quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Desconstrução : o que tem a ver com a ‘crise’ ?



1. O jornalista António Guerreiro, cujos textos no Ípsilon, revista cultural do jornal Público, todas as sextas feiras são da melhor intervenção filosófica que se faz entre nós a nível de jornais – ele que não cursou filosofia mas literatura, ombreia com a gente da literatura como Silvina Rodrigues Lopes, Manuel Gusmão, Fernando Guerreiro e outros, com quem me entendo melhor em filosofia do que com os filósofos profissionais – na sua “Estação meteorológica” (de 16/09), onde costuma diagnosticar o estado do tempo no que ao pensamento mediático diz respeito, divertiu-se a glosar o uso que se tornou habitual do termo ‘desconstrução’ por qualquer comentador, embora a leste das terminologias filosóficas actuais, que até nem saberá quem é Jacques Derrida, o filósofo que criou o termo em francês na peugada doutro alemão de Heidegger. A dizer verdade, A. Guerreiro não foi tão feliz em retirar pensamento da sua análise como costuma, nem seria fácil em espaço tão reduzido, e foi o que me estimulou aqui: o porquê do motivo da desconstrução, que pode ele elucidar sobre a crise de civilização que manifestamente atravessamos, sem que ninguém saiba para onde se caminha.
2. A origem heideggeriana, Abau, Destruktion da ontologia ocidental, versou ‘destruir’ o substancialismo aristotélico desta, propondo o motivo de diferença ontológica – entre o Ser (não ente, substituído mais tarde pelo Ereignis) e os entes substanciais – como chave de interpretação da história vinda dos Gregos e dos Europeus do século XVII a gerar a modernidade que hoje se globalizou. Derrida prolongou esse pensamento propondo uma diferença gramatológica, uma différance, prévia à diferença ontológica heideggeriana que ainda terá ficado em parte sujeita ao que denunciou. Tenho escrito sobre isso neste blogue. Aqui limitar-me-ei a definir este motivo gramatológico da différance como o que permite entender todo o movimento do que quer que seja, a) como jogo que espacializa-temporaliza, b) relacionado estruturalmente a Outrem donde ele recebe tanto as regras diferenciais, económicas, que o especificam enquanto movimento (e por aí susceptível de ciência) como o seu excesso singular, o que o distingue dos outros indivíduos da sua espécie, c) e nomeadamente dando conta da escritura (instituição diferencial social) como origem do logos, isto é da linguagem oral e do pensamento.
3. De a), resulta que não há espaço-tempo, como julgam os físicos, exterior ou separado das coisas que se movem, que espaço é distância entre lugares e tempo medida do movimento segundo o antes e o depois, como definiu luminosamente Aristóteles, tendo os físicos deixado de compreender o ‘antes e o depois’, o sentido histórico do tempo irreversível, como sublinhou Prigogine fortemente (embora sem ligar ao velho mestre do Liceu). De b), resulta que nada é isolado do seu contexto, o que dá para já uma orientação para o motivo da desconstrução: ela opõe-se à definição que Sócrates, Platão e Aristóteles inventaram, retirando o definido do seu contexto singular para o generalizar como essência; contextualizar, algo que hoje em dia se faz com alguma frequência, faz parte do gesto desconstrutivo, em rigor infindável, já que todo o contexto tem contexto também, nunca se ‘acaba’ a desconstrução, ela é indefinida. De c), resulta algo que nos leva ao âmago dela, que tem a ver com o que, ‘construído’ segundo uma oposição, é des-feito: é a contradição que se joga no movimento e tem incidências no ‘sentido’ que damos a esse movimento. O que quer dizer que a desconstrução joga-se segundo um aforismo derridiano, “não há fora de texto” (De la Grammatologie, p. 227)[1], joga-se nos textos enquanto nossa maneira de sabermos os movimentos do que quer que seja, joga-se no que os textos transportam de uns para os outros, nas leituras, nas pedagogias, nas aprendizagens, mas também, lá iremos, nas variadas técnicas. O que se desconstroi afecta-nos a todos, saibamo-lo ou não.
4. O que chamei ‘incidências no sentido’ ilustra-se na maneira como privilegiamos espontaneamente o nosso pensamento interior, como se pensa frequentemente que esse pensamento tem que buscar palavras para se dizer e comunicar a outros, como enfim um texto escrito, que se afasta daquele que o escreveu e perdura além da sua morte, é menos íntimo, mais artificial, sei lá, desde Platão no Fedro que essa condenação da escrita pelo logos foi exarada e retida pela tradição, até por aquela que se reclamava de textos inspirados pela divindade: essa ‘inspiração’ era desconfiança da escrita, da ‘letra’, em favor do ‘espírito’. É a ‘letra’ que é sujeita no sentido pelo ‘espírito’, achamos que o pensamento do autor domina aquilo que escreveu. Eis uma maneira de dizer um alvo da desconstrução, que se dirigirá sistematicamente na tradição ocidental a todas as oposições conceptuais – inteligível / sensível, alma / corpo ou mundo, sujeito / objecto, interior / exterior, e por aí fora, em que o primeiro termo é privilegiado como fundamento do outro e o exclui de si. Derrida sistematiza a sua estratégia desconstrutiva num duplo gesto: primeiro, inverter o par de opostos, privilegiando provisoriamente o termo subordinado, em seguida deslocar o conjunto de maneira a encontrar uma fonte comum aos dois termos e verificando a sua indecidibilidade, sobre a qual o pensamento ocidental teria de-cidido por de-finição filosófica. Todos os movimentos em que estes termos opostos têm um lugar interpretativo decisivo, são a repensar, no Ocidente; tudo é a repensar, até em biologia. Mas não se trata apenas de ‘pensar’: como justamente está a suceder, as crises são resultado das desconstruções do que foi construído ao longo dos séculos, da Grécia e Roma, Cristandade e Europa; “as quatro se vão para onde vai toda a idade” (dizia Fernando Pessoa algures na Mensagem), justamente não sabemos para onde vai, se ainda haverá outra ‘idade’.
5. O que foi privilegiado como inteligível foi o logos, discurso ou pensamento como capacidade humana acima da corporalidade animal, capacidade que torna os humanos cúmplices das divindades, logos do homem, senhor (da casa) sobre animais, escravos, crianças e mulheres, e também logos de regulação da cidade por via das leis. Dito a correr, nas sociedades de dominação económica agrícola, o discurso politico-religioso coordenava o social e quando falhava a ordem política era o recurso às armas da casta dominante, nobres guerreiros, que resolvia em última instância os conflitos; o predomínio optimista da razão proposto pelo Iluminismo deveria substituir as armas no papel politico (da aristocracia), a razão devendo ser capaz de dominar a natureza, incluindo a natureza humana a educar pela escola obrigatória, substituta da ordem religiosa. Este optimismo relevava do logos, que se reclamava da ciência e do progresso vindo com a industrialização pela máquina e outras técnicas, mormente de ordem química e minorava o papel do laboratório (técnica e matemática, isto é, escrita) nessa ciência, que se julgava triunfo do pensamento humano. Como tenho escrito neste blogue, a exactidão das ciências físicas e químicas vem do papel  da álgebra e das técnicas de medição em unidades convencionais, mantém-se aquém das disputas teóricas interpretativas do labor do laboratório e por aí escapa em parte ao controlo que cientistas e engenheiros têm sobre o que descobrem e inventam. Uma parte das crises vem daí: a poluição, as alterações climáticas, os acidentes da viação, por exemplos que vão fora da vontade humana, sem contar pois com as armas atómicas, que dão conta de outra parte das crises, a que tem a ver com economia e finanças.
6. Estas ‘ciências’ têm-se revelado impotentes face às crises, pela mesma razão pela qual a invenção da pólvora deu para fabricar espingardas e canhões e a da cisão atómica para as bombas que destruíram Hiroshima e Nagasaki: a ética elementar que manda “não matar” e deveria impedir guerras em tempos cosmopolitas ficou muda diante da vontade de domínio politico sobre outros humanos. Também economia e finanças albergam nos seus mecanismos sociais elementares essa vontade de domínio económico e financeiro: por exemplo, o imperativo de financiamento das economias, resultante de necessidades de ordem técnica, é colocado como relevando dos desejos humanos de enriquecer, julgados ‘inatos’, e da respectiva competição (não se trata de moral mas de epistemologia, não sei como pode ser de outra maneira; face ao crescimento do desemprego devido aos automatismos electrónicos, julgo que serão as próprias crises que obrigarão a rever esta questão em sentido fortemente regulador). Já a grande crise dos anos 1930 se manifestou como incontrolável e gerando nacionalismos que se exacerbaram além do impossível, mas a dos anos 1980 em diante, que explodiu em 2008, teve um motor técnico muito mais forte, o da aceleração electrónica das especulações.
7. As crises relevam de quê? Da técnica ser uma ‘escrita’, uma inscrição que por ela mesma altera o contexto onde é inserida vinda de fora, subverte as condições de equilíbrio social instável que aí predominavam. Máquinas, químicas, engenharias genéticas, medicamentos, são obviamente coisas boas enquanto produzem progresso, o que não só é indiscutível como opondo-se a qualquer opção de voltar atrás das máquinas e da electricidade. O problema é a força dessas escritas técnicas que não são sempre controláveis pela razão humana, ainda que científica e filosófica. Se é certo que a desconstrução é uma operação de pensamento filosófico, que pode fazer alguns diagnósticos, digamos, o que se passa com as crises (como foram as guerras de religião, as revoluções democráticas, as lutas pela escola laica e tantas outras), é elas serem desconstrução das super-estruturas politico-ideológicas que opera por si mesma, a partir de certos limiares de transformação do contexto social, provocando movimentos fortes desestabilizadores, sem que ninguém saiba como (assim os sismos e os vulcões numa ordem que escapa à incidência dos humanos) reestruturar o que está falhando sem recuos possíveis.
8. Diz-se com frequência e uma certa petulância de hiper-modernos, que vivemos e trabalhamos em “sociedades de conhecimento”. Não se sabe, em geral, que isso vem de Platão e Aristóteles, da tal de-finição que de-cide retirar o definido, como essência inteligível, do seu contexto sensível, corporal, sujeito à geração e à corrupção, como diz com frequência Platão com um certo desdém que comunicou ao cristianismo, anulando o amor das coisas singulares que este trazia do judaísmo. Anti-aristotélica, a modernidade é muito mais platónica do que se crê: os nossos argumentos científicos são sobre ‘essências’, pelo que as respectivas técnicas, inventadas integralmente em ‘matéria sensível’, empírica, variada, segundo as medidas ditadas pelos laboratórios científicos, abrem contextos inéditos que, dele mesmo, o nosso ‘conhecimento’ (logos) desconhece. As crises não são senão o testemunho excessivo desse não-conhecimento: já Aristóteles teorizara que lógica e ciência não conhecem o singular, o individual; e os laboratórios europeus também não, que os movimentos que eles experimentam para retirar medidas que validem as equações teóricas são movimentos de singulares quaisquer, condição da chamada universalidade dessa ciência. A desconstrução opera aquém da oposição inteligível / sensível, não opera nos laboratórios, mas nos contextos, por via das técnicas. A sociedade do conhecimento só torna as crise mais graves, não são apenas “a fome, a peste e a guerra” dos Medievais, ou melhor, são fomes, epidemias e guerras muito mais graves.
9. No mesmo número do Público, o professor americano de Ciência Politica, Ian Shapiro, argumenta sobre a grande dificuldade de “exportar democracia”, chamando aliás a atenção para esta ter tido na Europa épocas em que desapareceu e depois voltou, não é pois um dado adquirido entre os que seriam os seus ‘exportadores’, como indicia o triunfo do Brexit e a ameaça de Trump nos dois países em que claramente ela melhor vingou (mas do outro lado do Atlântico com longo apartheid). Aqui não creio que seja a técnica desconstructiva a razão predominante, mas mais o que ela destrói das antigas estruturas antropológicas. Não conheço nada dessas coisas, mas creio que a ausência duma longa tradição de ‘almas’ dando lugar ao sujeito e indivíduo europeu torna a questão mais complicada. O Japão parece mostrar a possibilidade da importação da técnica ser solidária com a da democracia, num estilo que parece respeitar as tradições nipónicas, enquanto que a Índia independente mantém a democracia com a enorme resistência do regime de castas em muitas zonas rurais e a China parece guardar a tradição imperial do mandarinato apesar da resistência de elites para-ocidentais. O Islão. que pareceria o mais próximo da tradição ocidental, tem estruturas antropológicas que resistem fortemente, como infelizmente se tem visto na sua oscilação entre regimes despóticos e islamistas. A África e muitas outras ex-colónias asiáticas e do Pacífico conhecem regimes vindos de estruturas tribais e coloniais muito recentes, não há, creio, experiência suficiente para se saber quantas gerações serão necessárias, se for esse o caminho. Pois que também é muito certo o que Ian Shapiro diz na sua primeira frase: “não acredito que a história se mova numa direcção particular”. E a desconstrução nesta questão? O que eu sei dela releva da história da ‘construção’ ocidental, não sei se as grandes culturas indiana, chinesa e islâmica se prestam a esse tipo de diagnóstico fenomenológico.


[1] http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2014/08/o-exorbitante-questao-de-metodo-de.html, extracto derridiano onde se encontra a frase
“[...] Pode-se chamar ‘contexto’ toda a ‘história-real-do-mundo’, na qual este valor de objectividade, e mais geralmente ainda o de verdade, adquiriram sentido e se impuseram. [...] Uma das definições do que se chama desconstrução seria a tomada em conta deste contexto sem bordo, a atenção mais viva  e mais larga possível ao contexto e portanto um momento incessante de recontextualização. A frase, que para alguns se tornou uma espécie de slogan, em geral tão mal compreendido, da desconstrução (“não há fora-de-texto”), não significa senão que não há fora-de-contexto. Sob esta forma, que diz exactamente a mesma coisa, a fórmula teria sem dúvida chocado menos” (Limited Inc., Galilée, 1990, p. 252.)

domingo, 18 de setembro de 2016

A origem da vida, na teoria de Marcello Barbieri




1. A propósito do texto colocado no último dia de agosto, merece revisitar a questão da origem da vida terrestre, tal como Marcello Barbieri – biólogo italiano que trabalhou longamente na Alemanha antes de regressar a Itália, para liderar um laboratório de biologia teórica – a tornou possível, como deu conta no livro de biologia mais bonito que alguma vez li, Teoria semântica da evolução (Fragmentos, 1987): lê-se como um romance, escreveu René Thom no prefácio à versão francesa, infelizmente esgotado, mas sei de quem conseguiu um exemplar pela Net em livros de ocasião. Seria urgente reeditá-lo, nestes tempos de censura ortodoxa dos pensamentos únicos, com as suas revistas oficiais e o sistema de leitura prévia pelos ‘pares’ (que detestam ímpares), já que 30 anos depois ele parece ignorado como na véspera de ser publicado.
2. Voltei a ler os §§ 2-13 do capítulo 11 do meu Le Jeu des Sciences em que tratei desta questão e, sabendo já que era um texto que não teria quase nenhum leitor capaz de o ler, de tal forma é variada e relativamente complexa a bibliografia utilizada, entre fenomenologia e as cinco ciências analisadas, percebi agora que eu próprio já tenho alguma dificuldade, passados os anos de leitura próxima que me permitiu ir escrevendo. Fica pois um texto sem leitores se o seu próprio autor, embora ainda vivo, deixa de o ser com o tempo. De qualquer forma, a hipótese de traduzir aqui esse extracto revelou-se sem jeito, terei apenas que resumir alguns aspectos. Em relação ao texto anterior, o que afasta o criador é o facto de não ter havido uma ‘criação’ duma célula a partir da qual outras viriam, as células demoraram muitos milhões de anos a serem ‘inventadas’ no início do que chamamos evolução da vida. Aliás, o mesmo se poderá dizer de muitas outras invenções humanas, das cadeiras e das mesas, das camas ou das rodas, ou da agricultura, que levaram séculos de invenções transformações.
3. A primeira consideração a fazer no que aos unicelulares diz respeito implica uma comparação com os ninhos das aves, que utilizam pedaços de vários tipos de materiais de vegetais, pedrinhas, lamas, que já têm de antemão as propriedades que são necessárias para as suas funções no ninho. Igualmente, as moléculas de que as células são compostas têm já de antemão as propriedades de que elas precisam, as células não tiveram que as inventar: elas encontraram-se e depois de muitos encontros e desencontros encaixaram. F. Gros (Les secrets du gène, Odile Jacob, 19912) conta como S. Miller em 1953 mostrou “que descarregando ultravioletas numa mistura de gases cuja composição é próxima da que deveria prevalecer no início da existência do nosso planeta [...] são essencialmente bases nucleicas e ácidos aminados que se formam (p. 184), moléculas à base de carbono que são a matriz estrutural de todas as células, das bactérias aos organismos vegetais e animais. Houve assim nos mares primitivos condições para o que se chama uma sopa de moléculas, para uma “bricolagem molecular incessante” de “jogos selectivos sabedores” (Gros, p. 207), ao sabor das forças electromagnéticas dessas moléculas, atraindo-se ou repelindo-se, criando ligações entre micro-moléculas de carbono (metabolitos) em macro-moléculas que podem desfazer-se ou atrair outros metabolitos.
4. A estrutura química duma molécula é a sua função na célula: uma, é uma fibra capaz de funções estruturais de sustento e protecção, outra um lípido capaz de tornar-se elemento de membrana, outra um ATP reservatório de energia, outra uma molécula de ácido ribonucleico que sabe auto-replicar-se, ou sintetizar metabolitos para fazer tal proteína, ou uma enzima que cataliza tal proteína, e por aí fora. As moléculas que se fazem e desfazem têm funções celulares possíveis, como o ferro e o granito cujos átomos tornam possíveis materiais de construção ou os restos com que as aves fazem os ninhos devido às propriedades deles. Barbieri propõe uma teoria ribotípica ou semântica da evolução. Chama ribosoïdes “os sistemas moleculares contendo o açúcsr ribos: ATP, nucléotidos, transferts, mensageiros e ri­bosomas, por exemplo, são todos ribosoïdes. Além disso chamei ribotipo ao sistema formado por todos os ribo­soïdes da célula e propus a ‘teorie ribotípica’, a partir de dois conceitos: a célu­la não é uma dualidade de genótipo e fenótipo, mas uma trindade de genótipo, ribótipo e fe­nótipo, e a vida, na superfície da Terre, tem origem nos antepassados dos ribótipos” (p. 113). Os ribótipos sendo o mecanismo específico da célula, o que ‘fabrica’ as protéinas; ele propõe a an­teriori­dade filogenética numa primeira fase da evo­lução dos proto-ribosomas (entre há 4.6 e 3.6 bil­iões de an­os da Terra): tratava-se de moléculas-mecanismos polimorfos, compostas de ARNs diversos, capazes de se auto-agregarem e de polimerisarem aminoácidos ao acaso, que produziram portanto durante um bilião de anos proteínas muito diversas (feitas e desfeitas a seguir) no que ele chama quase-replicação (quase porque sem regularidade, sem cópias).
5. Em vez de se pensar que as macro-moléculas celulares se formaram algures e depois juntaram-se, esta teoria em que há ribótipos com a propriedade de sintetizarem, o jogo entre moléculas dos proto-ribosomas durante um bilião de anos de evolução précelular, antes de surgirem os primeiros procarioatas e eurocariotas, é concebido como um verdadeiro jogo de acaso jogando a fabricar todas as macromoléculas possíveis até um certo grau de complexidade mas sem replicação garantida, feitas e desfeitas, refeitas talvez depois, até que algumas encaixem e a selecção natural tenha algo para seleccionar. Na “bricolagem molecular incessante” de Gros há um mecanismo pré-celular decisivo, uma ‘máquina’ que fabrica peças inutilmente, há já um trabalho antes da invenção da replicação e do retiro do ADN. A este imenso bilião de anos até se formarem unicelulares, muitos sem dúvida, acrescentaram-se mais três biliões de anos para estes se desenvolverem o suficiente para poderem aparecer os primeiros organismos, pluricelulares, cuja evolução no sentido da complexidade – pode dizer-se que foi então que começou a haver verdadeira evolução – ‘só’ precisou de 600 milhões de anos para chegar aonde chegou, um quinto do tempo dos unicelulares, pouco mais de metade do tempo do jogo primordial.
6. Neste jogo de acaso e estruturação de biliões de anos, não se vê maneira de colocar uma Causa demiúrgica, não há pura e simplesmente lugar para um tal antropomorfismo, mais compreensível quando se tratava de ‘criar’ árvores e galinhas, ‘entes’, sobretudo almas humanas.
7. A primazia temporal dos ARN ribótipos sobre os ADN desoxy-ribótipos põe a questão de saber porquê e como foram eles necessários; a terminologia bioquímica sugere ao leigo que houve uma perca de moléculas de oxigénio (desoxy) a partir de ribosomas, o que confirma Barbieri, mas este, se não põe a questão, permite responder-lhe. Parece que haverá necessidade de ‘guardar’ o que se tornará o ADN para pôr cobro ao desperdício de moléculas de carbono fabricadas pelos proto-ribosomas para nada (o que explicará as ‘mutações’ dos genéticos?), isto é, o ARN não poderá continuar a sintetizar ao acaso das moléculas que encontra, ele tem que ser regulado no sentido dos interesses da célula e do seu metabolismo, tornando-se o ‘mensageiro’ do gene do ADN que é expressado (por mecanismos variados). A perca de molécula(s) de oxigénio deste implicaria uma inibição do potencial de variação de sínteses de proteínas, cada gene se especializando na sua e inibindo o seu ‘mensageiro’ de fazer quaisquer outras, e portanto a degradar-se quimicamente após a sua ‘mensagem’ cumprida. Obviamente que me arrisquei, sapateiro a pretender falar do joelho, mas este enigma deslumbrante dum ninho auto-construído foi mais forte do que a contenção que incombe ao fenomenólogo.
8. Peguemos na tríade proposta por Barbieri (não sabendo do meu exemplar do livro, não posso verificar se a frase que segue releva dele, como creio). Os genes (o genótipo) especificam a espécie e as protéi­nas (o fe­nó­tipo) os diversos tecidos, os ribótipos sendo o mecanismo específico da célula, o que ‘fabrica’ as protéinas. O ADN dum organismo só abre uma parte dele para cada tipo de células especializadas, segundo os diversos tecidos da sua fisiologia e as proteínas que eles requerem, que definem a especialização do tecido, o que será do nível do fenótipo de cada tecido; enquanto que o total do ADN, compreendendo todos os tecidos e órgãos, será o seu genótipo, igual globalmente em todos os indivíduos da espécie. Se bem entendi a vantagem de Barbieri propondo os ribótipos, que eles têm a ver com o metabolismo que reproduzem na célula, o metabolismo que é a célula, a tríade permite jogar com os três níveis de análise molecular da anatomia do organismo: o do metabolismo de cada célula, pelos ARNm após transcrição do respectivo gene do ADN, nível ribotípico ; o dos tecidos especializados, o fenotípico; o do conjunto da anatomia, o genotípico. Enquanto que a díade genótipo e fenótipo, este entendido como o indivíduo, presta-se ao dualismo determinista que pretende(u) que os genes determinam o indivíduo, ignorando justamente que eles trabalham só na célula, mediante o ribótipo, e que são os diversos fenótipos especializados que colaboram entre si para o funcionamento anatómico do organismo individual na cena ecológica, em que busca a sua reprodução (caça) e da espécie (cópula) e evitar ser presa de outrem. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Phusis, escrita e Criador



            1. A Biologia molecular pode ajudar a compreender a ‘morte de Deus’, se for verdade, como creio, que o que deslumbrou os filósofos gregos em torno da phusis foi a fecundidade, como plantas dão origem a plantas e animais a animais e humanos a humanos, como do pequenino, semente e ovo surge o que cresce e se torna grande, e quando se vê como em alguns textos do novo Testamento se diz que os humanos fazem agricultura mas é Deus que dá a planta que cresce (em 1Coríntios, cap. 15, Paulo explica a partir daí a ressurreição).
http://phenomenologiehistorique.blogspot.pt/2016/06/de-la-fecondite-dans-la-bible.html
            2. Nos Gregos socráticos, há duas atitudes diferentes. A de Aristóteles, é a de se admirar com o movimento vindo do próprio vivo que cresce; a de Platão parece nas antípodas, já que a geração e a corrupção são o que ele desdenha, para privilegiar as Formas ideais imutáveis que a alma – não gerada e imortal – contemplou fora do corpo e pôde assim ter nela mesma experiências intelectuais espirituais (ele não distingue) que não foram aprendidas: é pois também a aprendizagem (corporal, com linguagem) que ele desdenha, mas igualmente para privilegiar o movimento fecundo da própria alma. Ontoteologia, segundo Heidegger, a que o cristianismo dará reforço com a noção de criador e de criatura, o par estrutural de relação de ontoteologia, a da criação.
            3. Que a linguagem oral de que o logos é feito seja uma ‘escrita’, imprime-se nos humanos vindo dos falantes em redor, chega para dar conta fenomenologicamente da ‘alma’ platónica, que por sua vez também a biologia molecular e a sua neurologia dispensaram, incluindo a aristotélica, forma não imortal do corpo, ao qual dá o mover-se por si mesmo. Como intervém aqui a descoberta da biologia molecular, o ADN e o ARN, mensageiro daquele no metabolismo da célula? Pensando bem, o ADN gera o ARNm (seja qual for o mecanismo que desencadeia tal geração, há vários) e este, cumprida a sua missão de sintetizar a respectiva proteína, corrompe-se quimicamente. O que significa que ele obedece ao esquema que Platão desdenhou, deixando o ADN vivo, capaz de vir mais tarde a gerar de novo esse ARNm, mas entretanto gerando muitos outros segundo as necessidades do metabolismo; e quando a célula se reproduz, cada uma das novas células recebe um ADN igual, guardião da perenidade do metabolismo enquanto célula houver. Ora, este papel em cada célula especializada repete-se nas outras especializações de tecidos e órgãos, estes constituindo a anatomia do animal: o ADN é assim o que garante o movimento por si próprio do animal, tem o papel que Aristóteles atribuía à alma (o vitalismo na história da biologia é a resistência desse aristotelismo). E como é transmitido nos gâmetas, como uma espécie de ‘quase transcendental’ da espécie, o argumento que Tomás de Aquino desenvolveu, na esteira de Aristóteles, para justificar um Motor primeiro, deixa de servir: em rigor serviria para a primeira célula de todas, mas esta não existiu nunca, quando houve unicelulares, eram já muitos que já se reproduziam uns aos outros, sem nenhuma bactéria Adão nem bactéria Eva.
            4. Que os biólogos falem em programa genético, em que –grama é o termo grego para escrita (como em gramática) – Derrida faz-lhe referência numa nota do 1º capítulo da sua De la Grammatologie – justifica que o ADN, com as suas quatro letras, seja uma escrita, algo de inscrito no núcleo das células vindo das suas progenitoras. Como com a aprendizagem dos usos e da linguagem, de inscrições vindas da tribo, pode-se dizer que foi através de escritas que o mistério da fecundidade ficou esclarecido, o criador dispensado.
            5. Do que não ficamos dispensado é de amar o próximo, mas é a coisa mais difícil do mundo. Tendo em conta o que dizia a minha sogra, a D. Carolina, analfabeta mas uma das pessoas mais inteligentes que conheci: “deus mandou ser bom mas não mandou ser parvo”.

domingo, 14 de agosto de 2016

A Fenomenologia de Derrida



1. Há quem pense, F. Bernardo e J.-L. Nancy por exemplo, que Derrida não é fenomenólogo, e eu aceitei-lhes a opinião, propondo que o que fiz, Filosofia com Ciências, era uma reformulação da Fenomenologia. Na verdade, há aqui um equívoco sobre a palavra: entende-se que Fenomenologia é o que Husserl praticou, a intencionalidade da consciência da coisa, e que continua a ter praticantes como escola filosófica. Estes não conheço, mas do que sei de Husserl, o seu famoso slogan, “retorno às coisas”, entendido como descrição dos fenómenos, isto é, fenomeno-logia, não foi conseguido: faltou-lhe o tempo e portanto o movimento de que ele é a medida. Ora, se Fenomenologia é essa descrição, e como fenómeno nenhum é ‘imóvel’, sem mudança, nem que seja uma rocha sujeita à erosão, a posição husserliana lançou a Fenomenologia mas não a alcançou. Além de não considerar nem o tempo nem o movimento, também Husserl propôs a coisa, como “objecto” de forma ante-predicativa, a percepção sendo pura de linguagem, embora a intenção da consciência para ele fosse dita nas traduções latinas “signitiva” (em alemão é como?), pressupondo pois os signos da linguagem como condição da consciência percepcionar a coisa.
2. Heidegger desfez estas três ‘lacunas’ e acrescentou-lhe o primado do mundo sobre a consciência e o objecto, prescindindo destes dois termos para colocar o humano como ser no mundo, do que faz parte o ser temporal em seus movimentos e ter linguagem. E acrescentou-lhe ainda o Ser como doação dos entes (diferença ontológica) que veio a caracterizar pelo retiro dessa doação. Sendo este nível da doação e do seu retiro que o ocupou sobremaneira, até ao Ereignis de 1962, será mais difícil de pretender que ele se manteve fenomenólogo, mas abriu o caminho de Derrida para a Fenomenologia
3. Eis o ponto. Com o tempo e o movimento, a linguagem e o ser no mundo, o que é que fez Derrida que Heidegger não? Introduziu a redução fenomenológica de Husserl na linguagem, na diferença saussuriana entre os sons e os significantes (estes diferenças daqueles), ou seja na diferença entre fala e língua, diferença indissociável mas que à Linguística, enquanto ciência, serve para reduzir tudo o que releva da fala e restituir os paradigmas da língua. Mas para o fenomenólogo (ou gramatólogo), esta redução tem que ser apagada em seguida a ela ter trazido a diferença para o tempo e o movimento, ter trazido a différance. Ora, o que é esta? É o que é prévio à diferença língua / fala e a dá enquanto fenómeno de fala, que não é inteligível sem os paradigmas da língua, os quais por sua vez não existem ‘no mundo’ senão na inteligibilidade que dão às falas. Ora, as falas, além de terem os seus sons, têm também os seus sentidos que referem os fenómenos do mundo, trazem-nos com elas, é mesmo para isso que elas servem, as palavras e as frases. E só com elas se chega aos tais fenómenos! Como Husserl teria querido sem ter sido capaz, lógico e matemático demais porventura, ou em época ainda não propícia.
4. O aforismo do  De la Grammatologie, “não há fora do texto”, que lhe valeu tanta critica e tanta incompreensão, mais não é do que a tradução gramatológica da intencionalidade da consciência de Husserl, tendo em conta a linguagem e a sua temporalidade, o seu movimento, mas também o mundo que nela se diz e que o próprio mundo (tribal) ensina para dizer... os fenómenos. “Não há fora do texto” significa que os fenómenos do mundo que nós conhecemos nos vêm pela linguagem-pensamento, conectados com o que nos faz ver, ouvir, mexer, sentir, tudo fazendo parte da nossa maneira de falar ou escrever, de ouvir ou de ler, de pensar.
5. A différance é o enigma que une indissociavelmente o mesmo económico (a língua e outros usos sociais, o biológico disso) e o que o excede, como despesa, “resto, excesso ou diferença”, como se dizia na escola primária dos anos 40. É possível que F. Bernardo e J.-L. Nancy excluam um destes indissociáveis, para pretender que Derrida não é fenomenólogo? Que Derrida tenha feito outras coisas, é bem certo, que elas não sejam fenomenológicas não sei que chegue para o garantir. O que a Filosofia com Ciências acrescenta à Gramatologia é a contribuição fenomenológica das principais descobertas científicas do século XX, que só se me deram à luz do duplo laço derridiano, este tornando-se o esteio da fenomenologia que estava a fazer, mas de que só compreendi que se tratava de fenomenologia perto do fim. O que é certo é que aí se descrevem fenómenos nas suas lógicas, no que lhes dá movimento e no que os guia no aleatório das respectivas cenas. Já agora, aqui que ninguém nos ouve, descrevem-se mesmo os fenómenos relevantes das respectivas ciências de maneira que os próprios cientistas não costumam conseguir, por não se saberem desprender suficientemente da sua essencial actividade laboratorial.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A matéria não é bruta, é muito variada



1. Não faças mal, o lindíssimo livro do neurocirurgião inglês Henry Marsh (lua de papel), que conta inúmeras operações que fez, restituindo a sua dimensão humana, os sucessos e os erros, conta também a morte da mãe, que acreditava que havia vida após a morte, o que ele não compartilhava; escreve todavia assim no final desse capítulo: “e agora, todas aquelas células cerebrais estão mortas e a minha mãe – que em certo sentido era a interacção electroquímica daqueles milhões de neurónios – deixou de existir. Nas neurociências chama-se a isto o ‘problema da ligação’ – o facto extraordinário que ninguém consegue sequer começar a explicar de que a mera matéria bruta pode dar origem à consciência e à sensação” (p. 193-4). Que um tão delicadíssimo conhecedor prático da ‘matéria nervosa’ lhe chame “mera matéria bruta”, é a mim que parece extraordinário e mostra como o velhíssimo dualismo matéria / consciência joga de maneira irredutível, brutal: bruta, a matéria!. É o artigo definido que é o erro, há várias matéria, diferentes níveis de matéria de crescente complexidade, afastando-se da brutalidade dum pedregulho que esmague uma cabeça que Marsh tenha que operar.
2. A maior diferença é entre a matéria inerte dos físicos e a matéria viva dos biólogos, mas já na primeira há graus. O nível básico é assegurado pela força nuclear que liga protões e neutrões para fazer o núcleo dos átomos, com os mais de cem patamares da tabela periódica e a variedade cíclica das suas propriedades; o átomo todavia só existe devido à maneira como o seu núcleo cria laços com electrões, mas estes conseguem melhorar de nível material criando laços com electrões de outros átomos, iguais ou diferentes, formando moléculas que se agregam de forma tal que, segundo as condições da temperatura ambiente, podem ser à vista desarmada sólidos como gelo, líquidos como água ou gasosos como vapor. Já pois a este nível há muita diferenciação na matéria, mas a diferença espectacular é a que vence a inércia, com moléculas muito complexas em que o carbono predomina com as suas duplas ligações, as quais conseguiram – num jogo dum bilião de anos segundo Marcello Barbieri (Evolução semântica, Fragmentos, o livro mais bonito de biologia que alguma vez li) – que os laços entre elas de moléculas diferenciadas, as células, se reproduzissem e não se desfizessem de novo como até aí.
3. Esta vitória sobre a inércia, produzindo entropia de estruturas dissipativas (Prigogine, Nobel de Química em 1977), estabilidade instável devendo constantemente refazer as suas moléculas com outras vindas de fora, impede de chamar ‘bruto’ a este nível de matéria, já que dotada de autonomia e crescimento, a phusis que fascinou Aristóteles, o que chamamos natureza, as coisas que nascem (e morrem) como as pedras não. Foi do que Darwin estabeleceu a evolução como o que veio além da inércia até aos mamíferos e aos humanos. E também aqui as anatomias mostram como os vertebrados conhecem cerca de 200 tipos de células especializadas em tecidos de que se fazem os seus órgãos, numa anatomia ligada e coroada pelo cérebro, a rede neuronal que não é senão a instância da sensação e da consciência que Marsh opunha à matéria bruta: ela é a rede de conhecimento do animal, de si e do mundo que o envolve, que o pulsiona a buscar presas que o alimentem e a defender-se de ser presa doutros mais fortes. A rede de sinapses é um grau finíssimo de matéria: jogo de electricidade (de iões) com oscilações químicas entre sódio e potássio! Segredo da memória, os neurónios assim enlaçados em rede formam a mente a que só o próprio tem acesso (Damásio, O livro da consciência). Se Marsh o lesse, compreenderia que ele lhe oferece a solução do tal “problema da ligação”? Ou o dualismo será nele forte demais, que o impeça de compreender que já se explica esse problema tremendo justamente na área que ele pratica de forma tão excelente?
4. Mas a matéria, que não é bruta, não acabou aqui, já que os hominídeos foram aprendendo a jogar com a matéria inerte, com o fogo a transformar a matéria dos cadáveres que comiam, a juntar sons para dizer o que lhes era vital comunicar, depois a fazer instrumentos, a compreender como fazer agricultura, etc. Ora, as falas que dizemos também só são possíveis em ‘matéria’ sonora, assim como as escritas em papel ou equivalente, mas tomam essas matérias de empréstimo, por assim dizer; ora, já os sons são muito pouco ‘materiais’, são vibrações do ar, e as línguas consistem apenas nas diferenças entre esses sons quase materiais (Saussure, o maior linguista do sec.XX), diferenças quase imateriais! São elas que enlaçam as nossas pulsões químicas, os amores e as amizades, as paixões artísticas e intelectuais, e tantas e tão variadas emoções no topo da escala da matéria que vem desde os átomos. Quase imatérias, química das sinapses neuronais, diferenças entre quase matérias: perto do que Marsh quereria, tão longe da pedra. Que a matéria não é bruta, ele sabe-o melhor do que nós (a filosofia dele é que não é boa).
5. É um daqueles livros que se tem pena de chegar ao fim, faz-nos penetrar na intimidade da vida dum neurocirurgião de grande nível.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Já se sabe hoje como será AMANHÃ



1. Que economista que se preze não sonha encontrar solução teórica para alguma das principais questões que nos assolaram nas duas últimas dezenas de anos? Alguém será capaz de resolver duma só penada problemas como as monoculturas, os químicos e a fome de quase um bilião de humanos, as ameaças climáticas, a estrutura financeira quase autista que dá cabo das economias locais, a insuficiência democrática com o desprestígio crescente dos políticos e os populismos consequentes, sem falar das dificuldades dos sistemas de ensino? Mais: fazer isso num discurso em que as afirmações teóricas são argumentadas com exemplos práticos de várias zonas do globo. Pois bem, houve Alguém que o fez e nos é mostrado, são muitos milhares de pessoas empenhadas em soluções locais muito diversas, algumas com 20 e mais anos de experiências, a maior parte mais recentes, respostas imaginativas às crises globais, que vão além de todas as ‘alternativas’ do ‘não há alternativa’ ideológico. O filme que as conta, um milhão de espectadores em França, chama-se singelamente AMANHÃ.
2. Um dos exemplos, que se multiplica por muitas outras cidades, foi como a população pobre de Detroit, após o afundamento da indústria americana do automóvel e o êxodo da população qualificada, criou por tudo quanto era sítio agricultura diversificada e próxima, com inovações instrumentais de jardinagem manuais mais rendíveis do que tractores, aproximando-se duma alimentação auto-sustentada. As energias renováveis, que são da ordem do local justamente, são aproveitadas em muitas zonas que prescindem do petróleo e do gás. Uma fábrica de envelopes francesa tem 20 anos de experiência voltada para as condições de trabalho e de produção e não para o lucro, com um ciclo de reprodução que tende a dispensar matéria prima nova, recorrendo aos desperdícios do século XX e vendendo por sua vez os seus para reciclagem de agricultura (se bem me  lembro). Outro exemplo é a de cidades inglesas como Todmorden que criaram um circuito fechado de moeda local que só vale para as suas instituições e não no mercado da libra (mostram uma nota de 21 libras!), não dando para entesourar e enriquecer. Quando antes de começar, pediram opinião a um conselho consultivo de economistas, ninguém foi capaz de prever o que se passaria: experimentem! Mas há 80 anos, desde a crise dos anos 30, que o banco suíço WIR (Basileia), que a maior parte dos suíços não conhece, criou uma moeda que serve localmente entre elas umas dezenas de milhar de PME. Decisivo nestas moedas locais é a ‘confiança’ que as sustenta, os empréstimos, vendas e compras. Exemplos ainda de democracia, na Islândia contra a decisão do governo de ‘salvar’ os bancos (e os seus empréstimos a ingleses e holandeses, o filme não fala disso) forçaram a demissão dele e dos directores dos bancos, chegando a criar uma nova constituição, ou em aldeias da Índia pondo brâmanes pobres a conviverem com intocáveis também pobres; ou para certas tarefas a ideia de eleições por sorteio entre cidadãos, como se fazia na Grécia e na Roma antigas e nos júris de tribunais, com grandes vantagens em termos do seu empenho nas tarefas para que foram eleitos. Enfim, a escola finlandesa autónoma, sem exames nacionais nem ‘ranquingues’ de concorrência, cujos currículos são revistos de 6 em 6 anos, num processo que vem desde 1971.
3. O que este filme mostra é como que um retorno a Aristóteles, o primeiro grande filósofo-cientista: como se articula a polis, a cidade local, de forma parcialmente auto-sustentada e se a defende das agressões globais, roubando-lhe inclusive munições e deixando como global o que o merece. Dá para pensar que onde haja qualquer crise sentida localmente, sabendo-se das outras experiências e hoje isso é muito fácil, pode-se encontrar de forma relativamente rápida maneiras de reagir onde se está a ser atingido. Ao contrário duma revolução clássica, conduzida por cima e destruindo para revolucionar, é a gente debaixo que se levanta, deixando os de cima a terem de se dar conta do que lhes está escapando. Tenho buscado em livros, como é meu mister, resposta para estas crises sem rosto e sem responsáveis que não sejam burocratas e gente de finanças à solta, resposta que passe pela gente de carne e osso que vejo nas ruas e nos comboios; paradoxalmente foi um filme que me veio aliviar as angústias quanto ao futuro, tenho filhos e netas: há saídas para o apocalipse, garante o filme AMANHÃ.
4. A alusão a Aristóteles é à noção de polis autárcita, auto-suficiente, implicando a cidade propriamente dita e a região agrícola que a envolve (Politica). É o que os historiadores chamam “cidade Estado”, mas era de facto, em linguagem do antropólogo Pierre Clastres, a cidade contra o Estado, a impedir que houvesse um Estado grego dominando as várias cidades autónomas. Como aqui, estes acontecimentos locais defendendo-se dos circuitos globais, sem deixar de aproveitar deles tudo o que lhes seja proveitoso. Quando nas minhas tentativas fenomenológicas sobre ciências das sociedades, propus que as sociedades agrícolas têm como estrutura de base a região, uma cidade com artesanato e algum mercado e estrutura politica adequada (Lisboa e os saloios), pensei que as várias modernidades cosmopolitas, nomeadamente o helenismo e o império romano, criaram redes de super-estruturas inter-regionais, como as modernas nações. E foram essas regiões que sobraram do afundamento do império romano ocidental latino (e aliás também oriental, de língua grega), oferecendo a base do feudalismo medieval até que as regiões recomeçaram a mexer em comunas vivas e ao pé de algumas universidades se desenvolveram a recuperar os textos antigos e a estudá-los e discuti-los.
5. É esta estrutura que o filme mostra estar a ser criada em muitos lados, eles andaram por dez países mas dizem no final que há muitos mais a efervescerem, em defesa face às agressões do global, não necessariamente contra todo o global, mas contra as destruições que ele provoca por ignorância das bases cívicas e económicas que sustentam as redes globais, que são redes entre regiões que as ignoram. Mas sendo assim, esta ossatura de resistência local tendendo a autarcia pode também anunciar uma futura civilização pós imperialismo financeiro, quando este se for criando fendas que ele não saiba e possa remediar, pôr-lhe remendos duráveis. Então já provavelmente as novas realidades cívicas estarão relacionadas entre si por redes de comunicação mais ligeiras e diversificantes. Eis como o AMANHÃ me faz sonhar.
Público, 10/08/2016

quarta-feira, 20 de julho de 2016

As duas faces da moeda



1. Todos pasmámos perante esta lição de populismo que o Brexit acaba de nos dar e esperemos que seja mesmo lição para outras bandas, trumpistas ou lepenistas. Não será a ‘doença infantil’ do capitalismo, mas tem algo duma inocência infantil, da ilusão duma coisa muito simpática que se quer muito e só depois, ao se sentir as consequências adversas, que o que se queria como cura agravou a doença, se percebe que era uma ‘ideia louca’. Mas por se tratar de mal-estar de multidões, merece respeito por elas quando se repudiam as ideias, ainda mais quando se sabe que esse mal-estar é de muitas outras multidões por esse mundo fora e que os dirigentes políticos que temem e criticam com razão o populismo, não parecem ter resposta à altura, habituados a desculpar-se com ‘a crise’ que é de todos, portanto, nós...: relativa impotência dos Estados, mesmo unidos, europeus, reinos britânicos, talvez sem teoria de direito financeiro e/ou de economia que se imponha.
2. Quando se trabalha em filosofia e se pede aliança a algumas ciências, pode ter-se tendência a pensar que é pensamento que falta, ainda que não se saiba propô-lo. Olhe-se para a moeda. A tradição da esquerda tem dificuldade em aceitá-la, mas tal como a electricidade na dimensão técnica, é impensável a contemporaneidade na dimensão social sem ela, já que ela dá uma liberdade elementar, a de escolher o que se quer e precisa, dentro dos limites do orçamento familiar. Dos números ela recebe a razão de calcular, de estabelecer preços para as trocas diárias, segundo custos e tempos de trabalho. Esses números permitem uma ciência em que a moeda, a sua face monetarista, reduz tudo o que não é ela: de tudo o que seja mercadoria, só retém quantidades e preços, única maneira de encontrar regras no complexo mundo das trocas; enquanto tal, a economia não sabe nem de biologia nem de antropologia nem de politica, não sabe de fome, de doença, de escola, nem de bem e mal.
3. Mas a moeda tem outra face, que a torna diferente dos números e das letras e das palavras e das músicas, sistemas que se podem comparar com o seu. Estes sistemas não têm donos, embora tenham artistas que jogam melhor do que o comum das gentes, pertencem aos usos de todos, como queiram, são parte também da liberdade de sermos humanos em sociedade. Mas a moeda só pode funcionar como reguladora de trocas, uma das partes de cada troca, a outra sendo uma mercadoria, só o pode fazer por ser propriedade de quem a usa para comprar e tornar-se propriedade de quem cede a mercadoria que vende. Não há dinheiro sem dono, faz parte da lógica da moeda, da sua positividade, senão não serve para trocar, não é moeda. Aqui, os números têm um papel malicioso, que é o de dinamizarem a economia acicatando desejos de ter maiores quantidades, sempre mais, sempre mais do que o vizinho, o colega, o rival, o concorrente. E como ela funciona nos cálculos económicos reduzindo o que não é ela, pode neste acicatar desligar-se de ser preço, de ser meio de troca, tornar-se especulação, com o seu factor narcísico inerente ao desejo de posse.
4. É claro que muito poucos chegam perto de serem o mais rico do mundo, mas os campeonatos de milionários multiplicam-se por países e por especialidades de negócio, em guerras sem quartel que devastam economias, como se viu em 1929 e em 2008, de que padecem os milhões que votaram Brexit e os que querem trampa americana, vítimas dessa ‘ideia louca’ de que ser-se milionário é o melhor que há no mundo, que as lotarias entretêm nos que sacrificam perseverantes à deusa Sorte, boa consciência dada pelas “santas casas da misericórdia”!.
5. O problema desta loucura devastadora não é a falta de solução, esta existe, chama-se regulação, existe certamente no direito financeiro e em teorias económicas minoritárias: trata-se de prever a sua aplicação, uma espécie de ‘código da estrada’ da circulação da moeda para lhe evitar acidentes, as catástrofes que são as crises, as fomes, as epidemias dos pobres. O que falta é a força politica necessária para regular efectivamente: os off-shores são a prova de como se foge às regulações que há, a prova das cumplicidades que tecem a impotência politica: quando se escolhe para alto posto politico da regulação da União Europeia o simpático que fabricou um off-shore mesmo nas barbas dela. Os que governam as economias que a especulação está devastando não são cúmplices dela, ao crerem que o que mais precisam é de investimentos para fazerem crescer os números dos PIBs? Não se vê que o que cresce é o desemprego, é a precariedade, é a juventude que vai vivendo de sandes na incerteza do futuro?
6. É a ideologia do ‘querer ser rico’ que mata os ideais. Dinheiro? nem de menos nem de mais.

Público, 19/07/ 2016