quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O que significa a expressão bíblica “isto é o meu corpo”?



1. É uma expressão fundamental da tradição teológica ocidental, interpretada pelo aristotélico Tomás de Aquino como “transubstanciação”, uma estranha operação que, deixando aos sentidos da vista e do paladar tudo na mesma, o que seria os “acidentes” de pão (uma bolacha de trigo, aliás), teria transformado a sua “substância” de pão (a ousia aristotélica) na “substância” de Jesus Cristo (homem ressuscitado, filho de Deus, etc.), “corpo, alma e divindade”, diziam os catecismos a tal “substância” a que a fé teria acesso sob os acidentes da bolacha-pão. A questão que queria pôr é a de saber como é que a ontoteologia desta interpretação da frase “isto é o meu corpo” atribuída a Jesus numa refeição com os seus discípulos nas vésperas da sua morte pode ser, não digo desconstruída (seria muito mais complicado, obrigaria a ler a Summa Theologiae), mas entendida de forma plausível, sem essa mirabolante transubstanciação. Em vez do discurso medieval, recorrerei a alguns passos do novo Testamento bíblico, segundo uma descrição fenomenológica, de forma necessariamente rápida em vários argumentos mais especializados, mas tendo o picante de poder encontrar-lhe uma reflexão económica radical.
2. A expressão “isto é o meu corpo” encontra-se quatro vezes no novo Testamento, poder-se-ia pensar que uma vez em cada um dos quatro evangelhos que contam a vida de Jesus, mas de facto o de João, que tem uma tradição sobre essa vida bastante diferente dos três outros – sinópticos (olhar comum), com uma estrutura paralela –, tendo embora cinco capítulos consagrados à refeição pascal que os outros três despacham em poucos versículos, João ignora o que é central nestes. A esta ignorância acresce que o episódio da bênção e partilha do pão e do vinho aparece pela primeira vez numa carta de Paulo, a primeira aos Coríntios, escrita mais de 15 anos antes do primeiro dos sinópticos, Marcos, de quem os dois outros dependem no que é comum aos três. Nessa carta Paulo relata o episódio dizendo: “por mim, com efeito, eu recebi do Senhor o que por minha vez vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, depois de ter dito a bênção, partiu-o e disse: ‘isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memoria de mim’ (cap. 11, 23-24). Ora, ele próprio conta na carta aos Gálatas (cap. 2) que, após se ter tornado seguidor de Jesus como Messias, teve 14 anos de trabalho de fundação de comunidades cristãs entre pagãos sem ter confrontado o que ele ensinava com os discípulos principais de Jesus que ficaram em Jerusalém, o que permite perceber o ‘eu recebi do Senhor’ que sublinhei, não dos tais discípulos, testemunhas da dita refeição, mas como uma ‘revelação’ recebida directamente por via mística (várias vezes noutros lados se refere a esse tipo de iluminações espirituais, de que depende muito do que ensinou). Escrito pois muito antes do evangelho de Marcos (que foi aliás seu ajudante de missão e pode portanto ser o transmissor do episódio), é o único episódio dos evangelhos que Paulo refere: além dele, da vida de Jesus só conhece a morte na cruz e a ressurreição, mas mesmos estas não são contadas com nenhum detalhe como nos evangelhos. Teria sido ele o ‘inventor’ do conteúdo deste episódio da refeição pascal que João ignora.
3. Claramente em Paulo o episódio, com o cálice do sangue igualmente, refere-se à morte de Jesus, à separação do corpo e do sangue: “de cada vez que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha”, a ressurreição estando implícita no regresso escatológico, trata-se do essencial pauliniano; morreu, ressuscitou, voltará em Messias (Cristo). Mas ele não diz que se come o ‘corpo’ nem que se bebe o ‘sangue’ (apenas João usará uma linguagem assim, carniceira e sanguinária: “quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”, cap. 6. 54), é o pão que se come, com responsabilidade do ‘corpo’ do Senhor se se o comer indignamente. Mas o que é ‘comer pão’? nas nossas línguas latinas modernas, é criar uma ‘com-pan-hia’, os que comem pão entre eles formam uma unidade de vários, o que chamamos uma comunidade, cuja base sociológica é a refeição como resultante do trabalho das casas agrícolas. O cap. 12 da carta de Paulo diz que “o corpo é um, tendo embora vários membros e que todos os membros do corpo, apesar da sua pluralidade, não formam senão um só corpo; assim se passa com o Messias”, o que desenvolve longamente sobre a interdependência dos vários órgãos, o pé, o olho, a mão, o ouvido, o cheirar e a cabeça, ou seja, o ‘organismo’ como metáfora social, concluindo: “ora, vocês são o corpo do Messias e membros cada um pelo seu lado”.
4. Destes dois parágrafos, conclui-se que o “o meu corpo”, dito pelo Messias, tem uma dupla dimensão: é um alimento (pão) que faz comunidade (corpo), é na maneira como esta se alimenta que ela se refere ao destino do Messias, fazendo memória dele, entre a sua morte por traição (“entregue”) e o seu retorno. Ora, o contexto mais geral desta evocação é uma comunidade de Corinto que se reúne mas em que cada um come do que trouxe de casa, uns ficando com fome e outros embebedando-se (11.21). Há pois que partilhar a alimentação enquanto se espera o retorno do Ressuscitado.
5. Os evangelhos sinópticos desenvolvem esta noção de partilha, relacionando o “isto é o meu corpo” com um episódio central nos quatro evangelhos, a chamada multiplicação dos pães (a que João liga a sua concepção, não do ‘corpo’ mas da ‘carne’ de Jesus). Central, já que este episódio se torna nos quatro uma alteração decisiva da estratégia de Jesus, que decide claramente subir a Jerusalém, onde enfrentará o comércio do Templo e as suas autoridades, sendo aclamado pelas multidões contra a ocupação romana mas acabando traído, condenado e crucificado. Parece claro que é a audiência desse episódio no deserto, todos os quatro dão os mesmos números (5000 homens, 12 cestos de sobras), que justifica a mudança estratégica, como se fosse um número suficiente para acalentar a subida a Jerusalém e o confronto politico desencadeado. A dificuldade é que, os textos tendo sido escritos após a derrota da revolta judaica pelo exército de Tito em 70 e a primeira perseguição aos seguidores de Jesus em Roma uns anos antes sob Nero, eles tendem a ‘despolitizar’ parcialmente o contexto dos episódios (sobretudo Lucas e João); é-nos difícil de saber em que é que terá consistido o conteúdo histórico do episódio da multidão no deserto e da sua alimentação, que é contada como uma multiplicação milagrosa de pães e peixes. Mas justamente a maneira como ela é introduzida relacionada com a ceia pascal esclarece o que se viu com Paulo. Os discípulos aproximam-se de Jesus, num sítio deserto e já tarde, querendo que ele reenvie a multidão “para que vão nas quintas e aldeias aqui perto comprar com que comer”. Resposta: “dai-lhes vocês mesmo de comer”. “Devemos ir comprar pães por duzentos denários, afim de lhes dar de comer?” “Quantos pães tendes? Vão ver”. “Cinco, e dois peixes”. Dispostos em grupos de 100 e 50. “Ele tomou então os cinco pães e os dois peixes e, levantando os olhos para o céu, disse a bênção, partiu os pães, e dava-os aos discípulos para os distribuir. Partilhou também os dois peixes entre todos. Todos se saciaram” (Marcos, 6, 35-44). Ora, quando o mesmo Marcos conta o episódio que terá recebido de Paulo, diz assim: “Enquanto eles comiam, ele tomou o pão e, depois de ter dito a bênção, partiu-o e e deu-lhes dizendo: tomai, isto é o meu corpo”. Os verbos são os mesmos: dizer a bênção, partir os pães, dar-lhes; Marcos faz esta narrativa paulina inserir-se na narrativa da partilha do pão, o que significa que traz para o “isto é o meu corpo” a oposição entre ‘comprar’ no mercado de dinheiro e ‘dar do que se tem e se partilha’ uma regra económica escatológica, como já vimos Paulo proceder. Sendo muito provavelmente histórica esta refeição em vésperas do suplício contada pelos cinco autores, quando Jesus ainda pensava em escapar, escondendo-se e tendo sido traído, é difícil saber-se o que lá se passou, a diferença corpo / sangue como alusão à morte parecendo ser da lavra de Paulo, se for certo que Jesus não queria morrer, que morreu “abandonado” por Deus (Marcos e Mateus), que ninguém contava com uma ressurreição, como se depreende facilmente de todas as narrativas dos quatro evangelhos sobre a incredulidade diante do túmulo vazio.
6. O que Marcos e os dois outros sinópticos contam converge com Paulo aos Coríntios: comer / partilhar o pão (os peixes, a refeição) entre todos em memória de Jesus cria a comunidade dos discípulos, dos crentes. Assim o entendeu a comunidade de Jerusalém, segundo os Actos dos Apóstolos, que punham tudo em comum na expectativa do retorno próximo do Messias: “assíduos ao ensino dos apóstolos, fieis à comunhão fraterna, à fracção do pão e às orações. [...] todos os crentes punham tudo em comum; vendiam as suas propriedades e bens e partilhavam o preço entre todos segundo as necessidades de cada um” (cap. 2. 42, 44, também cap. 4. 32, 34-5); ‘comunismo primitivo’, como se lhe chamou, que falhou (Paulo terá que ter a iniciativa de uma contribuição das suas comunidades gregas em favor da de Jerusalém): porque razão? A citação acima sugere que, porventura por acreditarem no fim do mundo para muito breve, a venda das terras significou que ficaram sem produção agrícola e que o dinheiro das vendas se gastou depressa: a partilha com os necessitados implicará não esgotar os recursos de produção. A continuação eclesial veio a implicar um serviço de assistência aos carenciados como timbre de qualquer comunidade crente.
7. Mas o Messias não regressou, o que implicou que deixou rapidamente de haver conversões de judeus e que foi a partir das comunidades de Paulo no mundo helenístico que o cristianismo se desenvolveu (‘Cristo’ tornou-se cognome de Jesus), tendo o seu discurso sido apanhado pelo platonismo (Orígenes, início do século III) que impôs uma redução às narrativas bíblicas, os sentidos literais sendo suplantados por sentidos espirituais e metafísicos (por exemplo maior, a ressurreição dos mortos judaico-iraniana cedendo à imortalidade das almas que o novo Testamento ignora), desenvolvendo-se também um clero profissional que desembocou na religião do império a partir de Constantino e seus sucessores no século IV. Ora, fez parte deste processo de helenização e romanização que as comunidades que se reuniam em torno de mesas de partilha para formarem um só corpo do Messias tenham vindo a ser substituídas paulatinamente por assembleias que assistem a um altar em que se oficia o sacrifício duma vítima (hóstia em latim), o pão e o vinho tornados corpo e sangue oferecidos a Deus, segundo uma teologia grega que se desenvolveu em torno dos dogmas da Trindade, Incarnação e Redenção, que veio a gerar a noção de “presença real” de Jesus na ‘hóstia’, que algures de pão se disfarçou em bolacha de trigo, enquanto que o vinho, reservado ao sacerdote, virou puro ritual: foi a ontoteologia pura desta “presença real” que Tomás de Aquino tratou com a sua “transubstanciação” entre a bolacha-hóstia e Jesus homem-deus, consumando o apagamento completo do corpo comunitário do Messias, que quando foi ‘redescoberto’ no século XX como “corpo místico de Cristo”, não manifestava obviamente nenhuma conotação de partilha económica.
8. Entretanto, nas margens religiosas do cristianismo foram sempre aparecendo movimentos espirituais em que a partilha do pão e a busca duma pobreza fraterna ecoavam aos textos bíblicos, embora por regra as suas comunidades tenham vindo a ser apropriadas pelas instituições eclesiásticas em que se integraram, deixando lugar a que novas vocações espirituais viessem manifestar em novas formas comunitárias o sopro dos primeiros tempos messiânicos. Ora bem, o que é que pode hoje significar a expressão “isto é o meu corpo”, ouvida numa comunidade cristã de qualquer confissão, católica ou outra? Que aqueles que ali estão ao partilharem o seu pão com quem o não tem, são o corpo comunitário de Jesus, os que ouviram a palavra tremenda, que deverá fazer tremer a fé: “tive fome e deste-me de comer, sede e deste-me de beber, estrangeiro e acolheste-me, nu e vestiste-me, doente, preso e visitaste-me [...] na medida em que o fizeste a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizeste” (Mateus 25. 35-36, 40), palavra final que faz eco a estoutra: “não podeis servir Deus e o Dinheiro” (idem, 6. 24). “Quem tem ouvidos para ouvir que ouça”, diz-se também (idem, 13. 9).
9. O cristianismo não se dirige aos pobres mas aos que não o são, apelando-os a que se tornem efectivamente seus irmãos. Não crendo num Deus criador, nem por consequência nos dogmas gregos, penso que estará aqui a questão fulcral da tradição do cristianismo que pode interpelar a nossa contemporaneidade. O ponto seria este: a chamada questão social, tão avivada com as crises recentes que multiplicaram as pobrezas das Américas e Europa ao Médio Oriente, sendo uma questão de empenhamento a favor dos pobres (quer multidões quer este e aquele em seus rostos), é este empenhamento que dá qualidade humana a quem a si se empenha e nesse empenhamento – de amar o próximo como a si mesmo – assim se transforma, se liberta, pondo sempre os outros antes do dinheiro, do capital, este ao serviço da igualdade. Ou seja, que nunca a lógica do capital, o ganho de juros, se sobreponha à das ‘com-pan-hias’, à da partilha do pão com os que não o têm; não do que sobra, como assistencialismo, mas no que se institui como produção, salários, comércio justo. São imensas as oportunidades pontuais de decisão entre as duas lógicas, a do capital e a dos cidadãos, quer para políticos e patrões, quer para jornalistas, professores, e por aí fora. Se for certo que a divisa da modernidade ocidental, liberdade, igualdade e fraternidade, é o eco secularizado dos evangelhos, se não é provável que ela venha um dia a concretizar-se em sociedades perfeitamente justas e democráticas, todavia concretizar-se-á, como já o fez vezes sem conto, naqueles que empenharem assim as suas vidas (e contra mim falo).


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Antropologia breve dum filme






1. O filme francês “Bando de raparigas” não é sobre racismo. Fora a cena em que o ‘bando’ goza uma miúda branca assustada, vendedora numa loja de roupas que as suspeita de quererem roubar, o único personagem branco é manifestamente secundário e solidário da adolescente protagonista. O filme é sobre o meio familiar e de bairro dos negros dos subúrbios de Paris. O pai da adolescente não é sequer nomeado, a mãe tem duas ou três aparições pouco significativas, é o irmão mais velho que ocupa o lugar do pai e, pior um pouco, a rapariga que ele domina revela-se por sua vez dominadora da irmã uns anos mais nova. É pois uma ‘estrutura’ familiar autoritária que subjuga as adolescentes. É provável que o mundo da imigração muçulmana (aqui não se fala de religião) seja igualmente dominador das suas mulheres. Há pois mais do que o racismo nestas sociedades ocidentais democráticas em relação aos seus imigrantes, há também o patriarcado (dos pais e dos irmãos mais velhos) que veio com as bagagens da imigração. O que leva o jornalista francês Le Bris de Kerne (Ípsilon de 28 de Agosto) a ironizar com os decadentistas franceses de direita anti maio 68 que lamentam a perca dos ‘valores familiares’ da tradição, que estes continuam vigorosos entre os muçulmanos que eles acusam de corresponsabilidade nesse declínio.
2. A antropologia é complicada, e nem sequer penso nos duplos laços da filmagem, enquadramentos e montagem, que implicaria ter a possibilidade de andar de um lado para o outro num vídeo e que, de qualquer forma, eu seria incompetente para analisar. Seja pois a antropologia do ‘enredo’. O filme começa pelo impasse da situação escolar de moça, dos seus duplos laços à família e à escola, podendo induzir-se que o da escola compensava as dificuldades do da família nesta entrada na adolescência (ela tem 16 anos), mas, fraca aluna, é obrigada a seguir a via escolar profissional mal cotada, o que ela recusa e lhe quebra o laço escolar. Daí que aceite o convite para um duplo laço efémero no bando de outras três mais velhas, também que tente uma relação com um rapaz que não a pode aceitar por ser amigo do irmão dela, perceber-se-á depois essa razão. Mas quando perto do final, ele lhe propõe casamento, é o duplo laço duma ‘miúda decente’, duma mulher casada que trata dos filhos em casa, que ela recusa, não só porque ela já o conhece como opressor mas também porventura por já ter experimentado o desengano dum mais velho que lhe oferece emprego e depois quer mandar nela, que a beije em público. Não aparecem hipóteses de ligações ao mundo lá de fora, como se, povoado de brancos, fosse a priori insusceptível de integrar uma moça negra sem outros laços. Daí que ela fique sem sonhos para sonhar...
3. Mas há algo de muito bizarro no filme, e provavelmente na realidade dos subúrbios de imigrados franceses, algo que é anunciado logo na primeira sequência (que não voltará) com raparigas a jogarem futebol americano com capacetes, em que vale tudo e não tem nada do que chamamos futebol, pior do que o rugby, algo que culmina em duas cenas de luta entre raparigas: na primeira é a líder do bando que é vencida por outra dum bando vizinho, na segunda é a protagonista que vinga a sua colega de bando vencendo a primeira vencedora. O que é notável, é que é esta vitória à porrada que muda as relações internas do bando e sagra a protagonista que se passa a chamar ‘Vic’ (de Victoire), nova líder, aliás reconhecida pelo irmão mais velho na única cena em que este ri, não é autoritário: ela é vencedora no paradigma dos bandos de rapazes, o que parece significar justamente o impasse deste efémero duplo laço que dá o nome ao filme, o “Bando de raparigas”. Ela mostra-se capaz de sair do laço familiar mas é uma saída sem saída, o filme fica aberto, dir-se-á, os subúrbios das raparigas negras é que não.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Acabamento do argumento de Fenomenologia física



1. A propósito de Bernard d’Espagnat, físico teórico francês de vocação filosófica, falecido recentemente com 94 anos, José Cutileiro escreveu no Expresso de 29 de Agosto o seguinte: “[...] as implicações filosóficas da física quântica – das leis paradoxais que regem o mundo das partículas subatómicas, onde causas não produzem necessariamente efeitos; partículas subatómicas podem estar em dois lugares ao mesmo tempo; onde objectos separados por grandes distâncias podem exercer efeito instantâneo um sobre o outro; onde o mundo não existe, se nós não o observarmos – assim demonstrando que algumas noções capitais da física tradicional e do bom senso estão erradas”. E mais adiante: “D’Espagnat ele próprio negava que a física quântica pudesse dizer-nos fosse o que fosse sobre a matéria”. Não pretendo pôr em questão o excelente antropólogo e antigo embaixador que lamentei na altura junto do seu director que o Expresso tivesse acabado com as suas crónicas extremamente cultas sobre “O mundo dos outros” por restrições financeiras, mantendo uns tantos cronistas idiotas; creio que as duas citações são fidedignas[1], resumem bem o que os físicos costumam dizer da mecânica quântica, mas é mais fácil discuti-las do que as dum físico teórico que por regra não sabe grande coisa de filosofia e fica muito perturbado, com tentações dogmáticas, quando sabe de gente de fora a mexer nas coisas dele.
2. O interesse das duas citações é que elas contradizem-se uma à outra: se a mecânica quântica não pode dizer nada sobre a matéria, que estuda a física de Newton, então esta não está “errada”, como diz a outra citação, e podemos deixar de lado o “bom senso”, já que desde Copérnico, Galileu e Newton que ele foi fortemente abalado: não é o sol que anda em redor da terra, como os nossos olhos o vêem todos os dias em que não há nuvens, mas esta que gira em torno dum seu eixo. As leis paradoxais que Cutileiro resume, são leis então de quê, se não o são da “matéria”? Dum mundo que não existe se nós não o observarmos? Um “mundo” sem “matéria”? É esta noção de “mundo” que é, não apenas paradoxal, mas errada, já que esta palavra serve para designar algo de forte estabilidade, com “leis” que se repetem; leis paradoxais aonde? aonde se “observam”, no laboratório em que se fazem explodir núcleos de átomos e se seguem as trajectórias das partículas evanescentes que resultam das acelerações a que são sujeitas, evanescentes já que a esmagadora maioria sem tempo praticamente nenhum de subsistência. Nos aceleradores de partículas do CERN não há “mundo” nenhum, nem “leis” aliás, nem viabilidade para nenhum dos conceitos da física de Newton, que portanto não pode ser “errada”, já que noutros laboratórios que experimentam movimentos de “matérias” as suas leis continuam a ser reconhecidas, como automóveis e outras máquinas, prédios e barragens, biologias e medicinas, continuam a funcionar sem paradoxos quânticos.
3. Há assim um logro filosófico em que a Mecânica quântica incorre, o de pensar que o que estuda das partículas à solta corresponde sem mais ao sub-mundo da matéria, digamos, a uma espécie de infra-realidade dos átomos; mas já a propósito da era de Planck, o astrofísico Hubert Reeves dizia que “nela, as palavras ‘temperatura’, ‘energia’, ‘massa’, ‘velocidade’, ‘tempo’, ‘espaço’ – o vocabulário querido do físico, sem  o qual ele se sente nu – perderam o seu sentido” (H. Reeves, La première seconde, Seuil, 1995, p. 131), acrescentemos-lhes ‘mundo’ e ‘matéria’. Trata-se da questão da diferença abissal entre as leis da física macroscópica (as tais decretadas “erradas” quando elas continuam a regular a experimentação dos respectivos laboratórios) e os fenómenos do nível quântico: a ‘continuidade’ que os físicos postulam entre esses dois níveis é um ‘salto desmedido’, um salto (das medidas, laboratoriais e irredutíveis) que não pode deixar de o ser também nos respectivos conceitos, ainda que se seja físico teórico, como d’Espagnat, desde que se tenha em conta que a física é estruturalmente laboratorial.
4. Porque é que isto me interessa, eu que não sei quase nada das vertigens da mecânica quântica? Pela razão fenomenológica elementar (que eu pratico: Filosofia com Ciências) de que não existe nada no mundo que qualquer tipo de ciência tenha descoberto que subsista simplesmente por si só, como ‘substância’, ainda que “partícula”: tudo o que existe (não evanescente) é complexo, como julgo ser a tese principal de Edgar Morin, é composto de vários elementos discerníveis. E essa complexidade, acrescente-se a Morin, é a de duplos laços que lhe regulam o movimento na cena de circulação que a reproduziu. Ora, a teoria do átomo e da molécula corresponde ao nível mínimo da realidade em que esses duplos laços se encontram, duplos laços justamente de partículas, respectivamente protões e neutrões no núcleo atómico e electrões em torno dele. Estas partículas só subsistem ligadas por forças nucleares e electromagnéticas, que serão o que lhes retira o carácter paradoxal das partículas aceleradas do CERN. Serão estes dois tipos de força que anulam a paradoxalidade quântica das partículas à solta: com efeito, é a ligação pela força nuclear dos protões e neutrões que responde pela propriedade essencial da matéria que está na base de toda a física newtoniana, nomeadamente da força da gravidade, a chamada impenetrabilidade, que parece ignorada pelas partículas à solta e será a primeira causa dos espantos que estas provocam nos físicos. Também as partículas chamadas electrões têm que estar estabilizadas em seus átomos por forças electromagnéticas para se poderem formar moléculas, e a partir daí haver sólidos, líquidos e gases, astros e ser vivos. A mecânica quântica decretaria “erradas” todas as outras disciplinas científicas, tal seria necessário para a sua ‘cientificidade’?
5. É possível assim articular a Mecânica quântica com a física clássica, recorrendo à fenomenologia das forças fundamentais, ao seu efeito nas partículas dos átomos. Já agora, como colocar fenomenologicamente a teoria da Relatividade, a outra grande teoria física que se busca unificar com a Mecânica quântica? Acontece que ela também diz respeito a partículas, os fotões, os quais são libertados por electrões dos átomos quando mudam de nível energético e partem do sol à velocidade da luz – que são eles! – duma maneira que a ‘matéria’ do universo (também) não consegue, como se fosse aqui igualmente verdadeira a afirmação de d’Espagnat, que também a Relatividade “não pudesse dizer-nos fosse o que fosse sobre a matéria” (também os fotões não são ‘matéria’, nem sequer têm massa, mas dela provêm, como todas as outras partículas quânticas). De qualquer forma, parece-me que os fotões não ‘obedecem’ aos paradoxos quânticos, já que irradiam à sua grande velocidade, como se tivessem como ‘missão’ iluminar a terra e os outros planetas; pode-se pôr a hipótese de terem o seu paradoxo próprio, o de tanto serem abordáveis enquanto ‘partículas’ como enquanto ‘ondas’, como os fotões das outras ondas electromagnéticas (das rádios aos telemóveis).
6. Pode este colocação fenomenológica ajudar a perceber a dificuldade da questão da unificação da Física que se deseja e não alcança, apesar de tantos lhe irem no encalço? Certamente que não, se esta consistir numa equação universal que dê conta das duas novas físicas do século XX, como creio ser o objectivo dos físicos, com a consideração anexa de que a física clássica, “errada”, não teria nada a ver com ela, nenhum contributo a dar-lhe. Mas sabe-se que quando se trata de movimentos com velocidades incomparáveis com a luz e de movimentos de massas dos graves terrestres com dimensões incomparáveis às das partículas, as equações principais respectivamente da Relatividade e da Mecânica quântica, tendo em conta as diferenças de escala laboratoriais, reduzem-se às equações de Newton. Ora bem, essas diferenças de escala são da ordem dos laboratórios, dos respectivos instrumentos de medida, são elas que os tornam irredutíveis uns aos outros, isto é, creio eu, sem esperanças da tal equação comum. Mas pode-se inverter a operação de redução. Se se tiver em conta que ambos os laboratórios, da relatividade e quântico, são feitos de instrumentos de medida que, eles, relevam da física de Newton, pode-se pensar que a unificação não deverá ser conseguida a partir das duas teorias mais recentes mas daquela donde elas são uma extensão de escala. Então será a equação newtoniana a universal unificadora, tal como foi buscada desde Newton a Maxwell pelo menos, dotada de duas extensões mais complexas para as duas escalas das novas teorias físicas, as das partículas (a ‘extensão’ é a inversão da ‘redução’). É necessário, para que essa unificação se conceba, ter em conta não apenas equações teóricas fora dos laboratórios e respectivas escalas instrumentais, mas também o que fenomenologicamente a Física aprendeu com a teoria do átomo e da molécula, prévia à das partículas. Seria a dimensão fenomenológica da própria física que lhe faria falta mas isso por ‘culpa’ da tradição filosófica que ela herdou dos Gregos e dos Medievais, logocentrista (Derrida), que desde Platão (2ª parte do Fedro) pensa o pensamento como ‘interioridade’ e menospreza a escrita sem a qual todavia ele não se comunica a outrem noutro lugar e momento, menospreza-a por ser ‘exterior’; o mesmo se passa noutras ciências, como a Biologia molecular e neuronal, argumento sobre T. Avelar  e A. Damásio http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2012/12/no-paradigma-da-biologia-falta-o-ser-no.html

Ora, o laboratório experimental de Galileu e de Newton que introduziu a técnica no conhecimento desconstrói esse logocentrismo, a que a geometria dos desenhos sempre escapara. Mas quando os físicos teorizam, tendem a afastar-se do laboratório, a esquecerem-se dele, a pensarem já sem ele, como se não passasse de andaimes de construção que se retiram e esquecem quando os prédios são concluídos. Pensam fora do laboratório, como se reconstituíssem a ‘realidade’ sem ele: no nosso exemplo, como se as partículas dos aceleradores fossem tais quais abaixo dos átomos e dos seus núcleos que se fizeram explodir, sem interrogar a necessidade dessa explosão laboratorial, o papel das forças nucleares na retenção dessas partículas que justifica a impenetrabilidade da ‘matéria’, a tal que d’Espagnat sabia não ter lições a receber da Mecânica quântica. 
7. Há que dizer que quem assim fala, sem ser físico nem químico, teve todavia uma licenciatura em engenharia civil (IST) na sua juventude, há quase 60 anos (onde é certo que não teve aulas sobre as novas físicas). Fiquei contente de ter escrito este texto, coligindo coisas que até aqui estavam esparsas nas minhas tentativas, finalizando enfim um argumento de Fenomenologia física (secção da Filosofia com Ciências em que estas assumem um papel filosófico) que prosseguia há pelo menos 15 anos. Bem haja, José Cutileiro! O  texto a que este dá acabamento foi escrito sob a égide de Prigogine:

[1] J. Cutileiro explicou-me contudo que, no contexto da segunda citação, a palavra ‘maéria’ referia-se à questão da existência ou não de Deus. Salve-se assim d’Espagnat da contradição que lhe atribuí, mas o argumento não depende dela, que serviu apenas, e felizmente, para despoletar o pensamento.