quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A homeostasia, segredo da vida (Damásio)



“Imaginemos a extraordinária habilidade
de um malabarista,
que não pode interromper o processo
de manter todas as bolas no ar
sem deixar que alguma caia,
e temos uma representação teatral
 da vulnerabilidade e do risco da vida.
 Pensemos [...] que está já a imaginar
uma actuação ainda melhor” (p. 57)


Homeostasia, anatomia, genes
Princípio de inércia e princípio homeostático
Os dois sistemas da anatomia, o ‘antigo’ e o ‘não tão antigo’
Energia: sentimentos e emoções
A oposição interior / exterior a desconstruir
O cérebro é um órgão simultaneamente biológico e social
A evolução e o malabarista


Homeostasia, anatomia, genes

1. “Deixei de me chamar um neurocientista. Sou um biólogo interessado na mente e no cérebro” disse António Damásio (AD) em entrevista a Clara Ferreira Alves[1], a qual, perspicaz, comentou: “aqui está uma novidade; nunca tinha ouvido A. Damásio dizer isto”. Trata-se com efeito duma revolução na sua caminhada de cientista, a neurologia inserida no conjunto da anatomia, como faz esta fenomenologia desde 1996, quando, inocência de leigo apaixonado, começou a escrita de Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida (2007) pelo seu capítulo 3 sobre as ciências da vida, e como se tem reclamado frequentemente neste blogue a biólogos e neurologistas. Não contente com esta revolução, opera uma outra ao contestar o primado dos genes que grassou durante as primeiras décadas da biologia molecular e se tornou parte da ‘cultura geral’ do sr. Todo o Mundo (que diz ‘faz parte do meu ADN...’): defende a “teoria do metabolismo primordial” de Freeman Dyson (1999), tendo havido em seguida “uma série de acontecimentos fortuitos que levou à geração de moléculas auto-replicadoras, como os ácidos nucleicos”, os genes[2] (A estranha ordem das coisas, p. 62). Este novo livro de AD começa bem, no seu 2º capítulo já biológico, ao pôr o ponto de partida e o fulcro da sua nova posição sobre a anatomia dos vivos na homeostasia, indo mais aquém do que fazia J.-D. Vincent há uma trintena de anos em Biologia das paixões (1986), porque jogando desde a célula (em 1970, já J. Monod aludia ao “estado homeostático do metabolismo celular”[3]). Segundo AD, é a homeostasia que permite ao vivo, ao unicelular, persistir e prevalecer, isto é, sobreviver por um lado, e por outro florescer (42), ir mais além do que a reprodução de iguais.
2. Temos todavia que ultrapassar a posição de todos os biólogos e neurologistas que li, descendentes de Aristóteles que define os vivos como os que se movem por si mesmos (kath’autôn), definição essa que valoriza, por exemplo, a “autopoiêsis” de F. Varela (63); temos que colocar o vivo como ser no mundo, na cena ecológica que o dá e deixa ser autónomo em sua temporalidade nessa mesma cena. Para isso, há que ligar a homeostasia à produção de entropia positiva de Prigogine, que trabalhando – como químico e não como biólogo – sobre a química do metabolismo celular, mostrou como este – duas mil transformações químicas [incrível!] – cria uma estabilidade instável, uma estrutura dissipativa (que lhe valeu o Nobel de Química em 1977), ou seja uma homeostasia, sendo que esta só é possível por haver uma fonte externa que alimenta energeticamente essa estabilidade instável, essa criação de entropia. Ou seja, a homeostasia é correlativa da alimentação do metabolismo por moléculas vindas da cena ecológica, o que obviamente confirma AD (65). É por isso que a noção de homeostasia (do sangue) implica a de dois limiares, mínimo e máximo (77), entre os quais ela oscila, a descida perto do mínimo levando a pedir aumento que não pode ultrapassar o máximo: é a esta demanda que corresponderá o que AD chama o “imperativo da homeostasia”. Trata-se com efeito dum processo que tem a ver com as dimensões – da célula, dos órgãos, do conjunto do organismo – que são possíveis a tal espécie de seres vivos. “Sobreviver” significará então reproduzir-se dentro dos limites a que a homeostasia corresponde e “florescer” será crescer paulatinamente até chegar ao tamanho de adulto, movendo-se para se ultrapassar. Por exemplo endócrino: há hormonas da fome que suscitam os comportamentos de caça, de captação de outro vivo e outras que fazem saciar-se, que além dum certo limite interrompe a entrada de mais moléculas; também as células crescem até um certo tamanho e depois dividem-se em duas mais pequenas que crescerão por sua vez. Para Damásio, há neste ‘florescimento’ “uma projecção dessa vida no futuro dum organismo ou duma espécie” (p. 42), “a homeostasia como impulsionadora da evolução” (p. 77). Eis o que é novo, as “paixões” de Vincent incluídas mas talvez mais além; com o risco duma finalidade? A dizer verdade, qualquer ser vivo tem uma meta de espécie, no fundo é ela que Darwin considera na sua teoria da evolução, mas que é limitada à espécie e manifestando-se nas variedades que desta resultam, após se estabilizar endogamicamente (aludiremos de novo à questão evolutiva).

Princípio de inércia e princípio homeostático
3. Como caracterizar este fenómeno base dos vivos? Damásio cita o físico Schrödinger, O  que é a vida? (1944), que diz que “a vida parece ser o comportamento ordeiro e correcto da matéria, não baseado exclusivamente na sua tendência de passar da ordem para a desordem”, a vida ser uma força que se opõe à “tendência natural de todas as coisas de procurarem a desordem” (p.  64), essas coisas que seguem o 2º princípio da Termodinâmica, da degradação da energia como entropia que cresce negativamente (Clausius); Schrödinger como que anuncia a entropia positiva de Prigogine. Poder-se-á então contrastar a homeostasia com o princípio da inércia próprio da física e química mineral, a qual inércia não é algo de intrínseco ao grave mas significa que o seu estado de repouso ou de movimento depende de haver ou não forças da cena da gravitação incidindo sobre ele. Talvez se possa dizer que, do ponto de vista das transformações químicas (um pedaço de ferro que se oxida ao ar), a inércia implicaria uma ‘abertura’ à proximidade na cena da gravitação de outro grave (o oxigénio do ar), tal que os respectivos electrões livres se atraiam mutuamente para criar um novo grave composto (óxido de ferro). Então a proposta de Damásio levaria a considerar o princípio homeostático como característico dos seres vivos, a auto-regulação da oscilação resultante do fluxo de moléculas vindas das fontes externas de alimentação, respiração incluída: essa auto-regulação, a autonomia de cada vivo (com regras recebidas da heteronomia da espécie), em que os genes têm um papel importante, mas Damásio frisa que posterior: “faz sentido aventar que o imperativo homeostático, tal como se manifestou nas primeiras formas de vida, terá sido seguido pelo material genético, e não vice-versa” (66); pode-se dizer que foi o citoplasma que veio a precisar dos genes, estes definem-se pela sua função no metabolismo, antes da reprodução celular.

Os dois sistemas da anatomia, o ‘antigo’ e o ‘não tão antigo’
 4. Chegados aqui, podia-se esperar um programa biológico de leitura da anatomia animal que permitisse situar cabalmente as investigações sobre a mente e o cérebro, como diz, lamentando o fenomenólogo que AD não acentue  mais claramente a sua lição de O Livro da consciência, a de que a mente não é outra coisa do que os neurónios cerebrais, enquanto só o próprio[4] lhes tem acesso, confortando no leitor que não leu esse livro a lição cartesiana dualista de que tão primorosamente nos libertara. Todavia a expectativa gorou-se: a anatomia do biólogo, provavelmente dos biólogos em geral, é uma colecção empirista de órgãos, ao fenomenólogo foi mais difícil do que é costume a leitura, dada a diferença entre as duas filosofias[5]. Mas houve uma excelente compensação, uma das suas propostas principais, que permite uma diferença essencial para o autor entre sentimentos e emoções, indica duas regiões anatómicas decisivas, caracterizadas na sua manifesta novidade para AD de forma muito curiosa, pela cronologia da sua invenção na longa evolução do mundo animal: “mundo interior ‘antigo’” e “mundo interior ‘não tão antigo’”. O primeiro “é o mundo interior do metabolismo, com as sua respectivas químicas, vísceras, como o coração, os pulmões, os intestinos e a pele, e os músculos lisos [...] paredes dos vasos sanguíneos e os invólucros dos órgãos” (118). Correspondem-lhe “termos como bem-estar, fadiga ou desconforto; dor e prazer; palpitações, azia ou cólicas [...] constrição da faringe e da laringe que ocorre quando sentimos medo, ou a das vias respiratórias e o arquejar dum ataque de asma [...] ou tremores” (118-9). O “mais recente é dominado pelo esqueleto e pelos músculos a ele ligados (esqueléticos), ‘estriados’ ou ‘voluntários’. [...] São usados para andar, manipular objectos, falar, escrever, dançar, tocar música e operar maquinarias [...] A estrutura corporal global, dentro da qual se situa parte do mundo visceral antigo, é o suporte sobre o qual se drapeia [...] o mundo antigo da pele [...], a maior das nossas vísceras. [...] A estrutura corporal global é o cenário onde se encontram os nossos portais sensoriais [...] as regiões da ‘moldura’ corporal onde estão implantados os dispositivos sensoriais, bem como estes” (119), os quais são dados a partir dos tradicionais cinco sentidos, dos quais o quinto, a pele, “está distribuído por todo o corpo” embora irregularmente, concentrados nas mãos, na boca, nas zonas mamilar e genital (119-120)[6]. Sua proposta: do mundo antigo, “os sentimentos retratam o interior do organismo” (149), como exemplos de forma geral, o bem estar e a dor relativos às vísceras do abdómen, tórax e pele e seus processos químicos, contracções ou descontracções de tubos respiratórios, intestinos ou vasos sanguíneos (150), e ainda a consciência das pulsões de fome ou sede (146). Em contraste, exemplos de emoções que correspondem a movimentos do mundo não tão antigo,: “a alegria, a tristeza, o medo, a fúria, a inveja, o ciúme, o desprezo, a compaixão e a admiração” (146).
5. O mundo antigo é o mundo do metabolismo, disse o início da explicitação, “da regulação fundamental da vida” (121), o que há de músculos (lisos) nele foge ao controlo voluntário, é caracterizado pela espontaneidade ou automatismo dos seus movimentos ou ritmos, pelos sentimentos que são gerados nele. O que contrasta bem com o mundo recente, que é justamente o da mobilidade em relação com a cena exterior em que se é. É possível que alguns leitores mais frequentes dos meus textos, se os há, sejam capazes de reconhecer na maneira como costumo apresentar as anatomias animais estes dois mundos de Damásio como respectivamente o sistema da alimentação e o sistema da mobilidade. Com toda a franqueza, fico com o sentimento de que, se acontecer que venha a ler este texto, possa AD aprender com o fenomenólogo algo de biológico, por muito estranho que possa parecer. O mundo antigo da alimentação é aquele onde a anatomia obedece à componente química da lei da selva: alimentar todas e cada uma das células do organismo, além de água e oxigénio, com moléculas orgânicas, tal como o mundo mineral inerte não as tem e que a fotossíntese fornece às plantas (glucose, com as moléculas de carbono que são essenciais em todas as moléculas orgânicas) e que os herbívoros vão buscar a estas, sendo por isso presas, por sua vez, dos carnívoros. Neste processo, aprendo por minha vez com Damásio que os automatismos são a regra de toda a movimentação do sistema de alimentação, o coração e os pulmões nomeadamente, e que os sentimentos que nele se geram espontaneamente relevam da homeostasia que regula todo o sistema (Claude Bernard e J.-D. Vincent), permitindo preservar e florescer a homeostasia de cada célula, contribuindo para a do órgão de que faz parte, e para a da sua reprodução, quando é o caso[7]. Quanto ao mundo mais recente, é aquele onde a anatomia obedece à componente guerreira, por assim dizer, da lei da selva, que é pulsionado pelo que AD chama o imperativo da homeostasia a caçar ou buscar ervas, assim como a fugir de ser caçado por mais forte ou astuto, sendo obviamente, ensina Damásio, o reino das emoções, das ‘moções’ surgidas de dentro (e-, como também ‘esforço’ diz uma força que vem de dentro). O cérebro articula os dois sistemas, regulando endocrinologicamente a homeostasia do sistema alimentar e daí pulsionando a buscar na cena as moléculas que aquele exige, sendo provável que no duplo cérebro de aves e mamíferos, o novo córtice se especialize nas tarefas estratégicas da selva que incombem ao sistema da mobilidade, antes de virem a ser a base da cultura humana a que AD aponta nos últimos capítulos.
6. A sensação que fica no leitor fenomenólogo é a de presumir que se AD tivesse dado por esta lógica estritamente biológica da constituição das anatomias animais, todas, em tão grande diversidade, invertebrados e vertebrados, incluindo a dos humanos[8], determinadas por esta lei da selva, poderia AD ter distinguido melhor o que em nós releva da biologia e da cultura; pode ser que o fito de chegar a esta tenha impedido maior atenção àquela. Por exemplo, o tratamento da violência, que “contra os outros humanos [...] não precisa de ser justificada pela fome ou por lutas territoriais” (p. 239-240): ora, é justamente a lei da selva que é a responsável da evolução dos músculos esqueléticos como das astúcias de ataque e de defesa, seleccionados bem antes dos humanos. Outro exemplo seria a seguinte afirmação: “não temos maneira de saber ao certo quando, nem como, teve lugar a emergência dos sentimentos na evolução; todos os vertebrados têm sentimentos e quanto mais penso nos insectos sociais, mais desconfio que os seus sistemas nervosos gerem as respectivas mentes simples com versões básicas de sentimentos e de consciência” (177). Mas aqui põe-se uma questão mais vasta. A noção de mente do Livro da consciência pareceu-me inerente a toda e qualquer rede neuronal, por incipiente que seja: onde há neurónios, o animal sabe de si, toscamente que seja, terá pois uma mente sua, é consciente na sua mobilidade, ao seu nível. Parece que Damásio guarda um conceito humano de mente e consciência como modelo que aplica para trás e busca a respectiva emergência sem ser nos neurónios, quando me parece que são os seus graus que as anatomias ao longo da evolução podem testemunhar: se ouso pôr hipóteses de saltos, de invertebrados para vertebrados, metamorfoses nuns e noutros, cérebro duplo de aves e mamíferos, invenção cultural de usos técnicos e de linguagem com melhoramento progressivo.

Energia: sentimentos e emoções
7. O motivo central da homeostasia na sua relação essencial à regulação da energia presta-se a uma reflexão geral que, do ponto de vista fenomenológico, me parece ir longe. O esquema de AD pode resumir-se assim: quando há movimentos inesperados no mundo visceral (sistema da alimentação), geram-se por homeostasia sentimentos que podem implicar igualmente por homeostasia emoções no sistema de mobilidade que levem a comportamentos tendendo a uma solução possível do surgido inesperadamente. Partirei dum excelente esquema de O Erro de Descartes[9] sobre a expressão de emoções entre corpo e cérebro, a qual é susceptível de suceder segundo dois mecanismos, um em que a emoção provém do corpo como força energética que se exprime cerebralmente (o esquema é dum duplo anel, o do corpo e o do cérebro) e outro, dito de simulação, em que o corpo é curto circuitado completamente (só há um anel, o cerebral). A discussão entre AD e outros autores supõe que os dois casos se põem em alternativa, mas o fenomenólogo, que nada sabe de laboratório, entendeu que os dois casos da figura podiam também representar a aprendizagem dum uso: o duplo anel diria o lento esforço de aprender, com a energia corporal que isso implica, e o anel de simulação diria justamente a poupança energética que sobreveio no uso tornado espontâneo e rotineiro. Ora, desde que haja aprendizagem – que é progressiva com a complexidade do sistema de mobilidade e respectivo sistema nervoso –, haverá este processo de primeiro duplo anel e depois anel de simulação, o que acrescenta um ponto importante à lição de AD: se é certo que o sistema de alimentação, o seu mundo mais antigo, é caracterizado pelo carácter automático dos movimentos, percebe-se agora que no outro sistema também se vem a conseguir como meta um equivalente automatismo, o da habilidade espontânea ganha por quem antes não sabia usar, algo que permanece um dos meus grandes espantos em biologia. A energia da emoção que ‘dá’ o esforço de aprender, retira-se, ‘(dis)simula-se’ na repetição mais ou menos automática conseguida: subindo um patamar para a disciplina seguinte, a antropologia, estes usos são agora o nível ‘mais antigo’ do funcionamento de qualquer unidade social, família ou emprego, todas supondo no seu funcionamento as rotinas dos seus habitantes. As invenções de novos usos repetem o duplo anel e a grande despesa energética dos inventores, que será muito mais mitigada junto dos que os aprenderão até chegarem à rotina. Ou seja, a homeostasia de Damásio verifica-se fecunda ao nível antropológico e até histórico, se pensarmos nas invenções de conceitos filosóficos ou nas descobertas científicas que se tornam depois ‘paradigmas normais’ rotineiros (Kuhn) após essas revoluções. Ou também os movimentos espirituais que queriam reformar as estruturas eclesiásticas, beneditinos, franciscanos, dominicanos e outros, e depois confissões protestantes, todos surgem com grande força espiritual contagiosa que ao cabo de poucas gerações seguintes se tornaram rotineiras, tal como aquilo que queriam reformar. Sendo assim algo de bastante geral como característica da homeostasia, é possível também estender o interesse deste mecanismo à evolução biológica, naquilo que diz respeito à esmagadora maioria dos exemplos de Darwin e da sua “luta pela existência”, que têm a ver justamente com o ‘mundo interior recente’ de AD e em que se pode pensar assim os efeitos da homeostasia: primeiro, ganham-se rotinas de comportamentos na luta pela existência na selva, segundo, essas rotinas vêm a ser corroboradas por mutações genéticas que as tornam hereditárias. Grande vantagem de Damásio dar primazia à homeostasia sobre os genes! tornando-se prigoginiano sem o saber.

A oposição interior / exterior a desconstruir
8. Peguemos então na questão filosófica mais difícil, a da “filosofia espontânea dos sábios”, título dum livro de Althusser que nunca li, mas restituo do meu ponto de vista: a filosofia recebida nos liceus em qualquer disciplina, científica ou humanística[10], que releva da tradição europeia e da oposição entre alma / corpo, alma-corpo / mundo, cérebro-mente / ambiente, em resumo, a oposição entre interior e exterior que vigora ainda em muitas ciências e até filosofias modernas[11]. Não se trata de inverter esta oposição mas de a desconstruir, inserindo ambos os termos na cena ecológica que os torna possíveis: esta cena, vulgo ‘ambiente’, é prévia a cada organismo que nasce e que dela tem que receber o alimento que o fará crescer autonomamente, auto-regulando essa alimentação (que aliás tem que procurar). Seja o exemplo da linguagem que, reduzida pela tradição filosófica europeia a ‘instrumento’ do pensamento, continua em AD a sê-lo, ao falar de “uma faixa verbal pessoal que traduz imagens que surgem do mundo exterior, mas também as imagens que chegam do mundo interior” (207), as quais imagens são “mapeadas” quer do mundo externo quer do mundo interno (130). Como se o cérebro tivesse a iniciativa de ‘mapear’ imagens recebidas e depois de as ‘traduzir’ em palavras. Basta pensar como uma criança de 3 ou 4 anos diz frases sintacticamente correctas, com preposições, morfologias verbais e nominais, e por aí fora, pensar como nós próprios formulamos as nossas frases de forma automática no que diz respeito à sintaxe e à morfologia, para perceber que não há ‘tradução’ nenhuma, assim como não houve aprendizagem expressa dessas regras linguísticas nas línguas maternas, ao contrário da aprendizagem escolar de línguas estrangeiras. Ora, este automatismo (homeostático) das frases é indiscutivelmente ‘externo’, na língua que já lá está quando nascemos, ela que é a mesma para todos os falantes da tribo, e nesse sentido não é “uma faixa verbal pessoal”, já que foi ‘recebida’, mas é-o quando se fala, quando dizemos o nosso próprio pensamento ‘pessoal’ com a língua da tribo. Ou seja, a oposição externo / interno é neutralizada pela fenómeno da aprendizagem, o que é ‘passivo’, pois que recebido, torna-se mecanismo ‘activo’ de fala. Tal como o ovo ou zigoto recebido dos progenitores – homeostasia do metabolismo e genes reguladores – que, também ‘passivo’, é deposto no útero feminino como ‘activo’: o que o ovo recebe é a própria potência da espécie, heteronomia, como condição da autonomia do novo indivíduo, a ser alimentado pelo sangue e depois pelo leite da mãe, a ter que aprender os usos da tribo, para que a sua homeostasia venha a jogar autonomamente. Do que se propôs no § anterior, deduz-se que a homeostasia damasiana inclui sistematicamente esta passivactividade como sua condição, esta marcha permanente com um pé fora que dá e um pé dentro que regula o que recebe a partir de regras que recebeu. Esta homeostasia, do sistema e do que de fora constantemente o alimenta, é mais difícil de pensar, como também é difícil ser malabarista. Difícil para os neurologistas pensarem como o cérebro joga com a linguagem[12] e com as suas emoções, como ela as exacerba como paixões de todas as artes e todos os excessos mas também as contém e racionaliza: sempre este jogo entre razão e paixão foi mal-estar insolúvel do pensamento filosófico e psicológico. Eis o que incita a aceitar a proposta de Damásio: a própria homeostasia resiste às nossas tentativas de pensá-la. 

O cérebro é um órgão simultaneamente biológico e social
9. O que haveria que corrigir sistematicamente na prosa de AD por razões duma fenomenologia da homeostasia? Muita coisa, sem dúvida, limito-me aqui à noção de ‘mapeamento’ ‘criado’ pelo cérebro, que tem o grave inconveniente de o separar do corpo e do mundo, noção essa a ser substituída pela de grafo de J.-P. Changeux, que implica a de ‘gravação’ como trabalho energético; tal como leio O homem neuronal, o que os ditos órgãos dos sentidos fazem é gravar[14] o que AD chama “cadeias de circuitos neuronais” (137), recebidas para actuarem (passivo->activo): pensar por exemplo faz-se em frases cujos nomes e verbos vêm relacionados com as coisas que dizem, que também foram aprendidas, a ver, mexer e nomear. Por certo, não é fácil saber como é que estas coisas se passam no cérebro, mas que pensar se faça por frases encadeadas sugere que sejam estas redes de cadeias de circuitos gravados que são activadas, uma notícia referente às experiências de J. Gallant[15] sugerindo que as palavras se encontram espalhadas por todo o córtice segundo paradigmas semânticos de usos quotidianos. Mas também o que se vê é gravado electroquimicamente em grafos, próximos provavelmente dos seus nomes, na sequência complexa da “projecção de padrões luminosos na retina” (210), expressão de AD que sublinha o que eu chamaria a ‘iniciativa da visibilidade’ do mundo externo, em detrimento da noção de ‘mapeamento’: esta atribui à criatividade do cérebro aquilo que ele começa por receber de forma repetida – uma criança pequena leva muito tempo a aprender a segurar num copo, dizia na Tv o neurologista Rui Costa – até que se grave e se torne cerebralmente activo, nesta matéria cinzenta de química e electricidade.

10. Eis o que resiste mais à nossa compreensão destas coisas neuronais, que se trate apenas de química e de electricidade. A electricidade industrial é de electrões de metais e outros bons condutores, a neuronal é de iões de sódio e potássio, prestando-se a trocas químicas nas sinapses[1]. Dada esta diferença, seja uma comparação. Ao telefone, reconhecemos a voz de quem nos fala, ela chegou transformada em corrente eléctrica e depois virou de novo voz humana que diz tal e tal coisa : não é óbvio, mas a frequência acústica duma voz e a sua frequência eléctrica telefónica são as mesmas. A ideia que me fica do que leio há muitos anos dos neurologistas é a de que é também assim, mutatis os mutandis que disse acima: a nossa mente é estruturalmente aberta ao que vê, ouve e mexe lá fora e que no sistema neuronal se transformou em electricidade química em suas operações cerebrais, estas sempre ligadas ao mundo que recebe de fora e agindo muscularmente (falando, fazendo) nele ; ela é a mente dum ser no mundo. É muito ‘materialista’, creio que é muito difícil de ‘aceitar’ isto, mas quando se aceita que nós não somos só ‘corpo’ mas seres no mundo, dando-se importância à gramática e à tabuada, é algo de fabuloso : tudo o que amamos e admiramos, todo o humanismo, tem o seu segredo na homeostasia deste neuronal corporal. Inacreditável ! É certo todavia que o mundo, que inclui as outras pessoas, é muito mais bonito do que as nossas vísceras, que felizmente nós não vemos.
11. Ora, segundo o Livro da consciência, é a rede de sinapses neuronais a que só o próprio tem acesso que é a mente. E provavelmente é também a memória, que no fundo não é senão o conjunto cerebral dos grafos de todo o nosso saber, de si e do seu mundo, que, enquanto conjunto, está ‘esquecido’, fora do circuito que está agindo em cada circunstância, mas sempre apto a vir à baila quando o que se está a jogar o solicita. A mente humana – aquele que age e fala em seu nome – parece ‘ser vista’ nas luzes das pantalhas laboratoriais dos neurologistas, acendendo-se e apagando-se interminavelmente: ela também é homeostática, oscilando entre as redes de sinapses ‘atentas’ que se vão sucedendo, oscilação maior quando a atenção cessa para uma rede agora descontraída, relaxada, poupança energética antes de voltar a nova concentração. Ou, ao fim do dia, oscilação da relaxação ao deixar-se adormecer, e outra ainda entre o sono pacífico e o paradoxal dos sonhos agitados. Estas oscilações homeostáticas trazem zonas de memória à consciência desperta, se for certo que esta é tudo o que fica ‘esquecido’ em cada momento para que atenção haja: à medida que vamos ouvindo ou lendo, falando ou escrevendo, fazemos associações do que temos em mente com outra coisa que está na memória e é chamada a jogo, muitas vezes razoavelmente mas de vez em quando da forma inesperada que se diz ‘inspiração’, onde porventura a noção damasiana de homeostasia ‘floresce’, como ele diz de maneira tão bonita, faz flores e florestas. O pensar é florestal, donde a noção de cultura que Damásio procura homeostasiar.

A evolução e o malabarista
12. Damásio propôs a noção de “imperativo homeostático” e chegou mesmo a chamar-lhe “jugo despótico” (260), o que me fez franzir os olhos de leitor, só alguns dias depois deste texto escrito me tendo apercebido da boa razão para um tal despotismo, que funciona nas considerações sobre a cultura humana como um motor. O interesse do tema é vasto, ele permite reavaliar a questão daquilo a que Darwin chamou selecção natural e que os biólogos actuais dizem ser um ‘mecanismo’, que obviamente não é, como o não é a selecção humana de criadores de gado e de agricultores; na Origem das espécies ela funciona apenas como lógica imanente dos fenómenos biológicos, Darwin chama-lhe “lei” ou “princípio” e claramente que no seu texto tem como função opor-se à doutrina tradicional da criação divina das espécies. E o problema é saber se há e o que é um tal “mecanismo” da evolução: a proposta de AD, que não fala assim, é a de que será a homeostasia e o seu imperativo. Ora, como tenho tendência a pensá-la como ‘equilíbrio’, e a não ter directamente em conta o imperativo, só a evocação de Prigogine me fez perceber, embora ele não dê importância à biologia além da química do metabolismo: a questão da alimentação é primordial todavia e, sem o negar, AD não lhe dá a devida conta em parte nenhuma do texto, certamente pela pecha do paradigma que privilegia o interior sobre o exterior, como se só o primeiro é que fosse ‘biologia’. Ora, nos animais a homeostasia é o equilíbrio oscilante do “meio interior” de Cl. Bernard, que alimenta a mini-homeostasia de cada célula do organismo, e é o teor em nutrientes do sangue que indica a necessidade dum interdito: ‘nós, as células todas, precisamos de ser alimentadas, senão morremos’. E o organismo tem que ir à busca de ervas ou presas para responder. Ora, desde que se saiba que os dois sistemas articulados pelo sistema neuronal, o da alimentação e o da mobilidade, o ‘antigo’ e o ‘recente’ de AD, são o desencadear e a resposta a esta necessidade estrutural, segundo a lei da selva, percebe-se que o tal mecanismo, que ajuda a perceber a célebre “luta pela existência” darwiniana, será justamente o do interdito da homeostasia em nome da alimentação e o da caça pela mobilidade, a conseguir essa alimentação. Caça e fuga de ser caçado, questão de vida ou de morte: se o vivo não come, morre. Porque a homeostasia, em terminologia prigoginiana, é produção de entropia, de uma estabilidade instável que, se falhar, vira entropia negativa, a de Clausius, degradação que é a morte do vivo. Que está aqui o segredo da evolução, da vida, basta pensar que a lei da selva que exige a constante alimentação determina a anatomia de todos os sistemas animais na sua imensa variedade, invertebrados e vertebrados. O título deste texto está justificado, Damásio colocou a homeostasia como segredo da vida.
13. Gostaria de também justificar a exergue do malabarista como figuração homeostática, algo que está já lançado na acrobacia das bolas no ar que lhe vão passando pelas mãos: o ponto é que as bolas não caiam no chão. Passa-se o mesmo com o sistema planetário ou com a lua, os planetas estão lançados em movimento num malabarismo que é das forças de gravidade deles e do sol, sem paragem possível em que se apoiassem. É o caso da homeostasia: não tem assento, joga-se no ar, numa estabilidade instável. A interpretação proposta no § 6 das duas figuras do primeiro livro de AD (fig. 7.6) permite compreender a figura dos dois anéis como a da aprendizagem dum uso mais ou menos complexo (guiar um carro, por exemplo), o duplo anel dizendo como o sistema corporal de mobilidade despende energia até o uso ser conseguido, o anel só mostrando como então entra o ‘malabarista’, que guia espontânea e habilidosamente, como se estivesse ‘acima do chão’, sem apoio. É o que acontece quando falamos (na escola com duplo anel, aprendendo saberes disciplinados) ou corremos ou fazemos as rotinas da casa ou do emprego. Mas assim como se supõe alimentação diária, também é certo que este fazer quotidiano entre espontâneo e atarefado obriga a repouso de várias horas nocturnas: a homeostasia precisa destes apoios para recomeçar na manhã seguinte. Animais como plantas à sua outra maneira, são formas – oh quão diversas! – de malabaristas. Bem haja, Damásio, pela sua bela lição.



[1] Expresso de 28/10/2017.
[2] Que é compatível com a teoria de M. Barbieri (1985) que no entanto coloca o papel de ribossomas replicadores na génese do metabolismo, ignorando todavia a homeostasia.
[3] Le hasard et la nécessité, p. 98.
[4] Horrivelmente traduzido em português por proprietário”, não sei como em inglês.
[5] Ao empirismo acrescenta-se uma psicologia das faculdades” que na filosofia do século XIX ainda era dita como faculdades da alma” (Lalande, Vocabulaire technique et critique da la philosophie).
[6] A pele provavelmente pertence aos dois sistemas, que o sistema neuronal articula. Há ainda o sistema sexual.
[7] Células dos ossos, da pele, etc., mas não, por razões essenciais de memória, os neurónios que somos enquanto ‘mente viva’ no mundo.
[8] Que se libertaram da ‘selvajaria’ da lei da selva com a invenção da agricultura e da criação de gado.
[9] Figura 7.6 (p. 202 da edição francesa).
[10] Que na ascendência universitária americana actual tende a ser uma vulgata do empirismo anglo-saxónico.
[11] A proposta que aqui se segue supõe a sua ultrapassagem, se dizer se pode, pelo motivo do ser no mundo e de doação da autonomia temporal por heteronomias que se dissimulam para deixar ser aquela (Heidegger), retomados mais radicalmente pelo trabalho de inscrição (rasto ou différance de Derrida). É o que me permite reler as grandes descobertas científicas com um olhar novo.
[12] Assim como a tabuada no mundo das quantidades, contas e medidas, a linguagem é para o cérebro o que a alavanca é para os músculos : aumenta-lhe as possibilidades. Por exemplo, a de contar um acontecimento passado longe ou antigamente, ou anticipá-lo por uma receita.
[14] Criando sinapses, segundo Kandel (2007), nos seus vermes de mar que aprendem a reagir a certos sinais.
[15] Público, 28 / 04 / 2016.
[1] O engano da gente de Sillicon Valley que trabalham com silício na Inteligência Artificial é julgarem que a electricidade de electrões que esta usa é o mesmo que a electricidade de iões das sinapses que trabalham com carbono. Um ião é, no caso, ou um átomo de sódio ou um átomo de potássio, os quais se podem transformar quimicamente um no outro trocando um electrão excedente : se a electricidade industrial, que Volta inventou ao inventar a pilha em 1800, fizesse o mesmo com o cobre, por exemplo, a corrente dava cabo dos cabos ou do hardware dum robot. Segundo as experiências de Kandler, em que aprender é criar sinapses, o que se passa no cérebro é que é o software, aquilo que é aprendido, que se torna hardware, impossível fisicamente para as máquinas de sílica. A dizer verdade, espanta-me que este engano exista, que o Vale do Silício não tenha dado pela coisa, eles a quem Inteligência Natural é que não falta.

domingo, 3 de dezembro de 2017

A PSICANÁLISE, UMA CIÊNCIA DIFERENTE DAS OUTRAS


(Conferência perante a Sociedade Portuguesa de Psicanálise, a 6 de Maio de 2006, nos 150 anos do nascimento de Freud)

1. Bom dia. Além do agradecimento óbvio a quem me convidou para estar aqui hoje, eu que nunca tive jeito para retóricas, quereria encontrar uma maneira de dizer como me toca pessoalmente este convite. Como me toca enquanto leitor de Freud. Vou-vos fazer rir, mas o rapazinho que há em mim está comovido, acho que os psicanalistas sabem destas misturas. É como se estivesse num sonho em que ele viesse a Lisboa, em visita oficial como se diz, e o Prof. Pedro Luzes me chamasse da multidão ‘Mestre, deixe-me apresentar-lhe o meu amigo Fernando que ensina Filosofia da linguagem e que todos os anos dá duas aulas sobre psicanálise’. Estou pois aqui como num claro sonho infantil, realizando um desejo, só que não sabia que o tinha. E de tão honrado me sentir ao aceitar o convite, nem pensei no risco imenso que ele implicava, a desfaçatez de vir discretear sobre o ‘Padre nosso’ diante duma assembleia de vigários (salvo seja, que todas as comparações são coxas, diziam os Romanos).
2. Foi em 1969, que nisto a memória me não falha, que li fascinado Traumdeutung, na versão espanhola que Freud revira – estudante de medicina, aprendeu espanhol para ler o D. Quichote, explicou. Era o meu baptismo na matéria, o livro que tinha 70 anos deu-se-me como se fosse novinho em folha. Gostaria de saber qual a reacção dum jovem de hoje que o leia, virgem de doutrina e comentários, se tem a mesma sensação de frescura que eu tive. O próprio autor terá dito que um livro como aquele só se escreve um numa vida humana. Não posso dizer que um leitor só lê um livro assim na sua vida, que felizmente tenho lido bastantes livros fascinantes, mas certamente que não há outro texto capaz de fazer descobrir o continente dos sonhos como, de maneira tão didáctica, passo a passo, sonho a sonho, Freud vai propondo uma maneira intelectualmente totalmente inédita de abordar um dos fenómenos mais estranhos – ainda hoje me espanta, como o da linguagem aliás também, mas este não é hoje o assunto – da vida humana. O que vos proponho é de tentar avaliar a possível cientificidade dessa abordagem, que há autores que a negam, mesmo gostando do livro, como K. Popper, ou até sendo psicanalistas, como Claude Le Guen[1]. Fá-lo-ei de forma limitada, porque não me é possível propor o conceito de cientificidade que está aqui subjacente e que daria cabimento mais completo a esta avaliação.

A neurofisiologia, ciência do cérebro que não do discurso

3. A objecção, senão mais corrente, hoje mais séria à cientificidade da psicanálise vem, julgo, da neurologia que pretende para si, em exclusivo, o lugar da ciência do cérebro. No que releva da sua anatomia, fisiologia e embriologia, em seus métodos de abordagem, tal pretensão não sofre contestação. Não pretenderei contrapôr-lhe uma abordagem do que se chama a ‘mente’, a ‘psique’, termos de que duvido como sucedâneos duma alma e da sua separação dum ‘corpo’, já que justamente a psicanálise é uma das mais fortes objecções a tal dualismo greco-cristiano-europeu. Mas sim o discurso: que sabe dele o neurologista pelos seus métodos, por exemplo com os seus écrans ou com as ondas dos electro-encéfalo-gramas ? Das regras das línguas que só em cérebros se jogam, mas a eles vêm de fora, de outros? Poderá ele sequer saber que lingua está um seu paciente falando, ou pensando? Mesmo para saber se sonha, não tem M. Jouvet, por exemplo, que o acordar e lhe perguntar: estava a sonhar? Com quê? De maneira equivalente, aliás, qualquer médico terá que perguntar ao paciente onde lhe dói, de que espécie de dor se queixa, sem que as suas aparelhagens sofisticadas e formas de análises químicas possam substituir-se a esse testemunho. O que terá sem dúvida que ter a ver com a especificidade dos neurónios entre as duas centenas de tipos de células dos mamíferos: formarem uma rêde cuja propriedade consiste em afectarem-se uns aos outros, mormente a partir dos órgãos perceptivos. Há aqui uma irreductibilidade metodológica que aliás poderá servir de argumento ao dualismo evocado, contra o qual não creio se possa responder apodicticamente, mas apenas por uma espécie de decisão axiomática, se assim se pode dizer.

Uma semiótica experimental do discurso neurótico na sua relação à sexualidade
4. Se permitirem, a um profano, caracterizar as ciências médicas, à diferença das biologias, como a) um saber teórico e experimental de tipo biológico, químico e físico, b) que se exerce numa relação terapêutica, isto é dual, de singular a singular, c) a pedido do paciente que se queixa de certos sintomas, d) essa relação devendo durar todo o tempo do tratamento até à cura, até que os sintomas desapareçam, é fácil ao tal profano concluir que apenas no ponto a) a psicanálise se distingue das outras especialidades, ou seja no ponto das metodologias, cuja irreductibilidade acusámos. Se compararmos as pretensões do médico Freud, no Esboço duma psicologia científica de 1895, com a Interpretação dos sonhos de cinco anos mais tarde, parece óbvio o abandono das preocupações de tipo neurológico (próprias da época, claro, Ramon y Cajal descobrira os neurónios, 5 anos antes) - de busca de localização anatómica cerebral ou de fisiologia dos neurónios - das instâncias de que se vai ocupar : esse abandono manifesta que ele teve em conta esta irreductibilidade metodológica como condição da instalação do paradigma psicanalítico. É claro que há um outro ponto de discussão, mas desse o profano não sabe dizer : há curas, os sintomas desaparecem ? Quem pode sobre isso ter uma palavra segura ? A dos pacientes não será suficiente, porque testemunha só do seu caso, a dos não praticantes enferma de ser exterior ao paradigma : em bom rigor kuhniano, apenas os próprios praticantes terão conhecimento suficiente, teórico e prático, para de tal poderem discutir entre si. 
5. Mas esse abandono da neurologia não implica uma ruptura total com o saber de tipo biológico, em que as questões energéticas têm lugar primordial. A grande descoberta de Freud – que creio continuar a ser, um século mais tarde, a razão de ser da prática psicanalítica, e só dela – foi, citando Ricœur, « o acesso à energética apenas pela via da interpretação », ou ainda « o carácter híbrido da psicanálise », foi a da relação intrínseca do discurso dos humanos com a sexualidade. É justamente o que, se há curas, permite colocar o estatuto da psicanálise entre as ciências médicas : o duma semiótica experimental do discurso neurótico em relação à energia sexual humana no seu laço à lei social. Semiótica paradoxal, em comparação com as dos contos populares ou doutras narrativas, ou com as semióticas poéticas : sendo uma ciência da linguagem, não se ocupa todavia das estruturas linguísticas, mas apenas dos sintomas neuróticos que justamente só se encontram no contexto da interpretação duma relação dual terapêutica, na explicitação da memória latente do paciente (dos seus sonhos manifestos, por exemplo) através da sua livre associação de ideias, em direcção aos pressupostos mais profundos do seu percurso histórico singular. Semiótica paradoxal ainda, porque fazendo-se, não sobre um discurso já dito ou escrito, como as outras, mas sobre o discurso ‘enquanto se faz’ na longa duração da terapia, mas também que muda pelo efeito dessa mesma terapia, que visa essa mudança, o desaparecimento dos sintomas e do sofrimento. Trata-se portanto duma semiótica experimental, a chamada experiência analítica, que em princípio a cura deve poder testar : « a libertação dum ser humano, escreveu Freud, dos seus sintomas neuróticos, inibições e anomalias caracteriais »[2]. Este carácter expperimental é de tal maneira primordial que nada no discurso psicanalítico tem valor científico fora desta relação dual terapêutica, o que não deverá ter equivalente nas outras ciênicas médicas e seus métodos laboratoriais.

As resistências como índice de ‘real’

6. Uma das objecções possíveis à cientificidade (à objectividade, como se diz) desta semiótica tem a ver com o facto de ela se exercer sobre as associações livres do paciente, portanto sobre a sua subjectividade mais acentuada. Com efeito, dizem-se aí muitos disparates, coisas incongruentes, sem sentido. Ora, em vez de ofuscar, o terapeuta encoraja-o : « diga tudo o que lhe vier à cabeça, mesmo que lhe pareça idiota, chocante, indecente, sem relação com o que quer que seja ; não me dissimule nada ». Encoraja-o pois a evitar a vigilância da consciência (razão, ética, conveniências) nesse desfile de ideias libertadas. Se há assim suspensão dum certo aspecto do subjectivo do paciente, trata-se no entanto do que ele tem de ‘social’, de ‘comum’ com os outros : a associação de ideias será ainda mais ‘subjectiva’, singular. Mas mais automática também, quase mecânica, como um rio fora das barragens, melhor entregue às leis hidráulicas do movimento dos fluidos que se possam jogar no próprio desfile. Cheio de figuras, deslizes, choques inesperados, eis no entanto que o terapeuta vê surgirem correlações que se repetem aqui e ali, que desenhamcontornos, configurações, nesse magma de ideias ; e essas repetições revelam-se com frequência no bordo de certas paragens do discurso, de resistências a dizer que se manifestam por esquecimentos, lapsos ou outros actos falhados, intervenções súbitas da consciência vigilante que se auto-censura, silêncios, desmentidos, risos, choros, negações, etc. Isto é, sintomas energéticos (diferenças de sentido e diferenças de força indissociavelmente) que estabelecem uma clivagem, uma margem, um limite que não se pode passar, uma fronteira fractural, digamos, entre o que se diz e o que não chega ao dizer. Além dessa fronteira encontram-se os nós discursivos escondidos que manifestavam os sintomas neuróticos que levaram a pedir a terapia. Esta, o fim da interpretação, consistirá neste lento avançar do jogo livre das associações em ordem a que esses nós cheguem à relação explícita possível com o discurso corrente do paciente. Dialógica e experimental, esta semiótica dum discurso no seu fazer-se deverá servir à interpretação do analista mas também à cura.
7. Ora, é nestas repetições e resistências diversas que a sexualidade se manifesta como sexualidade censurada, interdita, tingida muitas vezes de agressividade, sexualidade incestuosa e de ciúmes correlativos : isto é, ela manifesta-se como ligada à lei social. Censurada, não apenas em relação ao analista, mas antes de mais e sobretudo em relação à consciência vigilante do sujeito, que se ofusca com aquelas revelações e não quer crer nelas. Digamos que é justamente a ‘subjectividade’ livre do sujeito que é contrariada por esses sintomas falando e trabalhando nele a partir de alhures. Algo mexe e resiste, permanecendo ‘autónomo’ da consciência, algo de real ; esse algo que se joga nele, ele não o reconhece como seu, como por vezes nos sucede com a experiência de extranheza de certos sonhos : como é que eu pude sonhar isto ? Que o paciente resista primeiro, seja surpreendido por esse íntimo de si muito estrangeiro a si, que ele se alivie no fim dos seus sintomas neuróticos, que as suas dores desapareçam por este trabalho-palavra dum real estranho vindo dele, que não se dá senão ao trabalho de interpretação do analista sem que o paciente saiba como é que aquilo chegou a um certo fim, eis o que torna palusível um estatuto de ciência médica à psicanálise, é certo que não como as outras.
8. Esta semiótica experimental dos discursos neuróticos nas suas relações à sexualidade ligada à lei social pode assim distinguir, como o seu inventor fará vinte anos mais tarde, três instâncias discursivas : a que se tece em redor do ‘eu’ que fala (Ego, com uma zona inconsciente à volta), a que deseja, pulsiona, além do que ‘eu’ crê querer e desejar (Id, a líbido recalcada) e a que resiste a estes desejos e pulsões, também alémdo que ‘eu’ quer (Super-ego, os interditos morais, o ideal, parcialmente também inconsciente). Sobre o lugar da sexualidade na psicanálise, um argumento dde conveniência, exterior à psicanálise e acrescentando-lhe alguma verosimelhança, é o da sua invenção precoce pela evolução, se se põem em contraste as espécies mais evoluídas (aves e mamíferos) com as espécies assexuadas, como certos vermes ou a hidra da água doce (cissiparidade e outros processos), que não deixam cadáveres nem conhecem filiação, isto é indivíduos completamente distintos daqueles donde são originados. Com a se­xualidade, excessiva e pulsional, a evolução inventou também progressivamente quer o par fêma / macho, quer o nascimento e a morte dos indivíduos, quer ainda a permanência em vida dos progenitores em simultaneidade com os seus rebentos, e portanto a possibilidade da lei, da aprendizagem. Não há que nos admirarmos que estes motivos appareçam centrais nas interpretações psicanalíticas.

Pertinência e dissimulação

9. E já agora, um segundo argumento de conveniência, também independente da psicanálise, mas que lhe esclarece um aspecto importante, o que se pode chamar o seu laboratório, que sem ele não há ciência. Recolhi-o dum texto muito lindo e curto de F. Flahault, discutindo a proposta duma lógica da conversa do filósofo americano P. Grice[3]. Observa ele que em qualquer conversa, seja qual for o número de participantes, só há um fio da palavra, só um pode falar de cada vez como condição de que os outros escutem. Ora, esta estrutura implica que cada um, para tomar a palavra, seja socialmente obrigado a mostrar que tem o direito de o fazer, isto é, tem que provar a quem escuta que o que ele diz é pertinente para a conversa. O que tem uma segunda implicação : não poderá dizer o que lhe vier espontaneamente à cabeça, tem que a aprender a criticar-se previamente de si para si, tem que aprender a dissimular, a pensar duas vezes, a elaborar estratégias eventualmente, etc. Ora, como esta situação se apresente a cada um desde miúdos de quem os adultos se riem, que corrigem, etc., isto implica que não é só a sexualidade, também a linguagem está desde o início ligada à lei, que nos impõe uma espécie de axioma pessoal de pertinência, para evitarmos de sermos considerados estúpidos, ou loucos. Lei que nos ensina a transgredi-la, pois que uma das suas regras é que não se pode mentir, mas só se pode ser pertinente dissimulando. E se é certo que a mentira é por este mecanismo que se forja, também o é a capacidade de se guardar segredo, seu ou de outrem, a de pensar, de fazer ficção, de vida interior, como se dizia no calão católico.
10. Porque é que isto é um argumento de conveniência da psicanálise ? Porque justamente dá uma luz antropológica sobre a injunção psicanalítica acima referida : « diga tudo o que lhe vier à cabeça, mesmo que lhe pareça idiota, chocante, indecente, sem relação com o que quer que seja ; não me dissimule nada ». Não seja pertinente, não me esconda nada, quer dizer ‘largue a sua dimensão social’, venha para um laboratório, aqui deitado e relaxado, o mais perto possível da posição do sono e do sonho. Que confiança imensa assim se pede.

Somos por vezes loucos durante a noite

11. Todas as noites sonhamos várias vezes, mas isso permanece um fenómeno tão extraordinário para qualquer neurologia ou psicologia ou filosofia que haverá que o considerar um pouco se se quer saber da cientificidade ‘não normal’ da psicanálise que pela interpretação deles começou. Acontece por vezes que, ao acordarmos, esfregamos os olhos dizendo : ‘ah !, estou aqui, no meu quarto, estás aí, és a minha mulher, sou professo, moro nesta casa…’. Este alívio corresponde à recuperação de algumas marcas fundamentais da nossa identidade : estado civil, ofício e local de trabalho, morada, sei lá. Estas marcas perdem-se em certos sonhos, passados alhures, noutros tempos e sítios, com outras gentes, mas que não correspondem sem mais ao nosso passado, visto que há misturas, amálgamas, condensações e deslocamentos em linguagem técnica, repetições de cenas que nunca tiveram lugar (quando sonho que me falta ainda passar um exame do liceu). Há portanto regressão no tempo, para o passado, mas para um passado que nunca foi presente, que nunca aconteceu nem passou, que sucede em sonho pela primeira vez como se fosse muitas repetida. Sou sempre ‘eu’ no sonho, mas não sou exactamente ‘eu’ e muitas vezes no sonho não estranho essa diferença de identidade, não me espanto com as gentes desconhecidas, espantosas, que nele frequento lado a lado (e se me espanto, no sonho, é índice do que Freud chamou de « elaboração secundária », sem interesse nas associações de ideias).
12. Um outro aspecto de grande espanto no sonho, é que é ele e não eu que tem a iniciativa, que se me impõe, não sou senão um dos comparsas, por vezes reduzido ao papel de espectador, desenvovle-se segundo uma lógica de encenação ou figuração que me escapa, juntamente com as condensações e deslocamentos, uma lógica que não é a minha quando estou acordado. Esta ‘iniciativa’ manifesta-se também na força incisiva das cenas oníricas, ainda que gentes ou gestos sejam muitas vezes confusos, imagens fortes, sem nenhuma semelhança com o que, acordados, chamamos recordação ou imaginação. Se esta nitidez incisiva das imagens me acontecesse em estado de vigília, eu seria alucinado, louco : Moreau de Tours (1855) disse que « a loucura é o sonho do homem acordado », mas no sonho sou por vezes mais louco do que qualquer louco acordado. Ora, ele vem-me, esse sonho louco, quando me recolho em mim, deixo os outros e o mundo, os nossos usos e o nosso aqui e agora comum, quando deixo mesmo a minha intimidade consciente, os meus pensamentos e sentimentos, os meus projectos, as minhas vontades, a minha ética, os meus segredos. Estas estranhas gentes do ‘meu’ sonho são-me portanto mais íntimas a mim do que a minha intimidade mais próxima de mim, em que me reconheço como ‘eu próprio’, como diferente dos outros. Outros habitam em mim ‘antes’ de mim ? Posso aliás dizer o ‘meu’ sonho ? Ou sou eu pelo contrário que lhe pertenço ? Mas como na noite de amanhã será um outro sonho ainda, de que pertença fugaz se trataria ?
13. Esta é a grande questão que a psicanálise aborda, que ela procura compreender. Há que esperar que não seja susceptível de relevar do mesmo tipo de ‘cientificidade’ do que a da física de Newton, a neurofisiologia de Jouvet ou a lin­guística de Gross. A questão a colocar é : fora de Freud, há alguma teoria consistente do sonho, seja ‘científica’, seja ‘filosófica’ ? Alguma teoria consistente desta dupla lógica ?

Oscilação e identidade

14. Há assim em nós duas lógicas muito diferentes, que Freud chamou « primária » e « secundária », uma tendo a primazia nos sonhos e nos casos mais patológicos das doenças mentais e a outra na nossa vida social adulta : uma lógica do sonho e uma lógica do estado de vigília, mas aquela assinala-se nos lapsos e outros fenómenos da psicopatologia da vida quotidiana, e ainda nas anedotas, assim como os sonhos são também trabalhados pela lógica vigilante, na tal elaboração secubndária que procura atenuar os excessos da outra e evitar que o sonhador acorde. O que significa que não há oposição cortante entre as duas lógicas, mas uma oscilação. Tentemos um esboço de aproximação desta dupla lógica.
15. ‘Eu sonhei que… P’, diz ‘eu’ acordado, em que P é uma narrativa de várias sequências e personagens, entre as quais aquele que diz ‘eu’. É uma narrativa mais ou menos confusa, bizarra, que ‘eu’ tem mais ou menos dificuldade em ‘contar’, em explicitar que ‘quem’ se tratava, ‘aonde’, e por aí fora. ‘Eu’ que conta sabe no entanto que foi aquele que diz ‘sonhei que… P’ quem sonhou : há portanto uma certa identidade entre ‘eu (que estou) acordado’, vigil (eu-vigil) e ‘eu (que) sonhei’ (eu-sonho). Mas entre eu-sonho e e eu-vigil há também uma tradução : da cena sonhada à cena contada, dum cenário imagináario a um cenário narrativo, das ‘imagens’ às ‘palavas’. Esta tradução – na qual justamente o ‘eu-vigil’ hesita, resiste, gagueja – impede que a identificação entre ‘eu-sonho’ e ‘eu-vigil’ seja completa, total. Nem ‘um só eu’, nem ‘dois ‘eus’, nem um ‘nós’, mas uma oscilação irreductível, já que cada um dos ‘eu’ é e não é o outro. Com efeito, eu-vigil sabe que ele é ‘eu-sonho’, mas a minha experiência de sonhador (sic) parece permitir-me dizer que, quando se sonha, se sabe também no sonho que é o ‘eu-vigil’ que está a sonhar, apesar da loucura do sonho. Digamos que quando estou acordado, diante de outrem, eu sei (razoavelmente) quem vejo, o que ouço e o que digo, o que sinto, etc., sem nunca ser ‘eu diante de mim’ : o que se chama con-sciência (scire, saber) é este co-saber de mim naquilo que, diante dos outros, sou. Ora, quando sonhamos, por muito bizarra que seja a cena sonhada, apesar da perda eventual da certas marcas da minha actualidade (ofício, residência, estado civil…), este co-saber não parece desaparecer totalmente : o alívio que se tem ao acordar dum pesadelo, quando se recuperam essas marcas perdidas, parece confirmá-lo. Ele seria o fio ligando eu-vigil a eu-sonho. Por outro lado, na interpretação do sonho no divã, o eu-vigil que o contou presta-se a séries de associações livres que permitem ao psicanalista ter acesso a uma certa lógica do sonho, num movimento inverso ao da tradução. Este fio entre eu-vigil e eu-sonho não poderia ser percorrido em sentido inverso senão em relação com outrem, outra indicação de não identidade total entre os ‘eu’.
16. Em que é que consiste a lógica da vigília ? Pode dizer-se, de forma aproximada, que se trata duma lógica textual, no sentido corrente (já que um sonho também é um texto) : saber, por regras linguísticas e semióticas (rápidas demais para serem conscientes), compor um discurso – numa conversa, ou uma narrativa, sei lá – com um sentido coerente, predicável de um contexto relativo ao mundo, ilocucionado por um ‘eu’ a um ‘tu’, aqui e agora, implicando pertinência e capacidade de dissimulação. Trata-se duma lógica aprendida antropologica­mente, no sistema familiar de usos em que se foi inserido ao nascer. O que implica também que essa lógica da vigília se articula nos comportamentos dos usos e costumes tribais que se aprenderam.
17. A lógica do sonho, por sua vez, supõe a desarticulação dos comportamentos (inibidos no sonho paradoxal, ensinaram-nos os neurólogos), deixando no entanto que a visão e a audição guardem uma relação escondida à sexualidade, que os sonhos fariam ressoar e o acordar por sua vez inibiria. Nenhuma destas inibições sendo nunca completa – já que o fio nunca se quebra entre os dois estados, excepto talvez em casos extremos de loucura –, a oscilação entre as duas lógicas insere-se nas oscilações mais gerais que nós somos, entre dia e noite, entre atenção e relaxação.

Desligar o que permanece ligado algures

18. Outra maneira de dizer o que Freud nos ensinou : como é que é possível a aprendizagem, de tal maneira que nós façamos espontaneamente uma data de coisas socialmente necessárias e que as façamos à maneira da nossa tribo ? Ter vergonha e corar, por exemplo. Como é que a nossa tribo nos fez para nós agirmos assim, livremente, por nós mesmos, sem nos sentirmos obrigados ? Se partirmos das pulsões de origem biológica, dos impulsos mais ou menos fortes, desestabilizadores, que nos sucedem de vez em quando, como é que elas se estabilizam, de maneira a que não ficarmos seus joguetes, por um lado, e por outro a aproveitar a sua energia para outros fins, acima da biologia, mais ‘sublimes’ ? Como é que há sublimação ? Que ciência haverá para estas questões além da psicanálise ? Mas não será possível articular o que de Freud aprendemos com uma antropologia tribal elementar, de maneira a por um lado evitarmos o dualismo na descrição evocativa e por outro a compreendermos também que este tenha vingado tão fortemente na nossa tradição ?
19. Não sendo sem dúvida necessário recordar a teoria freudiana das pulsões, é importante sublinhar como a distinção, na primeira tópica, entre dois tipos, umas de autoconservação, do tipo da fome ou da sêde, e as outras ditas sexuais, insistia em que estas na época infantil se escoravam naquelas. Digamos que o bébé que acaba de nascer não é senão um ventre-pele, um ventre cuja pele banhou no calor do líquido amniótico, que sem dúvida não gostou nada da expulsão, que sente a pulsão de fome (dor) e chora, o seio da mãe trazendo-lhe a saciedade (prazer). Isto repete-se durante meses, este ritmo inscreve-se nele. O desmame será um novo golpe, após o do parto : ele re-marca neste ‘ventre-pele’ uma zona de prazer oral, ligada à sucção do seio materno, ao gesto e ao sabor, que, na próxima chamada de fome repetirá o seu prazer chuchando o dedo, sem seio nem gesto da mãe portanto, mas que não é possível senão pela ligação à sua marca, que o desmame, uso antropológico, acentuou. De maneira semelhante, meses mais tarde, uma zona de prazer anal será re-marcada pela higiene de defecação, pelo uso social de reter os excrementos, em tensão até ao momento do alívio. O ventre-pele é assim duplamente remarcado, em cima e em baixo, a criança é incitada a pôr-se de pé e a falar, para o que terá que aprender a jogar com dois esfincteres, os músculos em anel da glote e do ânus (Fonagy)[4], a inscrever assim a sua fala nos dois extremos do tubo digestivo, nessas duas zonas erógenas remarcadas. Ganha um princípio de verticalidade, de autonomia. Não se vê, são os outros que lhe servem de espelho (Lacan) que produzem nele as ‘imago’ que lhe servirão de identidificação[5], produção da suaq imagem de si a partir dda amálgama das imagens dos que o rodeiam. O Ego seria um conjunto de imagens de outrem retiradas que fala, que os seus sonhos testemunham.
20. Como é que isto sucede ? A sucção do seio e o seu prazer, depois da boca ter chorado muito é uma cena simultaneamente fanstasmática e real, indiscernavelmente biológica e antropológica, já diferente em relação ao ventre-pele- É o desmame, remarcando mais duramente e suscitando, numa espécie de resistência, a sucção do dedo, que impõe o deslocamento do ‘fantasma’ de prazer (fantasma : a boca no seio materno) em relação ao gesto ‘real’ da mãe de dar o seio. O que a repetição deste gesto tinha ligado (como zona erógena) é desligado (substituição pelo alimento com colher) : o dedo ou a chucha em suplemento do seio permanecem ligados fantasmaticamente a este, agora sem a dependência da mãe, no que diz respeito ao prazer (a dependência continuando, e claro, no que diz respeito à satisfação das pulsões de fome e sede). Foi assim aberto um outro lugar para a pulsão, que a pode tornar fantasmática, isto é, sem fonte orgânica e não precisando de outrem para se aliviar, cujo prazer poderá vir a deslocar-se, do dedo a outros gestos, o de falar, o de beijar… « Pulsões parciais », diz Freud, como estas, e outras sem dúvida também, serão retomadas na puberdade pelas pulsões genitais, com fonte orgânica mas pluralidade de desejos ‘sem órgão’ e com alvos diversos de que farão o seu manancial, enxertando-se neles « après-coup » (Nachträglichkeit) de tal maneira que nos sonhos e nas associações de ideias no divã psicanalítico, a sexualidade genital (ou outra talvez) dir-se-á como sendo infantil, originária. Foi nisso que, com efeito, ela se tornou, « après-coup ». « A irreductibilidade do ‘atrasadamente’ (à-retardement) é sem dúvida a descoberta de Freud », escreveu o filósofo francês Jacques Derrida[6]. É o motivo da regressão : vai-se e vem-se no nosso passado, como nos sonhos. O que foi outrora recalcado atrai o que, posterior, se aproxima demais, faz-lhe ocupar um lugar aberto muito tempo antes, o ‘posterior’ vem-se colocar em posição arcaica. Para o profano que eu sou, é o ponto da grande sedução, senão inveja, do psicanalista, que saiba apanhar a boleia do sonho e ir, com o paciente, a esse passado que nunca foi presente, ajudar a desfazer os nós que doem, como um cirurgião do psiquismo. O ‘après-coup’, o atrasadamente, é esta maneira extraordinária de construir um edifício oscilante que, à medida que cresce em altura e ganha peso, reforça em simultâneo os seus fundamentos arcaicos. À maneira duma árvore, digamos, cujas raízes se enterram à medida que o tronco e os ramos sobem para o alto céu. Sublimação ou entropia para as alturas, possibilidade inaudita de regressão para o arcaico, eis a grande amplidão da nossa condição oscilante.
21. Recapitulemos. O ventre-pele ganhou um peito - a respiração do bébé que se assenta, que gatinha, que se põe de pé, que começa a falar -, uma cabeça que vê para manipular coisas, andar e procurar os seus alvos, o ventre-pele foi posto / pôs-se de pé. Mas permanece um anãozinho diante de gigantes, que têm com eles a força e a autoridade : o pulsional no entanto levá-los-á a oporem-se-lhes, a dizer-lhes ‘não quero’, ‘quero isto’, a fugir-lhes e a esconder-se, a dissimular-se e a descobrir astúcias pertinentes, razão que emerge lentamente com a arte de compor discursos. Se olharmos do lado da antropologia do sistema familiar, é a integração progressiva neste (andar, mexer, falar) que arranca a criança ao seu comércio primitivo com a mãe, de quem começou por ser um órgão a mais no útero : esta integração repete, mais lentamente, a primeira separação, a do parto, esta palavra nossa dizendo o que se aparta de ser ‘parte’ e aparece. Crescer é aparecer, fazer prova de pertinência e de competência. Em terminologia heideggeriana, vai deixando de ser um ser-da-mãe para vir a ser um ser-no-mundo, a aprender-lhe os usos, cada um que aprende o tornando outro, com a autonomia da habilidade e do talento, e mais se separando da mãe de origem, ganhando o nome que lhe deram como seu nome próprio. É este processo inexorável que interdita o incesto, que instaura a lei social. É ele que produz o recalcamento, lentamente, não duma só vez, que irá ganhando força, como, dizia eu, a árvore que cresce e com ela as raizes. Alguns incidentes familiares deste processo prestam-se a uma configuração edipiana, as suas marcas remarcar-se-ão por outros acontecimentos – sobredeterminações, dizia Freud, que tornam possível a regressão -, voltarão nos ditos e não ditos no divã, com o ar dum passado penosamente vivido. Dito de outra maneira : este processo de aprendizagem implica dele mesmo enigmaticamente o esquecimento (quase) absoluto daqueles de quem se aprende, de que não ficam senão vestígios : é este esquecimento que a consciência em análise ressente como um recalcamento muito doloroso, como se fôra arrancado a ferros.
22. Não há pulsão ‘pura’, puramente interior, marcada na sua definição por aquilo que Freud chamou, desajeitadamente aliás, ‘objecto’, instância irreductivelmente ‘exterior’ ; nem sequer a de fome que, resulta hormonalmente da falta de alimento, a qual é dado de fora e sentido de dentro, tanto como falta como saciamento. As pulsões sucedem-se através da memória das dores / prazeres anteriores, pedem sempre já a satisfação que só virá mais tarde : dor, pede a repetição da sequência (dor)-satisfação que a apague. Ora, de cada vez que a dor é assim aliviada como prazer pela intervenção do outro (pessoa, gesto, coisa, ‘o objecto’ de Freud), este inscreve-se, é ligado à memória dos que já tinham aliviado ; a próxima pulsão terá pois um outro a mais no caminho que ela repete, a repetição será modificada por um acrescento, com as condensações e deslocamentos correlativos. Este processo de repetição é assim singularizante, uma vez que altera o mesmo, fá-lo tornar-se sempre outro, segundo o que Derrida chamou iterabilidade. É este deslocamento que impede que a repetição seja estrita, é ele que a altera : a condensação liga os ‘objectos’ outros, o desslocamento desliga-os mas guardando-os ligados, fantasmaticamente, retiradamente. A dor e o seu prazer diferido, a realidade e o fantasma erótico, inscrevem (fora-dentro) diferenças sem as dissociar : a inscrição retém, reserva, memoriza, liga, e difere, desliga, desloca, relança, dinamiza. « Délier ce qui avait été fortement lié, tressé, c’est détresser, angoisser » (desligar o que tinha sido fortemente ligado, trançado, é destrançar, provocar ‘détresse’, angustiar »[7]. A pulsão segundo freud, deseja a sua anulação como tensão ou dor, quer voltar ao seu ponto zero, à sua morte ; a diferança do prazer impede este retorno mortal, deslocando-o para outro gesto ou coisa : cada retorno é obrigado a um ‘detorno’, a um desvio, deslocamento, outra destinação : impedir a morte, relançar a vida, é isso a repetição, a iterabilidade. Mas, como é o efeito do outro que impede e relança, que difere o mesmo, ele impede tanto a submissão total do interior ao outro exterior quanto a coincidência pura do interior consigo mesmo ; a pureza, tanto interior como exterior seria sempre a morte, degeneração autistga num caso, alienação total no outro.
23. Diga-se de outra maneira. O bébé não tem interioridade ainda, começa por ser uma cena com a mãe, torna-se depois uma cena com os outros no sistema familiar a que é ligado. O processo evocado é o duma desligação progressiva, de pequenos passos para a autonomia mas em que esta é doação dos outros – aprendizagem – que se apagam mas sem separação total, porque o que se desliga permanece ligado - de forma retirada, apagada, inconsciente - como atestam os fantasmas dos sonhos. A desligação da mãe é feita pela entrada a pouco e pouco no sistema dos usos familiares (e escolares), no mundo heideggeriano, segundo um duplo movimento de pedir e impedir : incita a buscar, a aspirar, a querer, por um lado, entrava, impede, interdita, por outro. Uma vez que é a integração nos usos quotidianos que lhe proibe o incesto (a ‘mulher’ a quem ele estava tão ligado, que era ‘tudo’ para ele, no sistema não é senão a ‘sua mãe’ e de alguns outros, casada com um terceiro), é aonde ele aprende a tornar-se autónomo fazendo como os outros mas no seu lugar único, singularizando-se pelo seu talento, a sua idiosincrasia (palavra grega que diz as pequenas manias de cada um), a maneira que lhe é própria (idion) de pertencer à mistura (krasia) com outros (sun), a sua maneira de responder pelo seu nome no sistema. Partindo (para a escola, para o liceu, para o primeiro emprego, casar-se), tratar-se-á sempre de ganhos de autonomia em relação aos outro desses diversos sistemas de usos, de desligações que permanecem ligadas de forma retirada. O que Freud chama Ego, a parte do Id que é modificada por influência directa do mundo exterior[8] é constituída pelos vestígios dos outros, condensadas, amalgamadas, por vezes invertidas, sempre esquecidas : « […] o carácter do Ego resultaria desses abandonos sucessivos de objectos sexuais »[9], dessas desligações dos outros, cujos rastos se tornam fantasmáticos, sexualizados. As três instâncias, o Id, o Ego e o Super-ego, que Freud retém, não podem ser ligadas entre si (e elas não são outra coisa senão essas ligações) senão por permanecerem estruturalmente ligadas, de forma retirada, esquecida, aos sistemas de usos (familiar, antes de mais), à heteronomia que lhe deu tornar-se o que ele é. Nomeadamente lhe deu tornar-se alguém capaz de decidir, capaz de pôr e de opor : por exemplo essencial, alguém em quem são opostos interior e exterior, que opõe o que eu quero ao que me resiste ou ameaça, os outros, o mundo, a realidade fora de mim. Contra a nossa experiência mais espontânea, esta oposição interior / exterior é construída, derivada. Esta é uma das lições fundamentais da psicanálise, que o próprio Freud não terá claramente percebido : não estou certo de que seja possível sabê-lo por outra via.



Retiro e regulação do aleatório

24. Ainda um último ponto, antes da conclusão sobre a estranha cientificidade desta estranhíssima semiótica experimental. O jogo de oscilações que nos é estrutural - que a psicanálise explicitou antes das outras grandes ciências como estrutura que resulta do Ereignis heideggeriano, da doação dissimulada de todo e qualquer ente terrestre (e peço desculpa do calão filosófico cujo detalhe vos pouparei) -, esta oscilação é pedida pela exigência de retomada energética dos organismos, mas é perigosa para eles, coloca-lhes problemas de identidade. Por outro lado, ameaça-os da possibilidade de encontros inesperados com outros, o que exige que se esteja mais ou menos seguro de si. A ameaça é pro-vocação :  a pulsão do outro que me diz ‘vem !’, contagia a instabilidade pulsional do eu-sonho. A teoria do Id-Ego-Superego de Freud busca dar conta da viabilidade destas oscilações e da necessidade do seu enquadramento. Por um lado, o recalcamento, nó do Id, exercido pela lei social, pelo interdito do incesto, retém o excesso de líbido, de energia sexual, diferindo-a, relançando-a pela promessa dum destino de adulto[10], que tem que passar pela aprendizagem dos usos tribais, das regras que organizam os encontros sociais. Regras, interditos, promoção de ideais, parece ser o que de maneira vaga Freud entendia por Superego, « formado não à imagem dos pais, escreveu, mas à imagem do Superego deles »[11]. Quanto ao Ego, dir-se-ia que é o que sobra entre ambos, como dizer ?, conjuntos estruturados de vestígios apagados dos outros, o que oscila entre eles, com defesas, como se diz, por um lado, fragilidades oferecidas talvez também, do outro lado. Mais rígidas nums, mais maleáveis noutros, ou nos mesmos em outras idades da vida, como dizer aquilo que é justamente a incrível variabilidade dos humanos, o que por vezes nos surpreende, nos comove, doutras vezes nos mete medo ?
25. Digamos assim : há o ram-ram dos dias, toda a gente o tem nos sistemas de usos em que está inserido, em que se joga ganhando-lhe os ritmos. Essas oscilações habituais são mais ou menos regradas, mais ou menos espontaneamente, sem que haja que pensar nelas a maior parte do tempo, o aleatório que nelas há sendo tido em conta sem grande dificuldade : o Id-Ego-Superego de cada um foi feito para isso, singularmente, pelos sistemas de usos tribais. Pequenas coisas se passam, mais ou menos desapercebidas, que voltarão de noite, em sonho, acordaram velhos desejos enterrados que se ‘realizam’ na cena onírica. Mas era uma vez. Estes elementos da véspera, como lhes chama Freud, podem jogar durante o próprio dia, sem esperar a noite, abraçarem logo o mundo arcaico, alumiar uma paixão, ‘realizarem-se na realidade’, na realidade também arcaica de tal mulher, de tal homem, acontecimento, encontro inesperado. Ou outra espécie de acontecimento, uma situação de risco social em qeu haja que decidir depressa, a leitura dum livro que transtorna. Diante de tais situações, a estruturoscilação pode mostrar-se, quer muito fraca, quer muito rígida, e talvez dê no mesmo, na catástrofe. Ou então haver metamorfose, amor louco, derivação profissional, conversão de vida, sei lá eu. Pode o id-recalcamento ter sido aliviado pelo outro, ou reforçado, o supergo reformulado, tornado mais ligeiro, é para isso que se faz psicanálise, não é ? ou o ego oscilar melhor, ou… ou… Se a psicanálise tem sentido, por certo que é na medida em que consegue intervir nestas engrenagens de oscilação que permitem que estejamos abertos ao acaso sem perda de identidade. Mais ainda, são estas estruturoscilantes que nos enviam, nos destinam ao acaso, à possibilidade do desconhecido, destinam-nps à errância : destinerrância, disse algures Derrida, forjando uma palavra que impede de opor determinação e indeterminação, destino e liberdade. O duplo retiro ou apagamento ou não consciente (recalcamento e superego) é a condição da regulação do aleatório entre mim e outrem.
26. O sonho não servirá para nada de biológico, seria o ser no mundo vazio de mundo, o filme do fora do mundo que não pode senão vir à noite, quando o mundo desaparece. Talvez seja um aviso, lembrar-me-ia que não sei nunca de forma segura quem sou nem o que posso, que posso sempre tornar-me louco, ser virado por uma ameaça mais forte do que eu, que sou finito, mortal, possuído por mortos no mais íntimo de mim, que a filosofia dos sujeitos e dos objectos não foi nunca senão uma maneira de nos defender dessas ameaças, nunca tendo conseguido dar conta nem do sonho, nem da loucura, nem do sexo, nem da morte. Não serviriam para grande coisa, os sonhos, não fosse um médico brincalhão dar-se ao trabalho de tentar decifrá-los e de encontrar neles a via real para o inconsciente, dar-se ao trabalho de aprender a lidar com eles, com os seus restos e fantasmas. Poder-se-ia então perceber talvez que o sonho, experiência efémera da loucura adormecida que nos pouparia da loucura acordada, seria uma espécie de descarga reguladora das relações da véspera com outrem, desvcarga que se faria por regressão na estrutura psíquica, esses acontecimentos da véspera conseguindo encontrar um lugar – mais ou menos antigo – para abraçar essa estrutura, a angústia eventual sublinhando as suas rigidezes : a terapia poderá então segui-los, aos sonhos, nessa viagem às avessas – o que se chama tranfert – no passado arcaico que nunca foi presente, tornar-lhe mais maleáveis os nós que doiem. Ela chegaria ao real do paciente.

Uma ciência travêssa

27. Chamaremos ciência a esta arte tão delicada e difícil ? Compreendo que haja psicanalistas como Le Guen para o recusarem, estando mais perto da poesia, da literatura, do que do discurso das essências sem tempo nem lugar. Se o fosse, não seria como as outras, sê-lo-ia dentro de limites fortes. Um deles, o de só ser praticável com gente escolarizada suficientemente para ser capaz de discorrer sobre a sua subjectividade. Outro limite (mas que outras ciências também terão, se formos exigentes) consiste em que é necessário fazer uma psicanálise didáctica para a exercer e poder então verificar como ela opera, semiótica experimental que reclama a indissociabilidade entre a sua teoria e a sua técnica terapêutica, aquela não tendo valor senão por sair desta e de a ela voltar. O seu laboratório sendo por um lado, o divã em que faz deitar os seus pacientes, por outro a injunção de tudo dizer, sensato ou não, de não esconder nada – o que só em situação de terapia tem sentido, pior do que ficar de boca aberta diante do dentista ou de se deitar quase nu numa mesa de operações -, é esse laboratório que torna possível a produção duma « neurose de transfert, escreveu Freud, […] que cria um domínio intermediário entre a doença e a vida real, domínio através do qual se efectua a passagem de uma à outra ; o estado assim instaurado tomou todos os aspectos duma doença artificial acessível às nossas intervenções »[12], sublinhando eu esta ‘doença artificial’ como se fosse o seu correlato técnico, de fábrica, dum verdadeiro laboratório.
28. Um outro limite é que não se pode falar em psicanálise de ‘espécies’, como as biológicas, como também as sociedades e as línguas das respectivas ciências. Mas pode-se ao invés perceber que o seu domínio operatório as atravessa, as espécies destas ciências, o discurso da linguística, o interdito de incesto das sociedades, a sexualidade e a alimentação da biologia, e atravessa-as autonomamente, sem delas depender e ilustrando fenómenos que a essas ciências escapam, numa espécie de irreductibilidade entre uma e as outras, como estas outras tgambém têm entre elas. Com a consequência de a psicanálise lhes fornecer possibilidades de inteligibilidade dos seus próprios domínios, se os respectivos cientistas foremcapazes de lhe darem atenção, como foi o caso de Lévi-Strauss em antropologia (As estruturas elementares do parentesco) e de Norbert Elias em história (O processo civilizacional). Tasmbém as teorias literárias dela colheram maneiras de ler fecundas, como em filosofia o autor que por vezes citei, Jacques Derrida. Eu acrescentaria, com a cautela do profano, que a psicanálise é uma das várias ciências da linguagem (com a linguística, semiótica, pragmática), a única que opera sobre o discurso no seu fazer-se, sendo o seu domínio específico os fenómenos dos discursos ou textos que relevam da sua energética, dos jogos de forças que as outras ciências da linguagem não sabem perceber e que Freud articulou, pela experiência semiótica dos sonhos, confissões e resistências dos pacientes, com a sexualidade, a lei e a sublimação. E enfim, além do espantoso esclarecimento do que somos e não sabíamos, de que tentei evocar alguns que sempre e ainda me provocam espanto, acrescentando-se a outros espantos doutros lados, que discurso ou disciplina, desde os Gregos até hoje, nos deu uma abordagem cientificamente relevante dos sonhos ?
29. A psicanálise seria uma ciência que atravessa as outras, « uma travessa, uma rua mais curta para a grande avenida, levando a um lugar aonde a avenida não leva » segundo o Littré. Quem anda pelas avenidas não liga às travessas e também os das travessas não vão às avenidas, ainda hoje passados mais de cem anos sobre esse livro fascinante que é a Traumdeutung, este alheamento permanece com raras excepções. Mas até se percebe, se pensarmos em parentes semânticos de ‘travessa’. Diz-se ‘travêssa’ uma criança turbulenta, espeertalhona, maliciosa, que gosta de se meter com as outras, de que as outras muitas vezes n~ão gostam, de qum desconfiam. ‘Atravessado’, de alguém um pouco tonto, um tanto louco, que se pôe de ladao, que se olha de viez. Ciência dos excessos do psiquismo, entre os sonhos, os loucos e outros artisas, parece normal que as outras ciências a suspeitem de ser travêssa e atravessada, com o seu grão de loucura.



[1] "La psychanalyse : une science?", in La psycha­na­lyse, une science?     VIIèmes Rencontres psychanalytiques d'Aix-en-Provence, 1988, Les Belles Lettres, 1989
[2] "L'analyse avec fin et l'analyse sans fin", 1937, cit. in F. Delbary, La Psychana­lyse: une antholo­gie, 1. Les concepts fonda­mentaux, Pockett, 1996, p. 168)..
[3] "Le fonctionnement de la parole. Remarques à partir des maximes de Grice", Communications, nº 30, La Conversation, 1979, Seuil, pp. 73-79.
[4] I. Fonagy, "Les bases pulsionnelles de la phonation", in Revue française de Psy­chanalyse, nº 1 et 4, 1970 et 1971, pp. 101-136 et 543-591.
[5] J. Lacan, "Le stade du miroir", Écrits, Seuil 1966, p. 94.
[6] L’écriture et la difference, Seuil, 1967, p. 303.
[7] Mercedes Allendesalazar, Thérèse d’Avila, l’image au feminine, Seuil, 2002, citée par T. Joaquim.
[8] Malaise dans la culture, P.U.F., 1995, p. 9.
[9] Freud, “Le Moi, le Sur-Moi et l’Idéal du Moi”, 1968b, p. 198.
[10] Où il y a loi, il y a promesse: l'interdit ne peut pas empêcher le retour à la trans­gression, il ne peut qu'obliger à un détour.
[11] Suite aux Leçons d'introduction à la Psychanalyse (1932), citado in Laplanche et Pontalis, 1967, p. 473..
[12]"Remémoration, répétition, perlaboration", 1914 (cité in I. Stengers, 1989, pp.183-4).