se os objectos de estudo até às suas componentes mais simples e recompô-los depois, como Descartes também propunha no seu “método”. O que chamam laboratório, nomeadamente em torno de ratos criados para o efeito, exclui ipso facto a linguagem, mas esta intervém na experimentação por testes, por exemplo, assim como no recurso a estatísticas, o que releva duma maneira laboratorial que, não sendo a da física, química ou bioquímica, contrasta com as correntes que privilegiam os factos de consciência, como o recurso à introspecção, e ainda com os que reclamam a “observação no terreno”, à maneira da etologia em biologia. De qualquer forma, apesar do seu cuidado com a exigência própria de qualquer ciência de que “os dados empíricos com os quais os cientistas confrontam os seus discursos segundo os métodos de observação ou de experimentação [...] devem ser reprodutíveis: um outro investigador, desde que se coloque exactamente nas mesmas condições, deva chegar aos mesmos dados” (p. 207), o autor não parece dar-se conta de que, como em qualquer ciência, esta exigência deverá ‘verificar-se’ nos tais ‘dados’ que, digamos assim, consistem em pequenas narrativas citadas do laboratório nos discursos científicos e que devem poder ser facilmente destacadas na leitura que deles se faça; com efeito, essas narrativas bem destacadas terão um lugar análogo ao dos dados medidos pelos físicos. Obviamente que esta consideração implicaria que me desse, por minha vez, ao cuidado de ler um trabalho científico de psicologia e de verificar como é que as coisas aí se passam. Uma outra observação diz respeito ao capítulo dedicado à questão da medida e do uso matemático em psicologia experimental: tanto quanto me apercebi, a única medida que de facto é utilizada é a do tempo (de reacção a um dado estímulo, por exemplo), o que não chega obviamente para algo de equivalente às várias dimensões medidas em física e implica que a matemática usada seja de ordem estatística, como em economia e sociologia, em torno de testes ou equivalentes que substituirão, caso por caso de investigação, as instituições estatísticas a que estas outras ciências recorrem como seus laboratórios.
5. Estuda-se laboratorialmente, além da “fisiologia das sensações e das reacções motoras elementares”, “a organização perceptiva, os processos de tratamento da linguagem, os mecanismos da memória, as emoções, a afectividade, as formas mais elaboradas de raciocínio e de resolução de problemas” (p. 378). Há uma irredutibilidade clara entre as abordagens psicológica e neurológica: esta funciona com instrumentos físicos e bioquímicos que estudam os neurónios e as suas sinapses, mas sem poder saber, com eles, o que é que o animal ou o humano ‘sabem’ na rede neuronal, no que luminosamente o neurólogo A. Damásio chamou “mente”, esse saber a que só o próprio tem acesso, não o neurólogo. Ora, este ‘saber mental’ dos neurónios, que só se sabe por ser dito pelo próprio, é o reino do psicólogo, se se pode dizer, o ‘lugar fisiológico’ da velha ‘alma’ que a psicologia tem no nome: é donde lhe vêm os dizeres que dão sentido aos fazeres, aos comportamentos, o qual ‘sentido’ é repudiado pelos behavioristas por ser inobservável em termos restritos de laboratório, o que os torna como que rivais ou colegas dos neurólogos. Os novos métodos de abordagem de imagens do cérebro (§ 16) fazem com que a irredutibilidade entre as duas disciplinas se possa, em princípio, ultrapassar em termos de complementaridade (p. 390-2), ou a chamada neuro-psicologia em casos de cérebros atingidos por doenças ou acidentes (p. 247).

Critérios de cientificidade
6. “Ciência do espírito ou do comportamento?”, indaga retoricamente F. Parot num texto da Web sobre o manual, preferindo aqui designá-la como “ciência do humano” (p. 15) (ela diz do ‘homem’). Manifestamente que os dois autores perfilham a preferência pelas correntes de tipo experimental, as referências a outras sendo sempre de passagem, por exemplo à psicologia não directiva de Carl Rogers (p. 375), em que nem sequer o seu nome é citado. Eis as quatro exigências que Richelle põe para que se possa falar de ‘ciência’: “a confrontação do discurso ao real, a procura da prova, a exigência de comunicabilidade, a preocupação de controle” (p. 361). Parece claro que todas as correntes que se refiram à consciência sejam consideradas como não susceptíveis destes critérios positivos, embora sabendo-se que ela é, desde os alvores da filosofia, uma das questões mais importantes do pensamento ocidental. Também a psicanálise parece ficar de fora da cientificidade, embora F. Parot termine o seu texto com a evocação de Freud (na invejável companhia de Marx!), sublinhando como o motivo do inconsciente fazia da consciência falsidade, mentira, e o próprio Richelle fale dele como exemplo dum “grande clínico”, com Winnicott e Janet (p. 297), cuja “influência ultrapassou largamente as fronteiras da medicina e da psicologia, para marcar toda a reflexão do humano sobre si mesmo na alvorada do século XX, no conjunto das ciências humanas – antropologia, sociologia, filosofia – como nas artes e na literatura” (p. 295), acabando mais adiante a pô-la a defender a honra da “psicologia” junto do grande público, ela “não ficou de fora no questionamento ao longo do século XX”: “a psicanálise abalou certamente os códigos da moral sexual e jogou o papel, senão de causa exclusiva, pelo menos de factor capital na deslocação dos interditos na moral europeia” (p. 408). No entanto, termina a página que lhe dedica com a “pretensão científica da psicanálise” e as críticas recentes dos psicólogos não analistas (p. 295). Virei mais adiante a mostrar como ela se pode prevalecer de cientificidade, mas deixo já aqui a minha suspeita de que, além de duas objecções à sua prática terapêutica, o preço e a longa duração, haja algo dum ressentimento inconfessável dos psicólogos contra este sucesso e impacto indesmentíveis da psicanálise. Não deixa de ser espantoso que os sonhos, a primeira grande descoberta da psicanálise, não pareçam fazer parte dos interesses  do campo da psicologia, confissão silenciosa de que não se vê como os analisar, ou mesmo como os ligar aos outros ‘comportamentos’ psicológicos.
7. Todavia, além da psicologia de laboratório com os seus métodos referidos acima, há diferentes abordagens: a psicologia de desenvolvimento em que Piaget tem uma obra importante sobre a criança e depois se estendeu a adultos e velhos, a psicologia comparada de diferentes espécies biológicas, a psicologia diferencial que se ocupa de diferenças entre indivíduos estudadas em populações constituídas ad hoc, as psicologias clássicas de intervenção clínica sobre indivíduos, exploração de personalidade (testes, entrevistas), enfim a psicologia social, mais atenta às interacções entre indivíduos no seu quadro social (p. 378-80). Diferenças de método mas também de campo investigado. Aquele que está no cerne das preocupações psicológicas muito antes desta disciplina se instituir é o das patologias mentais sem lesões, da habitualmente chamada loucura, que hoje a psicologia partilha com a medicina na psiquiatria. Outros campos: o dos que sofrem de deficiências físicas, os delinquentes, a escola, o trabalho, o desporto, a família, as artes, nomeadamente a música, a linguagem, a inteligência, a aprendizagem, a personalidade, os campos são variados (p. 380-1). Finalmente, as psicologias divergem nas correntes ou escolas de pensamento que abordam os mesmos campos mas com diferenças na orientação teórica: a Gestalt ou psicologia da forma, o behaviorismo ou psicologia do comportamento, a psicologia cognitivista (o processo de conhecimento, exclui as emoções e afectos), a psicologia humanista, a psicanálise (p. 383).

A qualidade psicológica do/a profissional
8. Um quadro sobre a repartição actual das profissões psicológicas começa por falar das suas três áreas clássicas, a escola, a empresa e o hospital, e diz como as tarefas que lhes incumbem se têm desenvolvido, além do/as psicólogo/as clínico/as, com novas tarefas como as questões do desporto, do tráfego na estrada, da publicidade e do marketing, da protecção do ambiente, da criminologia, da assistência a vítimas de catástrofes, etc. (p. 398-401). Neste quadro uma boa parte das novas tarefas psicológicas poderá ser dita como a de apresentar aconselhamento em situações difíceis. Ora, a abrangência das necessidades e a ocorrência de vocações a este ofício, que pode ser apaixonante mas é por certo muito difícil, faz pensar que o que a formação de profissionais de psicologia deve garantir é a frequentação discutida e argumentada de bibliografia, quer teórica e metodológica, quer de exposição de casos de aplicação prática, de forma a que, qualquer que seja a opinião que se tenha sobre a qualidade científica, haja uma familiaridade com o tipo de questões difíceis e cheias de imponderáveis, em que a inteligência e dedicação às pessoas envolvidas, juntamente com a experiência e bom senso que se vai ganhando, sejam a qualidade psicológica maior. Aprende-se a compreender os outros “lendo romances”, lembra a antropóloga filósofa Teresa Joaquim.

Falta unidade à psicologia
9. Não há ciência sem laboratório, este podendo ser muito diversificado e não apenas como os de física ou química: por exemplo os arquivos de história ou as estatísticas de economia; está aí uma diferença clara entre uma psicologia que se quer científica e uma fenomenologia, que é incompetente em tudo o que implica trabalho de observação ou experimentação laboratorial, limitando a sua intervenção à reflexão sobre os paradigmas da ciência que escolheu estudar, já que do laboratório só o cientista sabe. Dizer isto desvaloriza a ‘opinião’ (pessoal, não se trata de ‘argumento’) que me deixou a leitura da Introduction à la Psychologie, a de não ter conseguido satisfazer positivamente a minha curiosidade de partida, o que provavelmente seria diferente se tivesse abordado o relato duma investigação. Acontece todavia que, a dado momento, Richelle permitiu-me ter acesso, não ao laboratório, mas ao resumo dos argumentos críticos que trocam entre si os psicólogos das duas tendências opostas que são rivais, como em qualquer ciência: os que se reclamam da teoria e das suas exigências e os que privilegiam a prática de intervenção no terreno. Estes “opõem o real da vida quotidiana ao artificial da investigação fundamental, a validade das situações de terreno à vacuidade dos objectos estudados em laboratório, em organismos que não funcionam normalmente, a gratuidade intolerável dos trabalhos do fundamentalista face aos problemas urgentes a resolver na sociedade, o conforto privilegiado mas injustificado do investigador face às responsabilidades dos que põem as mãos na massa. Os fundamentalistas por seu lado conseguem facilmente denegrir os seus colegas praticantes que não hesitam em fazer passar como sérias intervenções que eles, por seu lado, julgam muito mal fundadas cientificamente, defendem o reducionismo metodológico como via obrigatória para a compreensão do real contra a pretensão de agir sobre problemas que se compreendem mal, preferem a simplicidade, ou mesmo a simplificação, das suas análises às especulações ao acaso dos conselheiros de todos os géneros” (p. 360). É em resposta a este debate que o autor propõe as quatro exigências de cientificidade citadas acima (§ 6), mas se claramente elas deixam de lado a cientificidade dos práticos no terreno, dão-lhes razão quanto ao que parece, ao leigo, como a inadequação das experimentações laboratoriais sobre ratinhos evocadas ao longo do texto face às questões reais e urgentes a que têm que fazer face. Têm ambos razão, são os próprios psicólogos opostos dos dois lados que me alimentam o cepticismo, os que não crêem que a teoria que estudaram na universidade tenha interesse prático e os que percebem que esses que praticam não têm teoria que dê para justificar o que aconselham. O próprio Richelle pensa que estes aconselhamentos faltam à ética quando se apresentam como científicos.
10. Este autor, que considera que a ciência de que se reclama nunca teve unidade (p. 396), alude à questão de saber se há “leis gerais” em psicologia (p. 342), pensando que “os mecanismos do espírito [sic] humano são no essencial os mesmos em todo o lado no mundo” (p. 304), os conteúdos é que variam, mas nunca exemplifica essas leis ou mecanismos, dizendo embora uma vez que “a investigação sobre a memória é talvez aquela que deu lugar às formulações mais sofisticadas de leis gerais, de modelos descritivos e explicativos, de teorias concorrentes” (p. 366). Na Web, são apresentadas quatro “leis da memória”: faz-se por estruturas e não por elementos isolados, é multiforme, (memória de ideias, de odores, de sons, de imagens visuais, etc), com funcionamento descontínuo e depende dos estados afectivos. Como se percebe pela história da experimentação desde a 2ª metade do sec XIX, trata-se mais de memorização, em termos de aprender a decorar, do que da memória propriamente dita, como sublinhou em 1978 o psicólogo americano de origem alemã Ulric Neisser ao interpelar os especialistas sobre “quais são as questões importantes da memória?” dando exemplos como “porque é que existem limitações às nossas recordações de infância? Como explicar o esquecimento frequente dum ‘rendez-vous’? Como é que reencontramos sem dificuldade o caminho familiar trinta anos antes e no entanto nunca mais percorrido depois? O que é que retemos de acontecimentos chocantes e porquê?” (p. 367). Excelentes questões mas, comenta Richelle, “não se reconstitui em laboratório uma simulação duma vida inteira para estudar a memória autobiográfica”, que lhe permite todavia, sem que o seu preconceito anti-psicanálise dê por isso, resumir genialmente numa expressão em que é que consiste essa psicologia considerada não científica, oferecendo-me o subtítulo que segue.

A psicanálise coloca a autobiografia num laboratório
11. A primeira coisa a precisar é que um laboratório científico pode ter estruturas muito diferentes. O que se pede ao laboratório é que recolha da cena dos fenómenos a estudar os factores ambientais múltiplos que impedem de analisar as regularidades que as operações laboratoriais buscarão esclarecer. Por exemplo, as operações de comutação linguística que permitem restituir os paradigmas fonológicos (Trubetskoy), sintácticos e morfológicos (Hjelmslev) e semânticos (M. Gross), trabalhando sobre palavras e frases da língua mas suspendendo-lhes o sentido (extra-laboratorial) que elas têm nas conversas dos falantes da língua. Em que é que consiste então o laboratório da psicanálise? Ele tem dois elementos decisivos: o divã, em que o paciente se deita para estar na posição mais relaxante possível, por um lado, e o psicanalista escutante com a injunção de dizer tudo o que lhe vier à cabeça, ainda que estúpido ou obsceno, de não ocultar ou dissimular nada. Esta injunção retira o paciente do seu quadro habitual de relações, suspende o efeito social de censura das falas a que estamos sujeitos desde crianças. Enquanto dura a sessão do divã, o paciente está em situação de laboratório, volta em seguida à vida corrente até à próxima sessão. Como é que este discurso sofre a “confrontação com o real” que é a primeira exigência científica de Richelle (§ 6)? Obviamente que não se trata de nenhuma espécie de construção de paradigmas pessoais do discurso do paciente: o que vai aparecer neste discurso fortemente ‘subjectivo’, como se diz, sonhos e disparates, são momentos em que ele se cala, ri, chora, hesita, desmente o que acaba de dizer, etc., momentos que surpreendem o próprio paciente (o real!), que se repetem e costumam incidir justamente em questões que têm a ver com a sexualidade, com a sua interdição, com as rivalidades que suscita, com a censura que vem do interdito do incesto, e que joga em nós aquém da consciência que temos, da memória a que temos acesso correntemente. O que o divã traz é justamente uma memória desaparecida, ignorada, de coisas que doem. Freud percebeu-o com ajuda da hipnose e o seu génio clínico consistiu em desistir desta para permitir que os pacientes soubessem dessa memória e que esse saber tivesse efeitos sobre as suas queixas mentais. Por exemplo, é surpreendente a maneira como a evocação de sonhos se vai associar com outras memórias de vigília e esclarecerem-se mutuamente como sendo do mesmo indivíduo ‘real’, por assim dizer. A outra consideração a fazer sobre a cientificidade da psicanálise tem a ver com estes efeitos de cura, de que cada paciente saberá (pelo menos o alívio existencial) mas de que só os psicanalistas terão a visão de conjunto que resulta da sua experiência laboratorial, a qual obviamente escapa aos outros praticantes de outras psicologias. Saber como é que ela pode contribuir para os psicólogos que não podem nem querem investir nas longas e custosas terapias do divã, não se pode pedir ao fenomenólogo, mas lembro que um dos livros de psicologia corrente que Freud escreveu pode servir talvez para entender o fenómeno humano do riso, como justamente ligado a situações sociais em que a tal censura social que nos disciplina os discursos é levantada com gozo que resulta do alívio.

As ciências que ‘cercam’ a psicologia
12. Para aceder ao campo das psicologias em geral, convém entendermo-nos sobre a sua dificuldade específica, que seja a razão de ser, não só da diversidade das abordagens, como também da sua aparente pobreza de resultados teóricos. Digamos que há uma dupla dificuldade: uma é intrínseca ao próprio campo, é o seu próprio enigma estrutural, que foi lugar da noção de ‘alma’ por responder a experiências fortes de pensadores, artistas, homens de acção, espirituais, e que ainda hoje corresponde à nossa reivindicação de liberdade, que joga mal com as noções de causa e efeito e de laboratório; a outra razão deriva do cerco, se se pode dizer, de outras disciplinas científicas que roubam a psicologia uma parte do campo e que concorrem com ela para a compreensão dos humanos: a biologia, a neurologia, a antropologia e as ciências da linguagem. Estas poderão não sentirem problemas de maior com a ausência ou presença de disciplinas psicológicas, mas do ponto de vista dos psicólogos o que parece de difícil decisão é a redução metodológica a fazer em relação a essas outras disciplinas: a leitura da Introduction à la Psychologie mostra como é apenas com a neurologia que os autores se preocupam, a linguagem sendo frequentemente reduzida, mormente nas correntes de comportamento e laboratórios com animais, e a biologia e a antropologia praticamente ignoradas, tal como a linguística, aliás, no que diz respeito à metodologia psicológica. Ora, do ponto de vista fenomenológico deste texto, deveria o discurso psicológico recorrer a algumas regularidades destas outras disciplinas para esclarecer o seu campo disciplinar, mas isso só será claro tendo em conta a descrição fenomenológica parcial dessas outras disciplinas que permita entender também uma certa globalidade do campo psicológico que manifestamente os autores do manual não vislumbram. Que se me desculpe o atrevimento.

A biologia: o mecanismo da alimentação
13. Para se ter uma noção da fenomenologia dum mamífero, por exemplo, após as descobertas maiores da biologia molecular, não é necessário conhecer-se bioquímica, basta e é necessário atender à anatomia dele, indagar da sua lógica intrínseca. Ora, para o fazer, usei o modelo mecânico dum automóvel, que é válido, na sua simplicidade, para as várias ciências, tendo me dado uma boa alegria aperceber-me na leitura de Parot da importância do modelo da mecânica de Newton na pré-psicologia clássica (Locke, Hume, etc.); só que não lhe acrescentei a divisão por partes até ao ‘átomo’ de conhecimento, que Descartes perfilhou igualmente e faz parte do epistema da época: a dupla operação de análise até ao indivisível e síntese com outra recomposição. Pelo contrário, o modelo do automóvel não é relativo à análise do laboratório, mas à síntese posterior, no caso às anatomias na cena ecológica, donde a análise laboratorial retirou o fenómeno para experimentação, reduzindo a complexidade de causas e efeitos da cena. Um automóvel na estrada precisa dum ‘motor’ que, alimentado do exterior, lhe dê movimento e dum ‘aparelho’ que conduza esse movimento para o seu destino, tendo em conta todos os aleatórios do tráfego. Enquanto que o laboratório joga predominantemente com o modelo clássico da causa e do efeito (também assim os laboratórios dos engenheiros de carros), a cena fora do laboratório obriga a reintroduzir a finalidade que foi recusada pelas ciências europeias por razões laboratoriais e que se escusou sempre a pensar a cena da chamada ‘realidade’; que o engenheiro de automóveis e de qualquer electrodoméstico tenha que pensar a finalidade que o cientista no laboratório suspende, permite perceber que também o que segue, sobre a anatomia, releva do fora do laboratório que os bioquímicos têm dificuldade em considerar como um momento posterior ao trabalho de laboratório. Vamos a ela. Deixando de lado a sexualidade que só funciona em curtos períodos de cio, há dois grandes sistemas nessa anatomia: um (‘motor’) destinado à alimentação de todas e cada uma das suas células em moléculas à base de carbono, conta com a digestão e respiração e com a circulação do sangue; o outro (‘aparelho’) dedicado à percepção e à mobilidade na cena ecológica, para caçar e evitar ser caçado; o sistema neuronal (cérebro e nervos) e hormonal (glândulas endócrinas) pertence a ambos os sistemas e joga como regulador e unificador deles. Qual é a lógica desta anatomia? É o facto de as células serem todas constituídas de moléculas à base de carbono e dos animais só encontrarem estas noutros seres vivos, sejam as plantas que recebem glicose do CO2 da atmosfera pela fotossíntese, sejam os herbívoros que as comem e são as presas ideais dos carnívoros. Esta lógica é a da anatomia de todas as espécies de animais, vertebrados e invertebrados, apesar das suas enormes diferenças anatómicas e uma da suas consequências em psicologia é o carácter primordial do mecanismo da alimentação e de defesa no que diz respeito ao funcionamento do cérebro dos humanos. Ora, o motivo de cena, de inspiração heideggeriana, implica que qualquer animal seja integralmente ‘dado’ pela cena, primeiro com as células dos progenitores mas logo em seguida, e necessariamente com essa primeira doação, a da alimentação que tem que ser procurada. O maior flagelo é a fome e o perigo, contê-los é também a função primordial do cérebro nos mamíferos humanos. O que, diga-se de passagem, põe uma responsabilidade ‘científica’ e política enorme face às grandes manchas de fome na actualidade.

A neurologia cobre em parte o campo da psicologia
14. Vindo agora à neurologia, atentemos na modificação que o cérebro teve com a evolução de certos répteis mas sobretudo aves e mamíferos, a sua duplicação dum novo córtice (neo-cortex) em articulação com o antigo (paleo-cortex) e suas funções endócrinas (não se trata de dois cérebros mas dum cérebro duplo, os grafos que vêm dos periféricos às zonas comuns do ‘neo’ passam sempre pelo ‘paleo’, dizia Changeux): presumo que a vantagem dessa inovação evolutiva foi a de criar uma rede mais vasta de sinapses adequada a funções de estratégias de caça e de defesa (e portanto maior capacidade de aprendizagens) com alguma autonomia em relação às funções de secreção hormonal, podendo provavelmente reter parcialmente a pulsão de fome por razões de estratégia na caça ou na defesa, ganhar distância aos seus impulsos de forma a permitir estratégias de força e astúcia (apesar da fome, leoas que deixam que a manada com uma centena de presas possíveis passe e só atacam a última), ou seja uma certa disciplina do que a tradição chamava ‘paixões’. Ora, esta disciplina vai ser um ponto forte da antropologia.
15. A lógica do sistema neuronal corresponde, se se quiser, ao que os psicólogos chamam ‘comportamento’, que resulta de sinalizações de alerta recebidos da cena ecológica pelos órgãos periféricos, olhos, ouvidos e faro nomeadamente, seguidas da elaboração cerebral de resposta e do desencadeamento de movimentos musculares de pernas, focinho e braços, consoante. A tradição aristotélica pensou as coisas em separado e os ‘alertas’ como “passividade” do indivíduo, já que a iniciativa vinha de fora, mas a tradição europeia do ‘sujeito’ e da ‘consciência’ parece ter tendido a ignorar este ‘fora’ e a fazer da dita ‘sensibilidade’ uma ‘faculdade’ humana (o cúmulo são os a priori de espaço e tempo de Kant e os “númenos”). Os empiristas corrigiram esta concepção com a noção de impressões, que implica uma ‘pressão’ que vem de fora imprimir-se no cérebro, inscrever-se no que o neurólogo francês J.-P. Changeux chamou grafos formando redes sinápticas, que me parece deverem ser entendidas desde os órgãos periféricos até aos nervos dos músculos, passando pelo paleo-cortes e pelas áreas comuns do neo-cortex onde se elabora o dito comportamento: dos olhos às mãos que fazem, dos olhos às pernas que andam, dos ouvidos aos músculos da fonação. Quando os behavioristas chamam “caixa negra” a este processo cerebral, têm sem dúvida razão: são de tal forma complexas as redes que se estabelecem entre centenas de biliões de neurónios, entre dezenas de triliões de sinapses, de tal forma inextricável a cada um de nós a rede das coisas que sabemos e das que sabemos fazer, que esta “caixa negra” corresponde bem ao enigma da nossa estrutura neuronal, tanto aos limites das nossas possibilidades de auto-conhecimento como aos limites do conhecimento científico do cérebro.
16. A notável proposta do neurólogo A. Damásio (§ 5) de chamar mente ao, por assim dizer, conteúdo de saber dos neurónios que só o próprio conhece, tem a vantagem de corrigir o dualismo alma / corpo, da dupla mente / cérebro, porque passa a ser uma unidade funcional, por um lado, e a marcar por outro os limites do acesso neurológico ao cérebro dos outros, a irredutibilidade metodológica entre neurologia e psicologia. Assim como o médico tem sempre que perguntar ‘onde lhe dói?’, também o neurólogo quando acorda um paciente: ‘estava a sonhar?’ Os instrumentos de laboratório não chegam nunca senão ao químico e ao eléctrico neuronal, a ‘mente’ damasiana escapa-lhe, só tem acesso a ela pelo discurso do paciente; daí que o neurólogo precise desse complemento, mas ao mesmo tempo, desconfiando da ‘subjectividade’ deste discurso, deva poder recorrer ao que a psicologia puder recolher dele como ‘científico’, mas é do que os behavioristas desconfiam também. Sem dúvida que as tecnologias recentes de imagens cerebrais permitem atenuar um tanto esta irredutibilidade, como Richelle sublinha (p. 390-2). Um excelente exemplo, da equipa do investigador americano J. Gallant, foi noticiado por Nicolau Ferreira (Público de 28 / 04 / 2016)[6] em que o cérebro todo se mostra preenchido de palavras, contrariando aparentemente a noção neurologista corrente de que a linguagem se joga, com poucas excepções, no hemisfério esquerdo dos humanos, quando de facto o que as lesões das duas áreas de Broca e de Wernicke implicam é apenas a capacidade de articular a fala. Estas novas tecnologias, no caso, jogam com a maneira como os colaboradores reagem a textos que lhes são lidos e como os seus cérebros são ‘iluminados’ a cada palavra dos códigos narrativos desses textos, não necessitando portanto da ‘fala’ interpretativa deles e podendo despistar ‘subjectividades’ comparando as diversas performances. Haverá assim ganhos para ambos os lados, mas também alguma ameaça para a psicologia laboratorial, que se vê desalojada das suas performances, a ponto de se poder perguntar se não se arrisca a perder o lugar de parceira. Por exemplo, quando se consulta a “Psycholinguistique” da Wikipédia, vê-se que é agora a neurologia que ocupa o lugar de confronto com a linguística. Digamos pelo menos que haverá uma espécie de recobrimento mútuo entre as duas disciplinas, em que as limitações psicológicas no laboratorial tendem a ser substituídas com o sucesso crescente destas novas tecnologias. Que os psicólogos continuem a desconfiar da linguagem como fonte a investigar (verdade seja que não é fácil), quando é ela o que falta irremediavelmente ao laboratório do neurólogo, não augura bem do futuro teórico do campo psicológico. A sua questão mais geral será a de saber o que é que faz mover os humanos, cada um deles (psiché, diz respeito a cada indivíduo); nenhuma outra ciência trata desta questão (nem dos sonhos, manancial da psicanálise) que é uma das questões da fenomenologia e em geral da filosofia, só que estas disciplinas não dispõem de meios de verificação do que descubram ou inventem. A psicologia será capaz de integrar os contributos das várias ciências que tratam de aspectos parciais desse movimento e dar-lhes o complemento que lhes falta? Confesso que tinha a ideia de a psicanálise poder ajudar as psicologias de observação e experiência a pôr questões, mas não consegui, não tinha informação que chegasse.

A pertinência e a capacidade de dissimulação
17. Antes de abordarmos a antropologia, seja uma achega relativa à linguagem, deslindada num excelente curto artigo do antropólogo da comunicação francês François Flahault sobre a estrutura da conversa[7]. Chama ele a atenção para o facto desta implicar não apenas um falante mas também um ouvinte (ou mais, no caso duma assembleia, por exemplo) e deste ser contraponto estrutural: é necessário para haver conversa, que haja só um falante de cada vez. O que esta situação implica é que aquele que fala tem que mostrar pertinência para ser ouvido, para justificar o silêncio escutante do que ouve. Ora, esta noção de pertinência pertence ao campo do social, como resulta óbvio se se pensar no organizador duma dada conferência e nos critérios que terá para escolha do conferencista. Mas vai muito mais longe: desde muito cedo que uma criança que aprende a falar percebe que os adultos se riem de coisaas que diz, ou lhe ralham ou castigam, vai percebendo que tem que ser pertinente no que diz para evitar esses risos ou castigos, e portanto que tem que pensar duas vezes antes de falar, aprender a calar o que não seja conveniente. Isto é, tem que aprender a dissimular, a guardar para si o que não lhe convém e a só dizer o que for pertinente socialmente. Esta argumentação é rigorosamente independente do discurso psicanalítico, mas o que ela revela é a existência justamente da instância social de censura, seja de lógica seja de decência (que no divã é suspensa), como motivando o resguardo da interioridade, o foro pessoal de segredos, o evitar da ingenuidade, a procura de relações de confiança, todo um mundo essencial do campo psicológico, mormente esta estratégia de dissimulação como inerente aos humanos devido à sua dimensão social. Algo que permite uma suspeita de princípio sobre a ‘sinceridade’ que encontram as técnicas de testes e de entrevistas, o que não é pouca coisa; também há uma desmoralização a priori do motivo da ‘mentira’, já que somos todos estruturalmente dissimuladores, a psicanálise acrescentando: e não o sabemos.

Antropologia: o mecanismo da aprendizagem
18. O recurso que vou fazer à antropologia é contestável pelos antropólogos talvez, já que não o encontrei formulado em textos deles, mas se me impôs fenomenologicamente para conseguir um conceito de sociedade que seja válido para qualquer forma de sociedade, desde as tribos primitivas às complexas sociedades contemporâneas, conceito esse confessado como não existente por sociólogos franceses recentes[8]. A razão dessa inexistência parece-me residir na noção central de ‘população’ nas abordagens correntes e na dificuldade de as comparar em regimes sociais muito diversos. Ora, a descoberta por Lévi-Strauss da relação entre o interdito do incesto nas estruturas de parentesco e a consequente exogamia, que obriga a relacionar duas famílias no casamento e a fazer destas alianças o esteio das sociedades pelo menos até meados do século XX[9], esta descoberta implicava a de unidades locais de co-habitação nas tribos e levou-me a pensar no que aqui me parece importante, como alternativa ao conceito empirista de “comportamento”. Ponhamos a questão assim: se passados uns 50 anos, a população dum pais não é a mesma devido às mortes e nascimentos ocorridos entretanto, como é que se pode pretender que é a mesma sociedade? Como é que a população de há 50 anos respondeu a essa pergunta? Preocupando-se extremamente – e isto é verdade de todas as sociedades conhecidas, qualquer que seja a sua complexidade – em que os nascidos aprendam os usos deles, de maneira a que a sociedade possa reproduzir-se como até aí. Então o sistema de usos que se repetem, segundo calendários variáveis, mas alicerçados sobre a garantia da alimentação quotidiana e do repouso nocturno e respectiva defesa, é esse sistema de usos que define sociedade.
19. Qual é a vantagem deste conceito de sistema de usos para a psicologia? De forma precisa não sei responder, mas em termos gerais parece-me oferecer uma referência de regularidades sociais apreciável, já que independente da ‘subjectividade’ de cada um e pelo contrário factor constitutivo não só das subjectividades mas também das intersubjectividades. A grande vantagem do motivo de ‘uso’, em contraste com o de ‘comportamento’ ou de ‘acção’ (A. Touraine) ou ‘prática’ (Althusser), para me referir aos discursos dos anos 60 e 70 na França estruturalista, é que todos estes supõem que o ‘sujeito’ do comportamento, acção ou prática é o mesmo antes e depois da respectiva efectuação, que lhe é pois ‘exterior’, enquanto que o ‘uso’ só se define incluindo nele o ‘sujeito’ que se alterou ao aprendê-lo, e continua aliás a alterar-se, porque se continua a usar e a melhorar o seu saber nesse usar. Por outro lado, o motivo de uso oferece regularidades sociais e diferenciações individuais, permite um contexto socialmente sólido para as análises e também para a compreensão das ‘possibilidades’ em casos de análises individuais. Filósofos, sociólogos, neurólogos, antropólogos e provavelmente psicólogos, quantas vezes se encontram em situação de querer dizer o que rodeia alguém e só têm maneira de designar colecções, de pessoas, mobílias, utensílios, etc., por lhes faltar este motivo de uso que permite ‘pensar’ o paradigma de cada unidade social, comum a muitas outras.
20. É o motivo de aprendizagem que se impõe aqui, como algo que deveria ser um ponto forte de estudo de qualquer psicologia ou neurologia: como é que alguém que não sabe nada dum uso social, consegue, aprendendo-o, tornar-se espontaneamente hábil nesse uso?[10] Ora bem, como o uso vem do fora social, da cena ecológica ou tribal, da família ou da escola ou do emprego, incluindo aliás a linguagem como uso bem distintivo, o que a aprendizagem faz é criar a interioridade do sujeito. Um argumento importante é o das línguas, que são imotivadas de povo para povo, que foi sempre uma dificuldade incontornável da filosofia: aqui implica que as suas regras, aprendidas, vêm de fora e não são portanto determinadas pelo cérebro, nem por via de consequência o que com elas pensamos. Ora, estas regras não são conscientes, nem em crianças nem em adultos, não são ‘criadas’ pelos neurónios (não são ‘subjectivas’!), mas apenas recebidas e transmitidas por eles, como um mecanismo linguístico muito complexo, adequado ao aleatório das frases a fazer. Mas não se trata apenas do aprender um uso que não se sabia ainda (já tinha mais de 40 anos quando aprendi a fazer sopa), já que estamos sempre a aprender (e a esquecer, aliás), nas artes mais complexas, na culinária ou em qualquer outro ramo de pensamento, em tudo o que peça habilidade e que valorizamos como ‘ganhar experiência’ e saber ao longo da vida. A aprendizagem é assim o ponto decisivo que desconstrói o dualismo interno / externo da psicologia corrente[11]. Eis o ponto de evidência de que somos seres-no-mundo. Assim como a alimentação é o mecanismo essencial da biologia, assim também a aprendizagem deveria ser o mecanismo essencial da psicologia (e bem assim da neurologia, aliás: o duplo cérebro, paleo e neo, responde destes dois mecanismos respectivamente). Que cada humano que nasce seja estruturado psiquicamente a partir dos outros que já lá estão em seus usos, uns comuns outros especializados, e se tornem os mesmos em usos, cada um todavia com o seu estilo, que isto seja provavelmente verdade em todas as sociedades conhecidas, eis algo de espantoso, proporcionando regularidades que parecem ser susceptíveis de estudos científicos adequados. Ora, os sonhos testemunham como aqueles com quem se aprende e que se ‘retiraram’ para autonomia do aprendiz, como eles não deixaram de estar lá, voltam por vezes mascarados em cenas bizarras, que o sonhador não consegue perceber, testemunham de como somos seres no mundo, de como a nossa tribo está no nosso íntimo mais ignorado, de como, tal como com a alimentação acima, a noção de cena tribal faz também doação de tudo o que se sabe, se sabe fazer. Seres no mundo!
21. Em qualquer campo de estudos, os seus praticantes herdam um paradigma que actualizam nos seus trabalhos e que os estrutura, os constitui enquanto sabedores. Não são por regra susceptíveis de entender outros tipos de discurso, relevando de outros paradigmas, já que é com os olhos e ouvidos do seu que vêem e ouvem. Vale a pena insistir em que é por isso, além da minha própria ignorância, já que sou exterior ao(s) paradigma(s) da psicologia, que nada do que proponho terá estatuto em psicologia, nem sequer de hipótese, mas apenas de materiais susceptíveis de servirem para elaboração de hipóteses. De qualquer forma, não saberia propor nada que tivesse a ver com o trabalho experimental das diversas correntes teóricas, apenas com questões mais globais e por isso mesmo resistentes à experimentação. Já agora, uma espécie de ‘ponto de ordem’. Não se trata aqui duma querela entre profissionais de disciplinas diferentes. Esta abordagem ‘crítica’ só se justifica por os ‘erros’ criticados serem erros filosóficos, que todos recebemos no liceu, em qualquer disciplina. Isto deveria ser uma espécie de ‘reparação’ aos psicólogos, como os políticos e os eclesiásticos que vêm pedir perdão pelos erros dos antepassados.

A infância esquecida
22. Para prosseguir esta indagação fenomenológica no terreno da psicologia, que é em boa parte também o da neurologia, embora com laboratórios irredutíveis, mas em que as descobertas neurológicas se revelam cada vez mais preciosas para a elaboração de hipóteses psicológicas, tomo a excelente questão de Ulric Neisser (§ 10): “porque é que existem limitações às nossas recordações de infância?” Há duas teses neurologistas a ter em conta para abordar a questão. A primeira é a da ‘mente’, segundo Damásio, ser os neurónios como lugar de saber do próprio, que parece ter como consequência que todos os neurónios que aprenderam qualquer coisa e fizeram parte de grafos estão lá, mantêm a aptidão a recordar isso que aprenderam; a segunda é a de Eric Kandel[12] ter demonstrado como um verme de mar aprende acrescentando uma sinapse a um neurónio. O que parece implicar que os grafos de Changeux são fieiras de sinapses e que assim os neurónios podem ser atravessados por muitos grafos (um neurónio pode ter vários milhares de sinapses, dizia o mesmo Changeux no seu O homem neuronal), sendo provável que, enquanto um dado fluxo atravessa um par (ou mais) de sinapses dum neurónio (uma de entrada e outra de saída), as outras sinapses fiquem fora de circulação, já que provavelmente o neurónio estará ‘activo’ com essas sinapses (os neurólogos saberão sem dúvida se é assim ou não). A consideração seguinte é de ordem prática; cada um de nós pode ter experimentado uma forte dor de dentes ser ‘esquecida’ durante o período duma chamada de atenção inesperada, assim com pode fazer um exercício de relaxação e ser capaz de ficar atento à circulação do sangue em veias da cabeça até às mãos e aos pés que normalmente não sente, o que leva a admitir que haja muitos neurónios, ou pelo menos franjas de sinapses deles, que são como que ‘adormecidos’, ou melhor, são esquecidos, devido a mecanismos de atenção, já que estes relevam das necessidades de obviar aos perigos da selva, às funções de predação e de defesa e também às necessidades de repouso, de dormir, situação em que este ‘esquecimento’ dos neurónios se deixa dizer como ‘adormecimento’ sem ser metaforicamente. Em resumo, a atenção que afecta uns tantos grafos neuronais mantendo-os em alerta, acordados, adormece os restantes, torna-os esquecidos. O que chamamos memória é uma oscilação entre um certo número de grafos acordados e todos os outros esquecidos: ninguém é capaz de captar na sua consciência actual tudo aquilo que sabe! No que diz respeito à fala, esta oscilação é permanente, já que qualquer discurso nosso activa um sector do nosso saber aprendido mas, à medida que se desenrola, vai acordando outros sectores de saber e deixando os anteriores numa penumbra donde poderão voltar a qualquer momento. Ou seja, a maioria esmagadora das coisas que sabemos só são evocadas em falas concretas, ainda que ‘mentais’ por associação de ideias, podendo vir em momento adequado que o ‘acordou’ (‘sou-venir, diz-se em francês).
23. Para vir então à questão de Neisser, teremos que recorrer à psicanálise que se preocupou com a infância de forma consistente, porque experimental, não meramente observacional. A questão do esquecimento das coisas dos primeiros anos parece ligar-se à aprendizagem dos usos tribais, do andar, do mexer e do falar, à lenta gravação dos grafos que serão mobilizados permanentemente em praticamente todas as actividades quotidianas, excepto nos períodos de sono, em que se pode entender os sonhos durante os períodos de “sono paradoxal” nos intervalos de longos sonos calmos (Michel Jouvet, O sono e o sonho) como algum acordar de neurónios quando a maioria dos outros, nomeadamente os que activam os músculos da mobilidade, continuam adormecidos. Se dissermos que os grafos aprendidos e a sua atenção correspondem ao que Freud chamou o princípio de realidade, podemos encontrar o correlativo princípio de prazer no que Winnicott ligou ao ‘play’ inglês e não ao ‘game’, ao ‘brincar’ ao acaso e não ao ‘jogo’ com regras, o que ele chamou espaço potencial de brincar (1945). Podemos pensar que os neurónios se vão dando sinapses em actividades sem tom nem som, que ainda nem sequer são ensaios de qualquer coisa, que virá justamente com o incentivar da tribo a aprender os usos, cujos grafos se inscreverão nesse espaço potencial. A proposta de Winnicott permite pôr a hipótese de um tempo de brincar ou caótico que comece a ser disciplinado parcialmente com as aprendizagens do usos e da língua, mas que dure tempo suficiente para que este espaço mereça o epíteto de ‘potencial’, de algumas crianças virem a revelar talentos fortes em dada área: a diferença de personalidades viria desses três anos em que se brinca de se ser brincado, cuja memória se perde em seguida, no estilo[13] que se moldará das maneiras de agir, de se manifestar e de se reter. Mas também esse ‘potencial’, dizia Winnicott, pode vir como “medonho”. Porquê se esqueceu? perguntava U. Neisser; a resposta parece simples: porque, in-fans, não sabia ainda falar, já que lembramos dizendo, ainda que só para nós. Faz parte da disciplina da fala pela aprendizagem que as palavras se espalhem por todo o cérebro, como mostrou a experiência de J. Gallant: as palavras vão desposando os usos e comportamentos, nomeando pessoas e coisas. Esse estilo será, especulando, o que permanece das sinapses desses neurónios primitivos, já que a esmagadora maioria dos neurónios estão ainda por vir, grafos ainda por fazer com as aprendizagens, mormente quando os usos se revelam habilidade espontânea, quiçá outras sinapses desse brincar antigo ficando adormecidas, para sempre? farão talvez parte de sonhos ou serão elas que despertam quando duma paixão forte inesperada? Vá-se lá saber, mas por certo que nestas zonas começa o enigma de cada estilo humano, o que resistirá às investigações laboratoriais, o que levou os nossos antepassados a acreditar firmemente na ‘alma’ que deu a raiz à palavra ‘psicologia’.

Oscilações e forças
24. A psicologia dos seres humanos é feita de oscilações, alternância entre situações que pedem grande atenção e outras em que se relaxa, entre refeição e trabalho, entre vigília e sono, estes períodos sendo em geral regulados por horários tribais (família, escola, emprego) a que se começa por se habituar os bebés, a deixarem de mamar a meio da noite, por exemplo: isto significa que usos e costumes tenham um papel disciplinador do funcionamento oscilante da fisiologia, o controle da sexualidade (interdito do incesto) e da agressividade domésticas. O que nos leva a considerar uma das dificuldades que as psicologias encontraram desde os românticos, que Parot conta bem, a das forças que se impõem (aos neurónios da) à consciência, que escapam ao seu controle, as paixões dos filósofos escapando à razão, o obscuro que as Luzes não sabiam esclarecer. Foi na época dos espantos com o magnetismo e com a electricidade, antes desta ter sido domesticada como ‘corrente’ pela invenção da pilha pelo italiano Volta (1800), vindo-se a recorrer à hipnose em terapia para se escutar de que é que essas forças falavam. Nos humanos, que herdámos, além dos músculos e das astúcias destas forças, outras que relevam da sexualidade, sem a defesa do cio das outras fêmeas mamíferas, a qual criou forças de erotismo, isto é, de busca sexual pelo prazer dos parceiros e não pela reprodução da espécie, nos humanos, dizia, estas forças encontraram nos laboratórios bioquímicos a sua tradução nas moléculas que foram chamadas hormonas, termo grego (hormaô) que, entre outros sentidos, diz a excitação e a incitação à guerra, e justifica que J.-D. Vincent as tenha feito convergir com as ‘paixões’ dos antigos (Biologia das paixões), nomeadamente as da fome, da sede, da fadiga e do sexo, que o autor analisa em torno da homeostasia do “meio interior” de Claude Bernard.
25. Essas ‘forças’ não inquietam apenas a atenção consciente, elas impõem-se ao mundo em redor, a mais óbvia é a fome que traz consigo a agressividade; também a agressividade recíproca encontrada no outro leva frequentemente a uma retenção de defesa, no caso de luta desigual. Há com efeito uma dupla e aparentemente antagónica atitude dos vivos em relação ao mundo que os dá: de imposição e de retenção da exposição. Por um lado, imporem-se-lhe para buscar o que ele lhes dá mas que tem que ser ganho, a começar pela alimentação e, de forma geral e à medida do crescimento em aprendizagem, a buscar um lugar a ocupar na tribo. Por outro lado, a defesa devida à rivalidade que se tece em torno dos lugares ocupados na tribo buscando o melhor deles, implica que se aprenda a reter a sua exposição, a saber dissimular, como dizia Flahault, a evitar ser ingénuo ou vítima, a engendrar tácticas, nomeadamente alianças com terceiros. Somos seres no mundo, nunca as questões psicológicas são de um só nem meramente interiores, já que disciplinar-se (a educação) tem a ver com o jogo de harmonizar a homeastasia do sangue e da linfa por via das diversas hormonas e com as rivalidades com os seus próximos, com a homeostasia da unidade social. A disciplina não é contra o hormonal, não se trata de anular as pulsões de Freud, mas de as ‘sublimar’, isto é, de as orientar para a maneira de jogar efectivamente no lugar ocupado do paradigma da unidade social. Em Ser e tempo, Heidegger, ao propor o motivo ser no mundo, colocou o de possibilidades, que mereceria ser considerado por uma teoria psicológica. Uma possibilidade é indissociavelmente a deste humano (nesta família, com esta escolaridade e neste emprego) e do seu mundo, é aberta e conta com o que ele pode para melhorar o seu lugar, eventualmente buscar mudança para outro melhor. Este ‘poder’ (verbo de possibilidade) tem que arrostar com as forças hormonais, resistir-lhes muitas vezes – a antigamente chamada ‘força de vontade’: “que as forças cegas se domem à visão que a alma tem”, dizia o poeta ou, mais prosaicamente, “o que tem que ser tem muita força” – mas também saber se e como afrontar o ‘poder’ (substantivo da estrutura social) em ordem ao ‘fazer’. Ou seja, é o paradigma dos usos, da reprodução da unidade local, seja família, seja emprego, que exige a força de vontade como ‘ter que ser’, esse paradigma é o correlativo do “princípio de realidade” que joga de fora, do mundo, sobre o “princípio de prazer” de dentro, vindo da química de infância e reclamando comida, sexo, descanso, sonho, em resumo, o retorno da criança. Mas o princípio de realidade, sendo do ‘mundo’, não é ‘exterior’, já que é ele que chama a ‘atenção’, por exemplo, implicando o alcance dum uso (paradigma), por exemplo, pela ‘visão’ que o ‘useiro’ tem dele, como dos seus parceiros eventuais no uso. É claro que não são coisas fáceis de levar ao laboratório dos psicólogos, mas são inerentes à aprendizagem do uso, assim como o reconhecimento desses parceiros do saber e habilidade ou da falta de jeito, da (in)capacidade. É das coisas que mais se deseja em qualquer sociedade: ver reconhecidas as suas habilidades e competências, a espontaneidade delas.

Para concluir: a ‘evidência’ dos psicólogos obsta ao ser-no-mundo
26. Quando se passa da biologia molecular, da anatomia e fisiologia, para a psicologia aparece uma dificuldade específica: é que só se tem acesso ao ‘paciente’ que se quer estudar por se considerar que ele é “da mesma espécie do seu objecto”, diz Richelle (p. 257), mas sem salientar que o faz a partir das evidências que o investigador tem de si mesmo, como uma interioridade que pensa, tem emoções, memória, é ‘separado’ do mundo que o rodeia, não é esse mundo. Este tipo de evidência não é exigida aos investigadores das várias áreas da biologia, em rigor também não ao neurólogo, excepto talvez nas hipóteses que ele formule para a experimentação. Ora, F. Parot conta de forma muito interessante como o surgimento da ciência no século XVII com a descoberta do heliocentrismo, correspondendo à colocação da natureza como exterior ao ser humano, susceptível de matemática como disse Galileu, implicou um conceito de objectividade construída matematicamente e contrariando a evidência dos sentidos, dos olhos que vêem geocentricamente o sol a mover-se. Pode-se dizer que este mesmo problema se põe às psicologias, que carecem da objectividade científica que implica o lugar fulcral do mecanismo da aprendizagem na ‘psicologia humana’ de seres no mundo. Quando uma das suas correntes dominantes define como seu objecto os comportamentos enquanto exteriormente observáveis, reduzindo metodologicamente a interioridade cerebral não observável, recusando as correntes das psicologias da consciência que preconizam a introspecção: o paralelismo interior / exterior que nos vem desde os Gregos, hoje por exemplo sob a forma organismo / meio envolvente, aonde se define o “comportamento” como adaptação ao meio ambiente, este dualismo parece jogar em todas as correntes psicológicas, mesmo na psicanálise, seguindo a evidência elementar dessa oposição em qualquer um de nós, que nos impede de perceber que essa oposição é construída na passagem do bebé de ser no seio da mãe para o ser no mundo da tribo. Em termos filosóficos, é esta evidência que impede o psicólogo de cortar com a ontoteologia e de aceder a uma outra noção filosófica, a de ser no mundo de Heidegger. A fenomenologia geral deste texto, elaborada a partir deste autor e de Derrida mas também das principais descobertas científicas do século XX, descobriu dois mecanismos decisivos da estruturação dos humanos a partir do mundo: como organismo, a alimentação e como ‘interioridade que se comporta e fala’, a aprendizagem dos usos sociais, que são ignorados (neste alcance fenomenológico) por tudo o que li nesta boa introdução à psicologia. É a evidência da interioridade prevalecendo sobre o seu ‘fora’, reforçada pela nossa situação de dissimuladores (Flahault), à defesa do ‘mundo exterior’, que leva a que se considere o humano (e os animais) só na ‘actividade’ de se alimentar, excluindo o movimento de caça em que a cena dá alimento, só na ‘actividade’ de pensar e saber de si, sem o movimento da aprendizagem com os outros da tribo. São estes movimentos que relevam dos mecanismos ecológicos, tribais, pelos quais o mundo exterior restaura constantemente a interioridade que ele instaurou. Se quisermos ter uma perspectiva global das várias ciências que jogam nesta restauração, podemos fazer a ficção duma unidade social, familiar por exemplo: a antropologia restitui o paradigma dos seus usos, a linguística os paradigmas da língua, a biologia o mecanismo da alimentação com a sua economia de caça e/ou cozinha e a psicologia o mecanismo da aprendizagem. Como a unidade social constitui assim os seus membros, os seus indígenas: é aonde se dá a ver a verdadeira revolução coperniciana do saber sobre os humanos, a aprendizagem como o motivo chave da Psicologia.

P. S. A tabuada e a gramática como ‘alavancas’ do cérebro

Annick Weil-Barais (dir.), L’homme cognitif,
PUF, 576 pp., 1996
“L’homme des psychologues” (AW-B), “Conscience et inconscient” (Jean-Louis Pedinielli), “Comment l’homme perçoit-il le monde?” (Arlette Streri), “Comment l’homme communique-t-il?” (Danièle Dubois), “Comment l’homme conserve-t-il des souvenirs?” (Pierre Lecoq), “Comment l’homme apprend-il, raisonne-t-il, juge-t-il et résout-il des problèmes?” (AW-B)

27. No tempo de pousio deste texto, percebi que a sua fonte era limitada demais, um manual de introdução à psicologia era demasiado sucinto para ser suficiente a argumentação crítica proposta, razão pela qual resolvi consultar um manual mais desenvolvido nas suas questões, da mesma época e editora; sem o ter lido inteiramente como ao primeiro, permitiu-me compreender que haja tantos investigadores em torno destas questões, discutindo entre si hipóteses, experiências, argumentos. Mas ao mesmo tempo confirmava-se-me que os/as práticos/as de questões psicológicas difíceis não encontrem nas respostas de laboratório grande apoio teórico. Mas a questão epistemológica de fundo continua a ser óbvia quanto mais nos aproximamos de tentativas de dar conta do estado da investigação psicológica, em contraste com a psicologia outrora dita das profundezas (psicanalíticas) que aliás merecem aqui quatro dezenas de páginas, numa abordagem inteligente de J-L Pedinielli. Que na introdução se diga que há muito tempo que os psicólogos abandonaram a ideia duma “teoria geral”(p. 56), deu-se-me como a confissão de não haver um ‘campo científico’ digno desse nome.
28. Começo pelas “questões vivas da psicologia” (p. 56ss), aquelas que ela não sabe colocar segundo AW-B, heranças da filosofia: as relações entre os registos cognitivo e afectivo, entre o pensamento e a linguagem, entre cérebro e pensamento, enfim as dificílimas questões para-psicológicas, como a hipnose. Apenas as 2ª e 3ª questões serão abordadas em seguida. Qualquer pessoa bilingue pode experimentar que quando pensa fá-lo sempre ou numa ou na outra das duas línguas que fala espontaneamente, o que significa que ‘pensa’ segundo as regras duma língua, da sua gramática; não significa isto indistinção entre os dois termos, já que quando se traduz um texto duma língua para outra, procura-se manter o mesmo pensamento, as dificuldades de o conseguir, nomeadamente em poesia, sublinhando justamente a interdependência estrita entre os dois, pensamento e linguagem. Quanto à outra questão, nenhum neurólogo pode abordar o seu próprio cérebro, assim como não pode saber, pelos seus métodos, o que o seu paciente está a pensar ou a sentir, sem que este lhe diga: há aqui um dualismo metodológico irredutível, embora haja maneiras parciais de conseguir abordar comportamentos mentais (paciente que ouve um texto, por exemplo no § 16). Damásio permite ultrapassar o dilema epistemológico, ao chamar ‘mente’ aos neurónios a que só o próprio tem acesso (§ 5): neurónios e mentes são a mesma coisa, o acesso científico a ambos é que difere. Felizmente.
29. O ponto nevrálgico: é sempre o “psiquismo” ou o “cérebro” ou o “homem”, ou mesmo o “organismo” que tem a iniciativa, com o primado no entanto da interioridade nesta abordagem cognitivista, em polémica com o behaviorismo, o qual privilegiava o “comportamento” e o “motor muscular”, onde aqui se privilegia o “conhecimento” em relação às modificações trazidas pela aprendizagem (p. 423ss). Por exemplo, define-se um “sistema com memória” como um “dispositivo de tratamento natural ou artificial que apresenta a característica de poder codificar a informação extraída da sua experiência com o ambiente, de a armazenar (stocker) num formato apropriado às sua possibilidades de cálculo, depois de a recuperar (mais ou menos facilmente) e de a utilizar nas operações que ele efectua ou nas acções que conduz sobre o mundo” (p. 308). O ‘artificial’, a ‘informação’ e o ‘armazenar’ traduzem o paralelo com robots e computadores (embora estes não tenham o problema ‘natural’ do ‘mais ou menos facilmente’); a horrível palavra ‘informação’ mostra bem como aquilo que se memoriza não tem contexto operativo, é algo que se ‘extrai’. O que é uma ‘informação’? – as horas dum comboio ou o nome dum livro ou o preço dum casaco – é algo que com efeito se retira da sua lógica complexa (o funcionamento da empresa de caminhos de ferro, a bibliografia duma biblioteca, os custos de fabrico e comércio de roupa) para um uso pontual de quem a procura e utiliza, codifica, armazena apropriadamente e recupera, são tudo iniciativas do dispositivo, coisa instrumental. Uma consequência deste modelo artificial da memória é que não dá lugar para o esquecimento, “impossibilidade provisória ou definitiva de se aceder conscientemente a uma informação adquirida ou a uma experiência vivida no passado imediato ou longínquo” (p. 401), a máquina não esquece nem tem experiência vivida. Ou seja, não se sabe que há antes demais uma passividade no que chamamos memória, que não é a actividade de decorar a que a experimentação parece reduzi-la, algo que nos vem do mundo (ou duma dor orgânica) e nos marca, se imprime, sendo a força dessa impressao que joga num momento posterior em que algo de contextualmente ligado à impressão suscita o ‘voltar’ do souvenir; na p. 315 está-se mais perto, fala-se da trace que um acontecimento deixou e que joga na nova situação, mostrando como a definição do “dispositivo do sistema com memória” é aqui claramente inadequada.
30. Encontra-se mais adiante, com outra autora, é certo, uma questão que mostra o impasse desta ‘actividade’ do sujeito que se adapta ao ambiente, quando ela diz que são mal conhecidos os “mecanismos que asseguram uma certa automatização dos conhecimentos” dando o exemplo “do que é que faz que a partir dum certo momento o sujeito é capaz de utilizar automaticamente as operações aritméticas”? (p. 485). Que estes mecanismos de automatização sejam algo de fabuloso no que diz respeito à aprendizagem, é certo, que provavelmente têm mais a ver com neurologia do que com psicologia, mas o caso das operações aritméticas é provavelmente muito simples, porque são elas mesmas que são um mecanismo operatório intrínseco. Basta pensar como é que são nomeados os números, a partir dos primeiros dez, ou representados por dez algarismos, e imaginar que a partir de quinze, cada número era nomeado com uma palavra diferente como os primeiros dez, 36 = milo,37 = gigo, 38 =  bogo, 39 = foca, etc., e percebe-se que seria impossível de fazer essas operações; ou então ver como os romanos com a sua numeração por letras não as faziam, usavam ábacos para o efeito. O que se passa é que 39 é 3 vezes 10 mais 9, isto é, tanto o nome como os algarismos a partir de 10 são operações aritméticas, cuja questão depende essencialmente da lógica da tabuada, da qual praticamente só a da multiplicação tem que ser decorada (a divisão sendo mais difícil de fazer mentalmente quando não dá resto zero): a sua memorização é imediatamente operatória. Se fosse o cérebro que fizesse as operações, como parece ser o que pensam os psicólogos, o mais provável é que houvesse muitos mais erros do que os que há, sendo um erro de aritmética simples justamente o que o cérebro ‘faz’ sem a tabuada. Ora, o mesmo raciocínio se passa com a linguagem, a detestável ‘informação’ é justamente a maneira de extrair as questões de pensamento e de conhecimento da sua lógica primária, que é a da lógica da gramática. Aqui basta ouvir uma criancinha de 4 anos a falar correctamente, espantarmo-nos do rigor conseguido de tantas e tantas regras, fonológicas a fazerem as palavras, morfológicas a conjugarem verbos, plurais e femininos, sintácticas com verbos, substantivos e preposições e conjunções, quantas regras certas que ninguém nunca lhe ensinou, esta admirável língua materna, igual nas regras à de toda a tribo, que nós também nunca damos por essas regras ao falar ou ao escrever. Deveríamos nos comover, de tal forma é espantoso. Estas regras que, em francês ou inglês, nos ensinam uma a uma na escola, como é que se aprenderam, como é que este ‘de fora’ tão complexo se tornou ‘dentro’? O que a gramática dá ao cérebro como operatório, a capacidade de fazer frases, percebe-se se pensarmos como seria se a linguagem fosse só palavras: teríamos que saber de cor 4 ou 5000 palavras, à maneira de sabermos os nomes de milhares de pessoas. Assim como uma alavanca permite aos músculos dos braços moverem pesos maiores dos que eles podem sozinhos, também a gramática é uma economia operatória, tal como a tabuada, uma espécie de alavanca que permite ao sistema neuronal ir mais além do que ele poderia sozinho. Estas regularidades, que uma certa poesia contemporânea, perto do surrealismo, transgride em parte tornando-se muito complicada para o leitor comum, são necessárias para nos entendermos uns aos outros, mas não são deterministas, pelo contrário: elas estão ao serviço da possibilidade de dizer frases indefinidamente diferentes, consoante o aleatório das situações de fala ou escrita. Assim, mecanismos vindos de fora enxertam-se nas sinapses neuronais para fazerem um dentro capaz de dizer ‘eu faço’ e ‘eu penso’, ambos, dentro e fora, jogando indissociavelmente, de maneira a que cada um de nós seja ‘especial’ e simultaneamente ‘tribal’, ‘eu’ e ‘da minha terra’. Ora, todo o conhecimento, mesmo o saber-fazer (know-how) de comportamentos desportivos ou artísticos, implica a linguagem como mecanismo matriz. É o que a ‘informação’ ignora, e assim se multiplicam questões que não existem e se passa ao lado das questões verdadeiramente interessantes, mas que talvez sejam além do laboratório científico: neurológico, com certeza, psicológico, não sei.
31. J-L Pedinielli expõe os principais conceitos de Freud e as modificações que Lacan lhe fez, depois as principais críticas que sempre se lhe fizeram, o peso da sexualidade, etc., e enfim, contraste claro com Parot e Richelle, três abordagens cognitivistas do conceito de “inconsciente”, de Fodor, Jeannerod e Le Ny, bem diferente do freudiano, mais perto da noção de ‘latente’ aliás, que correspondem a questões mais interessantes. Sem estar seguro de ter compreendido, sugeriram-me uma como que possibilidade de compreender algo que é por vezes contado e me aconteceu com alguma frequência: depois de um dia em torno de uma questão, acordar-se no dia seguinte com a solução que não se conseguira na véspera, como se o nosso discurso ‘consciente’ se tivesse tornado ‘latente’ e continuado a trabalhar com a memória envolvendo a questão. Um mecânico de automóveis contou-me uma vez que lhe sucedera acordar às 4 da manhã e ter corrido à oficina, por ter acordado com a compreensão da avaria que lhe escapara toda a tarde. Também se entenderia assim o dito de Nietzsche: “o pensamento vem quando ele quer e não quando eu quero” (Para além do bem e do mal, § 17).



[1] Psychologia: hoc est, De hominis perfectione, animo et in primus ortu hujus, commentationes ac disputationes quorundam theologorum & philosophorum nostra aeatis, Goclenius de Marburg 1590 (Web). [psicologia: isto é, da perfeição do homem, da coragem e sobretudo do seu ascenso’, comentários e disputas de alguns teólogos e filósofos da nossa época, entre comas o que duvido]
[2] Parot faz uma referência “às representações do homem nas outras regiões do mundo [...] convencer-nos-íamos de que não houve construção duma ‘disciplina’, a psicologia, nesses quadros” (p. 15). Justamente porque culturas, sem dúvida muito ricas algumas delas, mas sem definição nem ‘alma’ no seu historial!
[3] http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2012/11/limites-ontoteologicos-da-psicanalise.html
[4] Laplanche et Pontalis, Vocabulaire de psychanalyse, p. 404
[5] A palavra ‘biologia’ foi formada por Lamarck em 1802 (p. 127).
[6] http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2016/06/as-palavras-enchem-o-cerebro.htm
[7] Flahault, François, "Le fonctionnement de la parole. Remarques à partir des maximes de Grice", Communications, nº 30, La Con­versation, Seuil, 1979, pp. 73-79
[8] Dubet, François et Martucelli, Danilo, Dans quelle société vi­vons-nous?, Seuil, 1998
[9] Foi o que terá estalado nos anos 60 e 70, quando o campo económico e financeiro se tornou suficientemente capaz de garantir o entrosamento social, permitindo libertar a sexualidade do jugo jurídico e moral.
[10] Em L’erreur de Descartes, p. 202, A. Damásio propõe um gráfico que dá o modelo dum uso aprendido, uma anel que dispensa a energia da atenção da aprendizagem quando ela foi conseguida (mas sem dizer que está a falar da aprendizagem).
[11] Incluindo a própria psicanálise (§ 3), embora tenha sido ela um dos factores que contribuiu mais fortemente para ultrapassar este dualismo tão inibidor de discurso científico no campo do social e do humano, incluindo a biologia e a neurologia.
[12] Prémio Nobel de 2000, À la recherche de la mémoire. Une nouvelle théorie de l'esprit, Odile Jacob, 2007.
[13] A sua idiosincrasia, a maneira que lhe é própria (idion) de pertencer à mistura (krasia) com outros (sun). Damásio, A estranha ordem das coisas, p. 162-3, confirma neurologicamente esta hipótese inspirada em Winnicot.